CATIVOS E LIBERTOS
 EsteLivro foi Digitalizado por Emanuel Noimann dos Santos e Corrigido por Fabiana Martins.
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l1 Edio/impresso: Abril/91 3.000 exemplares Reimpresso: Agosto/91 - 3.000 exemplares
3a Reimpresso: Agosto/92 - 3.000 exemplares
41 Reimpresso: Agosto/93 5.000 exemplares
53 Reimpresso: Outubro/94 5.000 exemplares
6a Reimpresso: Janeiro/95 10.000 exemplares T Reimpresso: Setembro/95 - 10.000 exemplares
8a Reimpresso: Maro/97 10.000 exemplares
Capa:Criao e arte final:
Flvio Machado Foto: lio Oliveira da Silva
Reviso: <
Joo Duarte de Castro Composio: :
Fukuart Artes Grficas S/C. Ltda. Fotolito da capa:
Pr-Chapas Fotolito S/C. Ltda. Fotolito do miolo:
Petit Editora e Distribuidora Ltda.
1991.

cativos e Libertos / pelo Esprito Antnio Carlos
psicografado por Vera Lcia Marinzeck de Carvalho. - So Paulo : Petit, 1993. - 207 p.
ISBN 85725301 77
1. Espiritismo   2. Romance medinico Vera Lcia Marinzeck de Carvalho.   . Ttulo
CDU: 133.9
ndices para catlogo sistemtico:
1. Romances medinicos : Espiritismo       133.9
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So Paulo - SP
Outros livros psicografados pela mdium Vera Lcia Marinzeck de Carvalho:
Com o Esprito Antnio Carlos:
- Reconciliao
 Copos que Andam
 Filho Adotivo
Reparando Erros
 A Manso da Pedra Torta
 Palco das Encarnaes
Aconteceu
 Muitos So os Chamados
 O Talism Maldito
Com o Esprito Patrcia:
 Violetas na Janela
Vivendo no Mundo dos espritos
A Casa do Escritor
O Vo da Gaivota
Com espritos diversos:
 Valeu a Pena
Perante a Eternidade

Prefcio
  O regresso  9
Fazenda Sant'Ana  22
Amigos e inimigos  33
Ordem e disciplina  44
Meditando sobre diferenas  59
Marcina  72
Os mortos do corpo  87
O Resgate  101
Acontecimentos em Morro Vermelho  114
Encontros  130
A revolta  146

Fazenda Santa Luzia  161
Pai Toms  182
Os casamentos  198

PREFCIO
 este mais um romance excelente de Antnio Carlos, que confirma todo seu talento literrio e sua capacidade narrativa, revelados com Reconciliao.
Esta histria est ambientada no Brasil Colonial e traz todos os ingredientes indispensveis a prender a ateno do leitor.  uma leitura realmente agradvel. A 
trama  toda prdiga em ao, romantismo, aspectos histricos do perodo da escravido em nosso pas.

Tudo se inicia com o retorno de Jorge  fazenda paterna aps cinco anos passados em Paris, Frana, para onde fora complementar seus estudos. Retornava com o diploma 
de Engenharia, saudoso e com mil sonhos de trabalhar pela libertao dos negros. Ansiava por reencontrar o pai, a me, o irmo mais novo e suas duas irms. Principalmente, 
desejava reencontrar-se com Laurinda, jovem que lhe estava prometida para casamento desde quando eram ainda crianas.
Jorge em todo esse tempo recebera poucas notcias dos seus pais, da noiva e da situao da fazenda.
Ao desembarcar no Rio de Janeiro, planejava ficar na fazenda somente at seu casamento, depois voltaria  Capital onde sonhava ter muitos filhos e participar do 
movimento abolicionista.
Entretanto, foram muitas e desagradveis as novidades que o esperavam em seu retorno. Seu pai, Coronel Joaquim de Castro, havia falecido algum tempo antes e, a seu 
prprio pedido, temendo que o filho desistisse dos estudos, no lhe fora revelada a infausta ocorrncia. Laurinda, sua noiva, havia se casado com Jos, irmo mais 
novo de Jorge. No prprio instante de sua chegada, ocorre uma tragdia: o irmo Jos  assassinado a mando do fazendeiro
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vizinho, homem mau e rancoroso que tinha uma pendncia com a famlia de Jorge. O rapaz v-se, assim, na difcil situao de chefe da familia, com srios problemas 
pela frente.  obrigado a permanecer na fazenda e assumir negcios e responsabilidades. A polcia nada fez para apurar qual o responsvel pelo crime, Jorge investiga 
por sua prpria conta. E a partir da so muitos os lances de ao e emoo que ocorrem na histria. Inclusive, Jorge vem a se apaixonar, por ironia do destino, 
justamente por Marcina, jovem filha de seu inimigo! Joo Duarte de Castro.

Captulo I 
O REGRESSO
A manh estava maravilhosa, naquele vero do incio de janeiro no ano 1826. Sentia-me como embriagado com as belezas naturais do Rio de Janeiro. Passeava, andava 
beirando a praia de Copacabana. Voltara da Frana no dia anterior. Cinco anos longe do Brasil, dos meus, fizeram-me regressar saudoso. Olhava tudo encantado, notando 
o progresso que esses anos de ausncia operaram na Cidade Maravilhosa. Respirava a todo pulmo, o clima quente enchia-me de preguia. Deixara a Frana com neve.
"Que beleza  a neve! Mas no se compara com as maravilhas do Brasil, deste clima tropical."
Deveria ficar no Rio por cinco a seis dias, esperando conduo de minha casa, que me levaria ao lar. Ansiava por v-los. Resolvi passear, distrair-me para fazer 
a espera menos longa.
Regressara com o diploma de engenharia e mil sonhos. Queria contribuir para o progresso de meu pas, ajudando a construir escolas, pontes, hospitais. Idealizara 
lutar pela liberdade da raa negra. Assunto to ventilado, discutido na Frana, entre estudantes.
"Escravido  mancha negra neste pas!" - exclamei alto, no ligando para os poucos pedestres que me olhavam curiosos. "Lutarei por meu ideal. O Brasil ser uma 
grande potncia e um lugar de irmos."
Sabia que minha luta no seria fcil, meu pai custeou-me na Frana, mas era um escravagista. Possua uma enorme fazenda na Provncia de So Paulo; embora fosse excelente 
pessoa e
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seus escravos tratados com bondade, no deveria querer-me como
abolicionista.

"Muito h que fazer em favor dos escravos no Brasil!" Meus olhos iam at o horizonte onde o cu se unia com as guas num acasalamento perfeito; nada parecia difcil 
para os meus vinte e dois anos.
Com gritos, assustei. Voltei a cabea.
- Pega! Pega o fujo! Pega o negrinho!
Vi um negrinho assustado correndo em minha direo. Antes que chegasse at mim, dois guardas o pegaram e seguraram. O terceiro, que o perseguia, corria mais lentamente, 
deveria ser o dono: era alto, bem vestido e no demorou a se reunir a eles. Estava ofegante, irritado.
- E este mesmo! Seu negrinho fujo! Lencio, seu moleque malvado, vai aprender a no fugir mais. Vai levar uma grande surra!
No achei o senhor nada simptico e minha primeira reao foi pensar em defender o negrinho. Mas no era assim que deveria comear a defender esta raa, que pelo 
seu pigmento tornara-se escrava neste pas que eu amava. Iria usar as letras, astcia, meus estudos para ajud-los, e arrumar encrencas no era bom princpio. O 
negro tremeu de medo e rancor sob a ameaa do castigo; era jovem, deveria ter dezesseis anos, calculei; olhava seu senhor assustado, com olhos arregalados e expressivos, 
parecia pedir clemncia. Os guardas estavam impassveis, sorriam pensando na recompensa que receberiam.
Estavam a poucos passos de mim. Aproximei-me, procurando demonstrar pouco interesse, cumprimentei-o gentil e sorrindo. bom dia! - respondeu o senhor, observando-me. 
Estava tambm muito elegante com roupas francesas da
moda. Devo t-lo agradado, voltou sorrindo a explicar:
- Este aqui  meu escravo. Negro vagabundo e fujo. Vai para o tronco.
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Sorri, observei o moleque, tentei demonstrar orgulho, para esconder o d que deu de ver aquele mocinho tratado como um animal, s porque teve a infelicidade e o 
destino de ter nascido num pas onde o racismo era cruel.
- Estou precisando de um escravo - disse, fazendo pose de arrogante -, de um jovem negro. Ia mesmo ao mercado para adquirir. Gostei deste. No me assustam fujes, 
sei lidar com eles. Podemos fazer negcio. No quer vend-lo, senhor?
- Hum... - olhou-me o senhor curioso mas aliviado; passar um negro rebelde para a frente, seria bom negcio.  um prazer servi-lo, senhor, chamo-me Joo, a seu dispor. 
Podemos negocilo, no preciso vend-lo, mas j que lhe agrada,  um prazer cedlo. Ele  bom, fugiu, mas com bom castigo no ter mais idias de liberdades, com 
certeza. E esperto e inteligente.
O senhor comeou a enumerar as qualidades do negrinho que minutos atrs amaldioava, tratou-me com gentilezas, querendo fazer bom negcio.
- Vendo-o por uma pechincha, bem barato para um senhor to jovem, bonito e simptico.
Falou a quantia, pedi abatimento e fechamos o negcio.
Dei-lhe a quantia, mentalizei minhas finanas, tinha o mnimo para ficar no Rio, at que meu pai ou um empregado de nossa casa viesse buscar-me. Teria de privar-me 
de algumas diverses, e at mesmo de refeies.
- Onde quer que leve os documentos da transao e em que nome, senhor?
- Jorge Correia de Castro e Alves. No Hotel Aurora, por favor.
- Pois no, senhor. Logo mais levo-os l. Faa bom proveito de sua compra, senhor Jorge.
O ex-dono do negrinho pagou os guardas que esperavam pacientemente o negcio ser feito, contaram o dinheiro satisfeitos, olharam para mim e um deles falou:
- Quer, senhor, que o castiguemos? Faremos barato para o senhor.
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
Engoli a vontade de xing-los, e respondi:
- Obrigado, senhores, cuido eu mesmo dos meus negros. Podem deix-lo agora. Queiram solt-lo.

Olharam desconfiados, um para o outro.
- Se o largarmos, senhor, ele foge. No vai amarr-lo ou prend-lo?
- Pode deix-lo, por favor!

Os guardas largaram-no e afastaram-se, certamente pensando que logo iriam atrs do moleque novamente.
O mocinho, de cabea baixa, continuou parado, impassvel com a negociao, a sua negociao, sua venda como uma coisa qualquer. Com o dedo no seu queixo, levantei-lhe 
a cabea. Olhoume tristemente, seus olhos eram vivos e demonstravam revolta. Seu rosto estava com sinais de espancamento, tinha os lbios feridos, inchao nas bochechas 
e um corte na testa, do lado esquerdo.
- Pronto, no se assuste - disse-lhe -, est livre agora. Quero conversar com voc. No precisa ter medo. Como se chama?
- Lencio.
- Quantos anos tem?
- Dezessete anos, sinhozinho.
- Bonita idade.  quase homem. Por que fugiu?
- Olhe para minhas costas - disse, levantando a camisa. Suas costas estavam cheias de cicatrizes.
- Pelo visto  rebelde e gosta de fugir. No tem medo?
- Tenho sim, s vezes; ser castigado no  bom. No tenho  sorte, sempre me pegam.
- Por que quer tanto fugir?
Olhou-me e uma leve ironia brilhou nos olhos negros, como se no bastasse ser escravo para querer ser livre! Mas respondeu com respeito:
- No gosto de chicote. Um dia consigo fugir e ento no apanharei mais.
Ri, acabei rindo alto. Lencio olhou-me, assustado.
- Lencio, por que quer fugir? No tem outra razo? Parece inteligente, esperto, e foge sem planejar, j que o pegam sempre.
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O moleque olhou-me, curioso; devo ter parecido bem diferente dos seus outros senhores que dificilmente conversavam com um escravo, e respondeu:
- No gosto de ser escravo, no quero ser, nem sei por que sou. Por que nasci negro? S por isso? No tenho culpa. Mas tenho uma idia, uma vontade de encontrar 
minha me e irms, fujo sempre com esta esperana.
Como no o interrompi, Lencio continuou falando, tristemente:
- Morvamos em uma fazenda, ramos uma famlia. Meu pai morreu com uma picada de cobra venenosa. Minha me, logo aps, foi vendida com minhas duas irms. Tinha oito 
anos, separamos-nos e nunca-mais as vi. No esqueci delas, minha me era to boa, to bonita. Quero mesmo  encontr-las e sermos todos livres.
Fiquei srio, senti o trauma do garoto. Estava h cinco anos separado dos meus para estudar, mas sabia deles. Correspondamo-nos, sentia-me saudoso e com imensa 
vontade de estar com eles. E os sentimentos de Lencio no eram diferentes dos meus. Senti raiva de todos os escravagistas que, para seus lucros, no poupavam famlias. 
Fechei as mos, exaltei-me por segundos, controlei-me; se quisesse usar as armas que preparara, que idealizara, no poderia me descontrolar; para todos deveria ser 
um escravagista, um almofadinha. Continuei a conversar com meu escravo recm-comprado: indagava e ele respondia, curioso, no entendendo aonde queria chegar e o 
que queria.
- Voc sabe onde elas esto? Podem ter sido levadas para longe.
- Sei sim, senhor. O capataz disse-me para onde foram quando compradas. Guardei na cabea, no me esqueci.
- Muito bem, Lencio, demonstra bons sentimentos querendo bem sua famlia, assim.
- Sou homem sinh, mas choro de saudade, queria tanto saber delas...
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- Que fao de voc, ai meu Deus! - disse, porque Lencio olhava-me assustado esforando-se por entender o que dizia. - Mas, pela lei, fao de voc um homem livre. 
 isto, menino, vou dar-lhe sua carta de alforria, assim que seu antigo dono me trouxer os documentos. Realizar seu sonho, sem fugir mais. Poder ir atrs de sua 
famlia e trabalhar para ter dinheiro e compr-las. Vai ser livre, moleque!
- Fala a verdade, sinhozinho?
- Falo. Darei a voc a liberdade, no ser mais escravo. Lencio ficou por segundos parado, com os olhos estatelados. Em seguida, ajoelhou-se, agarrou minha mo 
e a beijou.
- Oh, sinh! Deus lhe pague! Obrigado!
Retirei a mo e lhe sorri, retornei a andar, com ele atrs de mim.
- Venha comigo, ficar no alojamento dos escravos no hotel, at que faa a sua carta. A, pode ir para onde quiser.
Como prometera, o senhor, ex-dono de Lencio, levou-me os documentos da transao,  tarde; embora tendo-o recebido educadamente, no lhe dei intimidades, conversando 
s o necessrio. Aps ter-se despedido, fiz a carta de alforria de Lencio e fiquei um pouco constrangido. Parecia-me ridculo que, s por ser branco e ter dinheiro, 
pudera adquirir um outro ser humano e tambm dele fazer o que quisesse. Estava resolvendo um pequeno problema, dando a liberdade a um ser. Pensei mesmo se haveria 
uma razo para ter presenciado a priso dele, e ter podido ajud-lo. Ou seria s o acaso?
"Fazei a outrem o que desejaria que lhe fosse feito" - resmunguei o ensinamento do Mestre Jesus, repetido tantas vezes, a ns, seus discpulos, pelo Pastor Germano, 
da Igreja Protestante, to meu amigo. Se meus pais souberem, no iro ficar nada contentes. Eram todos fervorosamente catlicos. Aprendi a nada ter contra religies, 
v-las todas como crists e verdadeiras. Ainda jovem, intrigava-me o fato de a Igreja Catlica predominar no Brasil e ter ela escravos que serviam a padres e conventos, 
e no combater
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a escravido. Isto fez-me discutir com o velho sacerdote da cidade perto de nossa fazenda e na Frana. Um amigo de Faculdade levou-me a conversar com o Pastor Germano, 
pessoa de quem gostei de imediato, passando a freqentar os cultos e a estudar a Bblia. Fiquei em contato com os Evangelhos e tive a certeza de que todos somos 
irmos e tornei-me assim mais abolicionista ainda.
Mandei chamar Lencio, e ele veio assustado e muito desconfiado.
- Sabe ler, Lencio?
- No, sinhozinho - respondeu, animado.
Que ingenuidade a minha, saber ler e escrever era para brancos e ricos. Muito poucos negros sabiam ler.
- Aqui est sua carta de alforria; neste papel, moleque, est sua liberdade, guarde-a com muito cuidado, no v perd-la. Aconselho-o a dar para algum guard-la 
para voc.  livre, agora. Tome-a.
Lencio pegou-a, tremendo, abaixou a cabea e chorou, no comeo de mansinho, aps chorou alto. Deixei passar a emoo. Depois, baixinho ele agradeceu-me de muitas 
formas.
- Est bem, Lencio, pode ir. Que seja feliz!
Mas o negrinho no arredou o p, ali ficou na minha frente.
- Que , moleque? Que h? No entendeu? Quer que lhe explique? Falta algo? No est contente?
Lencio a cada indagao movia a cabea, retrucando. Na ltima, respondeu:
- Estou contente sim, sinh. Grato ao sinh e ao Deus dos brancos. Mas no sei para onde ir. Estou com muita fome.
Sorri diante da ingenuidade dele. Queria tanto fugir, ser livre, agora que o era, no sabia para onde ir nem como conseguir alimentos.
- Acho que no basta s ser livre, necessita o negro de ter condies dignas de sobreviver; marcarei isto no meu caderninho de notas,  um bom assunto a ser ventilado.
- Fala comigo, sinh? No entendi.
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
Sorri novamente, falara em francs. Dominava to bem o francs, aprendi to fcil, que parecia que recordava. Falava sem sotaque, era confundido com franceses. E 
meu caderninho de notas era onde copiava tudo o que planejara fazer no Brasil.
- No, no falo com voc. No tem para onde ir nem como conseguir, comida, hein? Se quiser, fica aqui esta noite. Mandarei que cuidem de voc, que lhe dem roupas 
limpas e comida. Amanh veremos o que fazer.

Sorriu contente e, quando acabei de dar as ordens, ele surpreendeu-me novamente, beijando-me a mo, exclamando em agradecimento sincero.
Aps o jantar, fui para o quarto: gastara muito dinheiro na compra do negrinho e tinha que economizar. Meus passeios iam ser agora a p pela bela cidade do Rio de 
Janeiro. Mas estava contente, lembrei-me do que dizia o Pastor Germano:

"O bom gesto traz paz e tranqilidade que o ouro no compra!"
Os ensinos desse sbio homem iriam acompanhar-me pela vida. Muitas vezes pensava no que diriam os meus, se soubessem que nos ltimos anos no mais havia ido a uma 
Igreja Catlica e sim a outra religio?! Estava disposto a seguir os conselhos bondosos do Pastor Germano, suas palavras sob este assunto estavam vivas na memria:
'"Jorge, todas as religies so caminhos e os Evangelhos so as setas. Porm, cabe a ns caminhar. Pouco significa encontrar o rumo, ter uma religio, saber do Evangelho, 
e no seguir, no viver os ensinos do Mestre. Quem no exemplifica em Jesus, pra no caminho e perde a oportunidade de evoluir. Leia, continue lendo a Bblia, estude 
com carinho e viva os Evangelhos; esto neles a sabedoria de um crente. L na sua cidade, no h Igreja Protestante, siga a Catlica com seus familiares. Tire as 
coisas boas que ela oferece. Caminhe, oriente-se pelo Evangelho, no pare, cresa em amor e sabedoria. Principalmente, recorde-se da "parbola do semeador': no 
deixe seus sonhos, ideais, serem sufocados pelos espinhos do egosmo e pelas facilidades da riqueza."
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"Que saudade j sinto da velha Frana! Dos amigos, da Igreja Protestante, dos estudos bblicos, dos companheiros de ideal e f. Talvez, um dia, volte. Mas  no Brasil 
que devo servir, trabalhar, lutar pela liberdade. Minha Ptria no pertence mais a Portugal, D. Pedro  impulsivo e na Europa comenta-se a frgil sade de D. Joo 
VI. Ser que D. Pedro voltar para Portugal com a morte de seu pai? Ou ficar no Brasil? Era muito pouco tempo de Brasil liberto e parecia ele um nen a gatinhar."
Dormi cedo e sonhei com minha av paterna; acordei de madrugada e fiquei no leito recordando o sonho. Sonhava sempre com pessoas mortas e no sonho conversava com 
elas. Mas com sinhazinha Ana, minha av, ocorria sempre. s vezes, tinha a impresso de v-la; era to forte a viso, parecia-me to verdadeira, que me incomodava. 
Amava muito minha av, lembrava dela, do seu jeito meigo e bondoso, de sua morte e enterro. Tinha onze anos e me marcou muito ver enterr-la, deix-la s, na terra 
fria. Ficara to triste na poca que recusei a alimentar-me. Minha me levoume para conversar com Padre Simo, que me explicou que fora s o corpo sem vida de minha 
av que enterraram, sua alma estava no Cu, e minha atitude de tristeza no estava certaQuem acredita na Vida Eterna, Jorge, no enterra seus mortos. S enterra 
mortos aquele que nada cr, ou no entende no que deve crer. O corpo  perecvel e vira p, a alma  eterna e vive em outra parte. Sua av foi muito boa e deve estar 
feliz! disse-me ele.
"Por que no posso saber se ela est bem, o que faz no Cu?" - indaguei. "O senhor disse para crer, por que no saber e entender?''
O velho sacerdote coou a cabea, deu-me doces e mudou de assunto. Acabei distrado, voltando  vida normal de menino de fazenda. Mas o tempo passou e no me esqueci 
da bondosa sinhazinha Ana, e sempre sonhava com ela e, por tantas vezes, via-a, mas no materializada. Via. ou melhor, sentia-a, julgava ento ser s forte impresso. 
Cheguei mesmo a conversar sobre isso com o Pastor Germano e ele esclareceu-me:
18VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS Jorge, este fenmeno  antigo; na Bblia narram-se vrios episdios em que os mortos da carne, vivos em esprito, 
falam, comunicam-se com os vivos no corpo fsico. Moiss proibiu estes eventos pelos absurdos que cometiam na poca. E recentemente a Inquisio perseguiu cruelmente 
quem era dotado desta capacidade, destas vises. Mas nem por isso tal fato deixou de existir. Acredito, Jorge, que voltaro a entender e a aceitar estes fenmenos. 
Deus mandar algum, se for de Sua Vontade, para estud-los e a eles dar explicaes cientficas. Eu tambm vejo sempre minha mezinha que morreu na minha mocidade 
e dela tenho recebido inmeros conselhos e orientaes. E muitas outras pessoas dignas de confiana narram fatos assim. No deve se preocupar com isto e aconselho 
a s deles falar com pessoas confiveis A Inquisio j passou, no persegue mais as pessoas que vem mortos!" - eu disse a rir.
"Mortos da carne, filho, vivos sempre estamos. No h perseguio como antes, mas h o preconceito,         o perigo de ser taxado de louco ou at de pensarem que 
se est possudo pelo demnio."
Voltei ao meu sonho, estranho e que tanto me impressionou. Sonhei que estava em casa e minha me chorava de luto, estava triste e vi minha av envolta de luz; disse-me:
"Jorge, meu neto, est em suas mos, est em voc a responsabilidade da nossa famlia. Aja com justia, mas com firmeza. A autoridade deve sempre servir para manter 
a ordem e a disciplina. Quem vacila no bem, d oportunidade aos maus."
Desapareceu, deixando-me triste e acordei. Lembrei com detalhes do sonho e de outro que tivera na Frana, meses antes de partir.
Estava com minha av num jardim bonito e falava ela de coisas que eu no conseguia entender, e entristeci. Pedi todavia que repetisse, ento ela disse, meigamente:

"Cada coisa tem sua hora.  jovem e forte, confio em voc. Tantas coisas mudaram na nossa terra!..."
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Na poca no me preocupei. Sim, tantas coisas mudaram no Brasil. D. Pedro proclamara a Independncia e ou o Brasil se renovava e se fazia uma linda nao, ou teramos 
novas mudanas? Mas agora, ligando os dois sonhos, preocupei-me. Ser que a mudana era em minha casa? Alguma notcia triste esperava-me? Vi minha me chorar de 
luto... Que podia significar este fato? Com estranha impresso, com o corpo dolorido, levantei.
Aps o desjejum, Lencio veio at mim: estava diferente, cortara o cabelo, estava limpo, os ferimentos com melhor aspecto demonstrando que foram cuidados. Vestia 
roupas novas e sorria a todo momento.
- Vamos sair, Lencio, vamos andar por a.
Samos, procurei distrair-me e esquecer minhas preocupaes. Andava a passos lentos, observando tudo, curioso, desde as pessoas  paisagem. Lencio ia ora a meu 
lado. ora atrs, pulava e ria, contente. s vezes, olhava-me desconfiado com medo de estar se excedendo. Achei normal sua alegria.
- Pela primeira vez, sinhozinho Jorge, ando sem medo deles me pegarem. Parece que sonho. Estou muito feliz por estar livre.
- J pensou no que vai fazer? Para onde vai?
Lencio aquietou por segundos. A sobrevivncia de um liberto no era fcil. Para comer e vestir tem que trabalhar. E onde arranjar trabalho? Por que pagar a um negro, 
se se pode t-lo como escravo?
- Lencio, onde esto sua me e irms? Em que lugar? Longe? Lencio falou o lugar. Qu?! exclamei. Incrvel coincidncia ou fora do destino: era a cidade perto 
de nossa fazenda.
- Est com sorte, moleque! Ou Deus quer ajud-lo e colocou-me no seu caminho como instrumento.
- Que , sinh No precisa entender. Moro perto dessa cidade, conheo-a de ponta a ponta, meu pai  homem importante l. Parto para l. 20 VERA LCIA MARINZECK DE 
CARVALHO / ANTNIO CARLOS aqui estou somente esperando conduo de casa. Se quiser, levo-o comigo e poder ficar na fazenda at achar sua famlia.
Lencio pulou, ria e chorava, olhava-me como se fosse algo sublime. Sua alegria contagiou-me. Esqueci o estranho sonho e fiquei feliz por estar na minha Ptria.
Deixei Lencio alojado na ala dos escravos, ele parecia um bichinho desfrutando sua liberdade. Nos dias que esperei, passevamos durante as tardes e manhs ensolaradas, 
conversando e ento nasceu uma amizade sincera entre ns. Estranhava a muitos, chamvamos a ateno. Um jovem branco, bem vestido, estudado, bonito e um ser negro, 
feio e ex-escravo. Notei que Lencio era inteligente, esperto e determinado.
Rio de Janeiro, a Capital do Imprio, era um lugar que tinha de tudo. Conversavam muito sobre poltica em rodas de senhores nas tabernas. Como no tinha dinheiro 
para ir a tabernas, saa  noite, sozinho, procurando escutar, e at mesmo apresentar-me a grupos de estudantes para estar informado. No foi muito fcil saber algo 
novo, desconfiavam muito de estranhos. Mas o que comentavam muito era de uma revolta de escravos em que se mataram muitos brancos. Uns diziam que os negros foram 
mortos, outros, que se achavam foragidos.
"Violncia gera violncia!" - pensei. Muitos se revoltam no cativeiro. Desde pequeno escutava histrias de assassinatos cometidos por negros.
Finalmente chegou a conduo de casa. Vieram Manoel, um empregado de meu pai, de confiana, j beirava os sessenta anos, mas era muito robusto, e Tio. um negro 
alto, forte, esperto, um escravo contente como eram todos os de casa.
Cumprimentei-os sorrindo e eles permaneceram acanhados.
- Que h? No me d um abrao, Manoel? No abraa seu menino?
- E que sinhozinho Jorge j  um homem, formado e importante.
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- Continuo o mesmo, Manoel. D c meu abrao. Diga-me, como esto todos l em casa? Como esto as meninas? Jos? Papai e mame?
- Todos bem, graas ao Pai - sorriu, demonstrando no olhar como me queria bem e a alegria de ver-me. Continuou a falar, alegre: - Sinh Catarina, sua me, quer v-lo 
e logo. Recomendou-nos que, se o sinhozinho j tivesse chegado, era para partir logo.
- E vamos, acomodarei vocs aqui esta noite para que descansem. Amanh cedinho, partiremos. Ah! Este  Lencio, um liberto, que procura sua me e duas irms. Pela 
informao que teve, esto elas por nosso lado. Parte conosco.

Conversamos mais um pouco e fomos dormir cedo. Ansivamos por partir. Queria voltar ao lar. Captulo II FAZENDA SANT'ANA
O dia amanheceu chuvoso, nuvens carregadas escondiam o sol; acomodamo-nos na carruagem e partimos.
- Adeus, Rio, at breve! - acenei um adeus.
Meu plano era voltar aps meu casamento, que deveria ser logo. Amava a fazenda, onde viviam papai e Jos, que no quis estudar. Depois havia me formado e era justo 
trabalhar e usar o que estudara. L na fazenda e na pequena cidade, onde tambm tnhamos casa, no ia ter muito o que fazer. Residir na Capital... s vezes, ficava 
em dvida se moraria em So Paulo ou Rio. O Rio alm de ser mais bonito, era a Capital do Imprio, facilitaria entrar para a poltica e trabalhar para o governo, 
planejando construes importantes. E, s ocultas, iria participar de movimentos abolicionistas e lutar pela liberdade da raa negra.
Sonhos no me faltavam, acomodei-me na carruagem onde iam Manoel e Lencio. Tio ia dirigindo os cavalos. A chuva marcava compasso com o trotar dos cavalos: um som 
cadenciado convidando a dormir. Mas o sono no vinha e fiquei a pensar, a refazer planos. Lembrei-me de Laurinda.
"Minha esposa prometida!" - balbuciei.
Olhei para meus companheiros, dormiam.
"Ainda bem" - pensei -, "no  bom falar sozinho."
"Laurinda, como estar? Ser bonita?" No conseguia lembrar de como era ela. Filha de amigos de meu pai. combinaram nosso casamento quando eu estava com quinze anos 
e ela com onze. Vamo-nos sempre, nas festas, na missa, quando sua famlia nos visitava ou quando amos a sua casa. Quando me despedi ao
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partir, combinamos no escrever. Sabia dela pelas poucas notcias nas cartas de minhas irms. "Laurinda est bem, ou esteve gripada etc". Ultimamente, no falaram 
mais dela e eu tambm, no. No a procurei, sabia que era minha prometida e que amos casar, embora no nos vssemos h cinco anos. Minhas idias modernas no se 
encaixavam bem com a do casamento combinado, porm aceitava, no importava casar-me com Laurinda. Deveria estar bonita, era educada, tinha estudos, era de boa e 
amiga famlia. Tinha a certeza de que viveramos bem, era de paz e ela fora educada para obedecer o marido. Nunca me interessara por ningum, achava mesmo que amor, 
paixo, no existia e sim amor por convivncia, por afinidades e pensava que eu e Laurinda nos daramos bem e talvez vissemos a nos querer bem. Ficaria na fazenda 
at o casamento, depois voltaria ao Rio, onde sonhava ter meus filhos.
A viagem foi cansativa, parou a chuva e fez muito calor. Pernoitamos por duas vezes em estalagens j conhecidas. Lencio demonstrava interesse e vontade de ajudar 
e tornou-se amigo tambm de Tio e Manoel.
Manoel e Tio falavam da fazenda, o que tinha de novo. Dos casamentos de empregados e de escravos, das minhas irms, s vezes de mame. Ao escut-los, parecia ver 
tudo, o cafezal, os animais, os amigos.
No quarto dia aproximamo-nos da fazenda. L pelas doze horas, Manoel disse:
- Logo, sinh Jorge, chegaremos. Mais duas horas e estaremos com sinh Catarina.
Sorri, contente, mas o meu corpo estava todo dolorido da viagem. Desejava descansar e abraar a todos: meu pai, o sinh Coronel Joaquim de Castro e Alves, minha 
me, sinh Catarina, meu irmo Jos e minhas irms Carlota e Maria da Glria, a Glorinha, a caula. Era o mais velho dos irmos e meus pais eram jovens ainda.
"Como vo gostar dos presentes que lhes trouxe da Frana!" - pensei, alegre.
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS

Quando entramos em nossas terras, meu corao disparou feliz. O cafezal verdinho e bem cuidado que se perdia de vista, enchia o vale de beleza e tranqilidade. As 
terras eram boas de cultura, e meu pai aproveitava-as bem, estavam localizadas num lugar bonito e no longe da cidade, com gua de fontes e de um rio de porte mdio.
- Meu Deus! Como  bom estar em casa! - falei rindo, respirando o ar puro do campo. - Fazenda Sant'Ana, como amo estas terras!
Teramos que subir uma pequena elevao para chegarmos em casa. Mesmo sem avistar a casa-grande, escutei a sineta. Algum vira e avisara a todos do meu regresso. 
A sineta era um prato de bronze, dependurado na varanda da casa. Mame usava-a para chamar a mim e a Jos para as refeies ou para dar avisos, marcar hora etc.
Aps a curva, l estava meu lar, a casa-grande da Fazenda Sant'Ana, toda branca em meio do verde das rvores e folhagens. Nos fundos, o pomar com muitas espcies 
de frutas; na frente um bem cuidado jardim, sempre com flores.
De longe, vi figuras femininas na varanda. Reconheci mame, que acenava a mo com alegria.
Nem bem a carruagem parou, pulei; o porto j estava aberto, corri para os braos de minha me, que chorava, emocionada.
Abracei-a com fora, rodopiei com ela nos meus braos, aps beijei-lhe a mo, pedindo a bno.
Trs moas olhavam-nos emocionadas. Duas se adiantaram, eram Carlota e Glorinha que chorando tambm pularam no meu pescoo.
- Que lindas moas esto vocs! Deixei-as meninas ainda, encontro-as moas e lindas!
Olhei para a terceira moa e a reconheci:
- Laurinda!
Laurinda estava muito bonita, mais bonita do que esperava encontr-la, encostara na parede e observava com certa indiferena nossa alegria. Vestia-se simplesmente, 
tinha cabelos presos, eram
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louros de um torn muito bonito; ainda tinha sardas pelo rosto enfeitado, o nariz arrebitado. seus olhos verdes fortes eram sombreados por longos clios.
Sorri, satisfeito, aproximei-me dela, estendeu-me as duas mos que respeitosamente conduzi aos lbios para beijar, e levei um susto. No dedo anular da mo esquerda, 
uma brilhante aliana de casada.
Mame interferiu, tirando-me do espanto em que ficara.

- Jorge, meu filho, lembra de Laurinda a filha do compadre Amadeu?  esposa do Jos h dois anos. Linda cunhada voc ganhou, no acha?
Balbuciei um "Ah, heim!" e mame empurrou-me para dentro. Olhei a sala, emocionado. Pensei: "Sem noiva e com cunhada! As explicaes viro, no devo me incomodar 
com isto. Noivas no so difceis de arrumar ou, quem sabe, papai no tivesse j arrumado outra". Sorri, feliz-, e rodopiei pela sala.
- No mudou nada, que bom estar em casa.
- Sinhozinho Jorge, fiz um caf do jeito que gosta.
- Brbara! Joana! Dem c o meu abrao.
As duas negras ficaram paradas olhando-me. Brbara ajudara mame a criar-nos, e Joana era uma governanta de casa, ambas de confiana da mame.
Abracei-as alegre.
- Seu caf, Brbara,  o mais gostoso do mundo, ningum o faz como voc!
Laurinda no falava nada, ficara s me olhando; sorri para ela, querendo demonstrar que estava tudo bem.
- Jos teve muito bom gosto casando com voc. Est muito bonita, Laurinda! Mas por que no escreveram contando? Teria trazido um presente especial.
Ningum respondeu e tambm no esperei muito pela resposta, olhei para minhas irms que me examinavam curiosas e satisfeitas.
- Vocs no casaram, heim?
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
- No - respondeu Carlota -, estou prometida a Pedro e amo-o. Vamos nos casar logo e Glorinha  prometida do Abelardo.
Abraaram-me novamente.
- Que trouxe para mim? Quero meus presentes! Trouxe o xale que pedi?
Rimos, contentes.
Manuel colocou na sala minhas malas e abri a maior delas, que continha os presentes.
Dei um embrulho para Brbara, outro para Joana, para mame e para Laurinda. Para esta, para quem havia trazido muitos outros presentes, acabei por dar somente uma 
mantilha negra, e reservei alguns deles para repartir depois entre minhas irms, guardando outros.
- E os meus? - disse Glorinha. - Se no me trouxe, voltar para buscar.
Ri com prazer, fizera de propsito deixando-a ansiosa, esperando.
- Desculpe-me, maninha, no deu para trazer e...
Sob ameaas de bater-me, entreguei os muitos presentes que lhe trouxera.
Na mala estava uma garrucha moderna e bonita para papai e um relgio suo moderno para Jos.
- Mame, onde est papai? E o Jos? Mande cham-los, anseio por rev-los.
Foi como se jogasse gua no fogo na alegria delas. Minhas irms se calaram, Brbara e Joana afastaram-se e mame comeou a chorar.
Fiquei sem saber o que fazer, olhei para mame e esperei a resposta, ela falou, compassadamente:
- Jos foi ver o cafezal do outro lado. S espervamos voc amanh...
Parou de falar, e um pressentimento ruim invadiu-me:
- E papai?
Mame enxugou os olhos novamente, respirou, percebi que procurava foras.
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- H trs anos, ele morreu...
Senti minhas pernas ficarem bambas.
- Morreu?!! No me avisaram? Meu Deus! Papai morreu! Ficaram loucos por aqui? Meu irmo casa, papai morre e no me avisam. Por qu? Por qu?
- Jorge, meu filho, no nos culpe. Seu pai ficou meses doente, acamado. Nos fez prometer que no iramos escrever a voc, contando. Fez jurarmos que, se morresse, 
no diramos a voc. No queria, meu Joaquim, que voltasse, que interrompesse seus estudos. Orgulhava-se tanto de t-lo estudando na Frana. Ns prometemos a ele 
e cumprimos.
Peguei a garrucha que trouxera para ele, comprara h tempos e sonhara em lhe dar. Imaginava-o com seu jeito srio a examin-la. Amava meu pai, homem justo, trabalhador, 
honesto, leal, bom esposo, bom pai, bom patro e bom senhor-de-escravos.
Parecia que o via em minha frente. Lembrei-me da nossa despedida. Acompanhou-me orgulhoso at o Rio de Janeiro, levou-me at o navio. Abraou-me, comovido:
"Abeno-o, filho. Estude, aproveite para aprender bastante na Frana. Que aprender  ser realmente, do resto no se tem tanta certeza. Volte formado mas estude 
muito."
Ficou no cais, abanando um leno branco, at que no o vi mais.
Sua imagem altiva, seu sorriso franco, seu chapu negro, sempre o usara. Seu bigode largo, deixando quase escondidos os lbios, veio-me  memria, fazendo a saudade 
doer. Quando estamos saudosos, mas esperamos ver, ou temos a certeza de rever,  diferente da saudade de algum que sabemos que no veremos mais durante a vida fsica.
- De qu? - indaguei. -Hum?
Todos ficaram em silncio, compartilhando minha dor. Papai tinha razo, se eu soubesse que estava doente ou morto, voltaria. Teria voltado sem concluir os estudos. 
Repeti a pergunta:
- De que ele morreu?
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- Ficou doente, o mdico disse que estava com feridas por dentro. Ao morrer, abenoou-nos, abenoou voc.
Levantei, caminhei lentamente at a janela. Vi as rvores frutferas, alvo de brincadeiras minhas e de Jos; minha volta tornou-se triste. No consegui segurar o 
pranto. Queria tanto que visse meu diploma, minhas boas notas. Tantas vezes pensei na alegria dele, ao ver-me formado, do orgulho que sentiria. Via-o nos meus pensamentos, 
alisando o bigode, sorrindo a encontrarme na festa dos formandos. Era parecido com ele fisicamente e de gnio, orgulhava-me disto; agora, um adulto, achava-me mais 
parecido com ele. Era jovem ainda e estava morto. Nunca me escrevera, quem fazia isso eram mame e as meninas, e nas cartas, diziam sempre: "Esto todos bem, saudosos, 
mandam abraos, bnos".
- Que  isto? - voltei com a indagao de Carlota. Era galope de cavalo, algum chegando, apressado. Mame foi a primeira a correr para a varanda, as trs acompanharam-na 
assustadas. Enxuguei meu rosto e fui atrs.
Era Nrcio, marido de Joana, negro amigo, de confiana de meu pai. Ia cumpriment-lo, quando notei que estava aflito, suado, olhos estatelados. Pulou do cavalo e 
gritou:
- Uma desgraa sinh, uma desgraa. Feriram sinh Jos no cafezal.
Mame caiu desmaiada nos braos de Carlota, Laurinda deu um grito e as trs comearam a chorar. Senti tudo rodar, parecia que sonhava, mas fui o primeiro a sair 
do estupor.
- Aonde Nrcio? Onde esto?  grave?
- No sei, sinh Jorge - disse o negro chorando. - Sinh Jos recebeu um tiro, quando passvamos pelo Barranco das Antas. Est desacordado. Benedito colocou-o na 
carroa e vem vindo devagar. Vim na frente para avisar.
- Joana, cuide da mame.
Pulei sobre o cavalo que Nrcio deixara na cerca da varanda e sa em disparada, rumei para o lado do Barranco das Antas.
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Um riacho atravessava nossas terras. Pequeno regato de guas cristalinas; ao sul, margeava-o um alto barranco, lugar de muita beleza, que chamvamos de Barranco 
das Antas. Alguns minutos de galope, avistei a carroa. Benedito dirigia-a e Samuel, filho de Benedito, tambm nosso empregado, tinha no seu colo o corpo de Jos.

Apeei do cavalo e olhei Jos. Meu corao acelerou, senti uma dor enorme. Jos estava um homem, era dois anos mais novo que eu, deixei-o, ao partir, mocinho ainda. 
Tinha os olhos fechados, expresso suave no rosto, e todo seu corpo, suas roupas, estavam encharcadas de sangue.
- Jos, meu irmo!

Procurei o pulso, nada! Procurei a pulsao no pescoo, passei a mo pelas narinas, nada! Examinei o ferimento, a bala atravessara o corao, Jos estava morto. 
Procurei ver se estava armado, e Samuel esclareceu-me:
- Sinhozinho Jorge, no estvamos armados, nenhum de ns. Atiraram do lado esquerdo, onde o barranco  mais alto, no deu para ver nada.
Beijei a testa do meu irmo, peguei-o de Samuel. Seu corpo ainda quente no meu colo, chamava-me  realidade, to diferente do que esperava no meu regresso. Meu pranto 
foi alto, emocionado; comigo choraram Benedito e Samuel.
- Vamos, Benedito, vamos para a casa-grande.
A carroa foi devagar e, procurando me acalmar, parei de chorar. Na fazenda o alarme foi dado sem parar, os negros e todos os empregados aglomeraram-se na frente 
da varanda.
A carroa parou, peguei meu irmo nos braos e entrei em casa.
Carlota esperava, aflita, indagando com o olhar.
- Jos est morto - disse  meia-voz. Laurinda que estava atrs, caiu desmaiada. Parecamos todos sonmbulos, arrumando-nos para ir  cidade. Vrios, negros saram 
para avisar os amigos. Manoel com
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algumas negras foram abrir a casa na cidade e receber-nos no velrio.

Tirei a roupa ensangentada, lavei-me e coloquei uma roupa discreta que no pensava que usaria um dia.
Chamei Benedito e Samuel.
- Tm a certeza de que no viram quem matou Jos? - com as negativas deles, continuei: - Fiquem vocs aqui, tomem conta da fazenda e peguem armas no armrio.

Partimos para a cidade, as mulheres chorosas, uma consolando a outra, iam na carruagem de festa e, na carruagem simples, amos, eu, Jos, Brbara e Joana. As negras 
haviam limpado Jos e vestiram-lhe uma roupa nova. Deitaram-no no banco da frente e ns trs nos sentamos no outro. Fiquei olhando para ele. Esforava-me para acreditar 
no que via.
"Ah, Jos" - pensei -, "nem mesmo pude abra-lo com vida! Parece dormindo. Est to elegante. Mesmo morto, plido, est bonito. Sempre foi lindo, parecido com nosso 
av materno. Queria tanto ter dito a voc que no me importei por ter casado com Laurinda. Que queria que fossem felizes". Sempre nos demos to bem. ramos diferentes, 
tanto na aparncia fsica como de gnio. Jos era acomodado, falava pouco, enquanto eu era explosivo; no quis continuar a estudar, amava a fazenda e queria viver 
ali para sempre. Era mais alto que eu, mais forte, parecia mais velho e era ele quem cuidava de mim. Nas nossas aventuras era ele o mais ajuizado. Protegia-me sempre, 
at dos castigos de mame. Tantas vezes, lembrava, era ele que me tirava de apuros e eu o pagava fazendo as lies para ele. Nunca me lembrava de ter brigado com 
Jos, ramos diferentes, mas amigos e companheiros. Escrevera poucas vezes, entendia-o, no gostava de escrever. Nunca duvidara do seu carinho por mim e eu ali, 
vendo-o morto, sentia que era mais que um irmo de sangue que perdera, era um amigo.
Examinei-o, mudara nesses anos. Ficara mais alto, media talvez 1,90m. Seu rosto parecia o de uma criana inocente, testa
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31 longa, lbios pequenos e bem feitos, no usando barba nem bigodes, cabelos lisos, castanho-claros caam sobre a testa.
Chegamos  cidade, muitas pessoas nos esperavam: uns curiosos, outros amigos e parentes.
O velrio foi triste, na sala da nossa casa na cidade. Sentime abraado, cumprimentado por tantos conhecidos e amigos. Encontro que sonhara ser to diferente...

Passamos a noite toda ao lado de Jos. Mame sofria muito, era o retrato da dor. Laurinda muito plida, chorava de mansinho, minhas irms estavam desconsoladas; 
todos os amigos e parentes mais afastados estavam tristes, sentindo realmente a perda de uma pessoa, de um homem de bem.
s trs horas, no outro dia, enterramo-lo junto de papai. Uma dor aguda varou-me o peito. Perdi os dois no mesmo dia, mesma hora, foi como se enterrassem os dois 
naquele momento. Controlei-me para no chorar. Ali, era questo de honra, homem no chorar, tinha que esconder que era humano, que tinha sentimentos. Evitei falar, 
parecia ter um n na garganta.
Aps o enterro, as despedidas e cumprimentos dos amigos e parentes. Mame quis voltar para a fazenda e partimos na carruagem de festa: atrs, trs carroas com empregados 
e escravos.
Fizemos o trajeto em silncio, onde a dor era vitoriosa, todos sofriam. Sentia-me cansado e nem o cafezal, nem as belezas do caminho agora chamavam-me a ateno. 
Nem parecia que, h vinte e quatro horas, passara por ali, cheio de sonhos e felicidade.

Chegamos: j entardecia, desci e ajudei as mulheres a descerem. Lencio aproximou-se de mim e falou baixinho:
- Sinhozinho Jorge, carecemos de nos armar. D-me uma arma, atiro bem. aprendi com um sinhozinho, filho de um dos meus donos. Aqui tem briga, e das feias. Morro 
pelo sinh se for preciso, mais precisamos ter armas para nos defender.
Concordei com a cabea. Nunca pensei que necessitaria um dia, armar-me na fazenda, no meu lar. Esconderam-me muitas coisas nestes anos de ausncia. 33  Vera LCIA 
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alguma briga estava havendo. Tristemente, dei por mim, que agora era o chefe da casa, o nico varo dos Castro e Alves.
- Manuel, distribua as armas que temos em casa para os empregados e d uma ao Lencio. Monte guarda pela fazenda, vigie a casa e que ningum se ausente sozinho. 
Amanh cedo, rena a todos.
- Sim, sinh Jorge - disse Manuel tristemente. - Eu cuido de tudo.
- Obrigado, Manuel, precisarei muito de voc.
Com passos largos, subi as escadas, pois as senhoras esperavam-me na sala.
- Quero saber de tudo. Tudo o que me esconderam nestes anos. Que acontece aqui? Por que mataram meu irmo?
- Estou cansada, meu filho, amanh...
- No, mame. Quero saber agora! Ordens precisam ser dadas e eu nem sei o que se passa. Lutamos com algum? Temos inimigos? Por Deus,  agora que deve falar. Conta-me 
tudo.Captulo In AMIGOS E INIMIGOS
Sentamos perto um do outro na sala e mame comeou a narrar, sendo interrompida as vezes, por Carlota ou Glorinha, quando omitia algum detalhe.
- Graas a Deus, nossa famlia tem sido honesta e caridosa. Somos cristos e aplicamos a lei que Jesus nos recomendou: "Faa com os escravos, como gostaria, se voc 
fosse escravo, que fosse tratado"'. Nem todos vem com agrado nossa maneira de ser. Como seu av, seu pai ensinou-nos a ser assim, no se importando com o que muitos 
pensem de ns. Muitas pessoas julgam-nos mesmo maus exemplos para os seus escravos e tantas vezes escutamos que somos estranhos, que nosso modo de proceder  estranho 
porque nossos escravos vivem como empregados, soltos pela fazenda, sem castigos, bem vestidos, bem alimentados e felizes. Nunca tivemos problemas maiores que simples 
falatrios, somos bons vizinhos, tratamos bem a todos e somos respeitados. At que... Lembra-se do Coronel Silas, o dono da fazenda Morro Vermelho?
Concordei com a cabea, era uma grande e boa fazenda que fazia divisa conosco ao Sul. pelo rio. Aps uma pausa, que aguardamos em silncio, mame continuou:
- Com a morte do Coronel Silas, logo aps sua partida, Morro Vermelho ficou para seu filho, Coronel Francisco de Souza. Lembra-se dele? Possua terras do outro lado 
da cidade, tem. casa na cidade, no longe da nossa. Nunca fomos amigos, por ter ele idias diferentes das do meu querido Joaquim. Mas, na cidade to pequena, todos 
se conhecem.
- Lembro - disse -, tinha ele filhos da nossa idade. Era arrogante e orgulhoso.
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
Lembrei-me de sua filha Marcina, a menina morena, bonita. No sabia o porqu de lembrar sempre dela. do seu jeito de sorrir, do seu modo acanhado e tmido. Mame 
olhou-me triste, estava cansada, mas eu no podia deixar de saber tudo, tentar entender o que acontecia. Vendo meu interesse, retornou  narrativa.
- O Coronel Francisco vendeu sua fazenda e veio residir na Morro Vermelho com a famlia. Logo, passou a implicar conosco. O Coronel Silas era desumano, mau, mas 
o filho  mil vezes pior. Proibiu a ida de negros nossos a suas terras, expulsou um grupo que l foi. No tempo do Coronel Silas, visitavam-nos e nossos escravos 
tinham amizade com os dele. Um dia bateu em um negro nosso que teimou e foi l e. por ele, mandou-nos recado que no queria nenhum de ns em suas terras.
Na ocasio, seu pai j estava bem doente, foi ele  cidade consultar o mdico e encontrou o Coronel Francisco no armazm onde acabaram por discutir. O coronel ofendeu 
seu pai, chamando-o de mau exemplo, de frouxo, moleza, que no sabia cuidar e pr ordem nos escravos.
Seu pai engoliu os insultos, voltou aborrecido para casa. Jos ento reforou as cercas na divisa e proibiu nossos negros de se aproximarem das terras do Coronel 
Francisco. Seu pai morreu e pensamos que no amos mais ter problemas com esse homem. Mas, h seis meses, Jo, filho da Maria parteira, lembra?
- Sim, brincamos juntos - balbuciei, lembrando dele.
Jo era boa pessoa, alegre, sorridente e Maria era parteira, uma negra que sabia curar com ervas; poderia mesmo dizer que era uma enfermeira nata, sem nunca ter 
estudado.
- Bem, Jo foi encontrado morto com um tiro no peito, em nossas terras, na divisa com Morro Vermelho, perto da ponte do rio. Foi morto  noite. Jos averiguou, no 
conseguiu provar nada, mas tudo indicou na poca que fora pelos empregados do Coronel Francisco. Jo, segundo amigos, estava apaixonado por uma das escravas de l. 
Maria acha que tinha ido encontrar-se com ela. Enterramos Jo sem dar queixas e Jos proibiu que aproximassem
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da divisa, mostrando Jo como exemplo. Para no levar a rixa em frente, o caso acabou a.
H cerca de quatro meses, Chico, o filho mais velho do Coronel Francisco, foi morto na estrada, alm da ponte, nas terras deles. Perseguia um grupo de escravos foragidos. 
Os seus empregados contam que j era noite e Chico adiantou-se deles e foram ach-lo minutos aps, j morto, ferido a facadas. Para todos, para o delegado, Chico 
foi morto por um dos escravos foragidos. Chico era odiado pelos escravos, agia to mau quanto o pai.
No enterro do filho, o Coronel Francisco falou alto do dio que nutria por ns e que era culpa nossa a morte do filho. Duvidou que fora um escravo e, se fosse, seguira 
ele os maus exemplos que dvamos.
Jos preocupou-se, pensou mesmo at em ir l tirar satisfaes. Eu e Laurinda no deixamos. Jos ento resolveu esperar sua volta para estudarem juntos o melhor 
modo de agir. Teramos represlias da parte desse coronel endiabrado. Mas a vingana deles chegou antes de sua volta, ou na sua volta. Tudo indica que foram eles 
que mataram ou mandaram matar seu irmo. No vejo outra possibilidade. Jos era querido de todos, s tinha amizades, e inimigos declarados s eles mesmos que nos 
odiavam. Que vingana, meu Deus! Nem mesmo os ofendemos!
Mame finalizou, chorando, e as trs acompanharam-na. Senti vontade de chorar tambm, senti-me cansado, tinha que acordar cedo no outro dia e levantei-me.
- Vamos descansar. A bno, minha me. Boa noite, Laurinda; durmam bem. Carlota, Glorinha.
Fui para o quarto, peguei a garrucha que trouxera para meu pai. coloquei as balas, deixei-a ao meu alcance, perto do leito. Iria de agora em diante andar com ela 
na cintura.
Deitei e adormeci logo, acordando com Joana de manhzinha a chamar-me. Levantei apressado e fui para o ptio, onde estavam acabando de reunir todos os moradores 
da Fazenda Sant'Ana, escravos e empregados. Falei a eles:
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- No quero briga, no queremos briga. Ns, os Castro e Alves, somos pacficos, porm no covardes, no fugiremos da luta, mas faremos tudo para evit-la. No desejo 
mortes, no quero mais sangue derramado. Deixaremos o delegado apurar a morte de meu irmo Jos. Aqui na fazenda tudo deve continuar como antes, o trabalho  o mesmo, 
as ordens tambm. Deve continuar como Jos ordenava, como se fosse ele vivo. Tudo farei para o bom andamento da fazenda, no quero mudar nada no trabalho e aqui 
estarei para cuidar de tudo e dar novas ordens se forem necessrias. Peo a todos para tomarem muito cuidado, que ningum se afaste da sede sozinho, no quero ningum 
na divisa da Fazenda Morro Vermelho. Que o trabalho seja feito em grupo e que no grupo esteja armado de preferncia o fiscal. Todos os empregados devem andar armados 
e que estejam atentos. E ao toque da sineta por trs vezes, forte, que venham todos  casa-grande, para a sede. De agora em diante, teremos guardas pela fazenda 
e na sede. Manoel cuidar desta guarda, ser o chefe. Por hoje,  s, tenham um bom dia!
Voltei devagar para casa a pensar: "Fiscal do grupo era um dos escravos, sempre dos mais trabalhadores e responsveis, que organizavam o servio e tomavam conta 
do grupo. No era cargo fixo, fazia rodzio entre os melhores. Papai no usava castigos, mas sim prmios; os ociosos no recebiam recompensas e os mais produtivos 
ganhavam em dobro. E ser fiscal era a recompensa de que eles mais gostavam e faziam de tudo para s-lo. Os prmios eram em dia a mais de folga, dinheiro, roupas 
a mais, alimentos, at aguardente. No havia senzala em nossas terras, cada famlia tinha sua casinha, e meu pai fazia questo de que fosse uma casa decente. Tinham 
dois quartos, sala, cozinha; eram arejadas e caiadas. Os escravos recebiam mantimentos uma vez por semana e cada famlia fazia sua comida. Todos viviam satisfeitos 
e dificilmente nos davam algum problema e, quando algo surgia, era l entre eles, desavenas e brigas quase sempre por inveja e cime. Papai costumava ouvir os motivos 
das brigas e o culpado
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ficava sem a recompensa da semana ou at do ms. E havia negros to amigos, to queridos nossos, que at podamos lhes confiar uma arma".
Olhei pela fazenda, desejei tanto rev-la, passear por todo lado; perdera a alegria. Aquele cho to querido, aparentava ser triste sem meu pai e meu irmo.
Nossa fazenda ficava num planalto muito frtil e bonito. A estrada morria no ptio, do lado esquerdo da casa-grande; do direito havia um grande galpo, onde guardvamos 
ferramentas e mantimentos. Atrs do galpo, o terreiro de secagem do caf; nos fundos do terreiro, o curral, a estalagem dos animais da fazenda. Atrs do pomar de 
nossa casa estavam as casas dos empregados e, logo em seguida, as casas dos escravos eram enfileiradas e, no centro, outro ptio onde se reuniam.

Depois das casas, um pequeno morro; na parte mais alta, entre rvores, estava o cemitrio, onde enterrvamos escravos. Fora feito por meu av, quando, no seu tempo, 
um delegado e o padre haviam proibido enterrar negros no cemitrio da cidade. Onde tambm estava enterrada vov Ana, realizando seu desejo.
A fazenda estava bem cuidada com tudo no lugar, dando lucro. Demonstrava o imenso carinho que Jos tinha por ela.
- Sinhozinho Jorge - disse Lencio despertando-me dos pensamentos, assustando-me. - Poucos aqui sabem atirar, no adianta dar-lhes as armas se no sabem como lidar 
com elas. Se o sinh quiser, posso ensinar-lhes.
- Pode, Lencio. Rena os interessados no ptio, daqui a uma hora lhes ensinaremos a lidar com armas de fogo.
Entrei em casa, estavam mame e minhas irms na sala de refeies esperando-me para o desjejum.
- Ouviu minhas ordens mame? Que achou?
- Est certo, meu filho, devemos tentar a paz e tudo fazer para t-la, e nos defendermos para que ningum mais morra em nossas terras, assassinado. Iludi-o, Jorge, 
dizendo que dr. Toms, o delegado, descobrir alguma coisa. Deixar o caso para ele,  deixar sem punio a morte de Jos. Mas no cabe a ns punir e
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descobrir, deixaremos para a Justia Divina. Temo por vocs, querer descobrir ou se vingar  ver um a um morto; meu Jos ser vingado por Deus.
- Mame, ser certo colocar Deus nesta histria de vingana? No somos todos irmos, tanto Jos, um inocente, como o criminoso?
- Quer dizer que Jos no ser vingado por nada, ningum?
- Quem faz, mame, para si faz. Minha lgica condena a vingana. Poderia ir at a fazenda Morro Vermelho e matar outro deles. Isto diminuiria nossa dor? Aumentaria, 
porque podemos orar em paz, temos a conscincia em paz. Se nos tomarmos criminosos, at isto perderamos. No penso que uma ao m fique impune: receber o fruto 
do seu crime quem matou Jos e quem mandou. No vingarei, mas defenderei.
- Se esse maldito Coronel Francisco considerar-se vingado, podemos sossegar. Tem razo, meu filho, outra desgraa no suportarei. Voc  to jovem, acostumado a 
outra vida, estudou tanto, e ter de cuidar da nossa fazenda!
- Mame, parece no confiar muito em mim. Sou o mais velho de seus filhos. Sou um homem e saberei ser o chefe da casa. Estive fora, mas no esqueci os costumes daqui. 
Tudo farei para evitar mais mortes e esse coronel no nos pegar em emboscadas e desarmados como fez com Jos. E se escutaram as ordens no  preciso repetir a vocs. 
No devem sair de casa sozinhas, nem para irem ao pomar, nada de passeios a cavalo, e a qualquer barulho devem chamar um dos guardas. Por favor, avise Laurinda de 
minhas ordens.
Tomei meu desjejum sem apetite e logo aps fui para o ptio, encontrei Lencio examinando nossas armas.
- Sinh Jorge, estas armas esto velhas e temos pouca munio.
Examinei-as.
- Tem razo, Lencio, so velhas e algumas at danificadas. Tanto papai como Jos no esperavam us-las. Por enquanto, tentaremos nos defender com elas.
CATIVOS E LIBERTOS
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Fizemos o alvo, experimentei a garrucha, perfeita, acertei todos os tiros. Lencio atirava bem e ensinamos alguns escravos, e treinamos os empregados.
- Nrcio, quero-o bom atirador, dever ir morar na casagrande com Joana; ficar l o dia todo. Quero-o guarda das mulheres da casa-grande.
Nrcio sorriu, satisfeito com a confiana. O treino foi rpido, como no tnhamos muita munio, achei melhor economizar.
- Sinhozinho Jorge - disse-me baixo Lencio -, no estamos nada bem, parecemos ser o lado mais fraco.
Tive que concordar e fiquei muito preocupado.
Voltei para casa e fui para o escritrio. Examinei todos os papis, todas as gavetas e o cofre. Jos trazia tudo muito bem organizado. No tnhamos dividas e estvamos 
com uma quantia grande de dinheiro e ouro no cofre.
"Somos ricos" - pensei com pesar. ''Estamos bem financeiramente. Que vale isto para nossa tristeza? Mas deve valer para vivermos bem, para nos deixar vivos."
Achei algumas letras, papai e Jos emprestaram dinheiro a fazendeiros da regio, a amigos. Mexi em tudo e fiquei ciente de todos os negcios.
Reunimo-nos para almoar, comemos pouco, todos tristes e calados. Aps o almoo, recebemos a visita do sr. Amadeu, o pai de Laurinda, com a famlia.
O sr. Amadeu conversou gentilmente, lamentou com pesar a morte do genro. Homem de ir direto ao assunto, foi claro.
- Vim buscar minha filha. Como viva deve retornar a nossa casa.
- Papai, no quero voltar. Ao casar com Jos, a Fazenda Sant'Ana passou a ser meu lar. Quero ficar aqui, a no ser que d. Catarina queira que eu v embora.
Laurinda falou com voz firme, decidida. Todos se voltaram para ela, que desde que soubera da morte de Jos, no falava, respondia com monosslabos as indagaes 
que fazamos. Eu desde que chegara no ouvira dela uma frase maior.
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
- Laurinda  minha filha querida! Acho que aqui  seu lar, junto com a memria do nosso Jos.
- Se  assim, eu fico, papai! - disse, tristemente.
- Se  assim... Aceitamos sua vontade; quando quiser voltar, ser sempre bem recebida e s dar alegrias. Jorge, tem condies de se defender de um ataque?
- Bem, eu... Hoje de manh examinei nossas armas, temos pouca munio.
- Munio, voc pode adquirir no armazm da cidade. Voc tem dinheiro? Sei que esto bem, principalmente. Tenho uma letra a resgatar, poderei pagar antes do prazo 
se necessitar.
- No, sr. Amadeu, tenho dinheiro para as despesas. Pague-a quando puder, no quero que se aperte para este resgate. Tambm j examinei todos os nossos negcios 
e estou a par de tudo. Agradeo-lhe,  nosso amigo e espero que o seja sempre.
Sr. Amadeu sorriu.
- Obrigado, Jorge. Vieram comigo dois dos meus capangas, meus melhores atiradores. Permita que fiquem aqui, at que voc organize tudo, pelo tempo que quiser, podero 
ser teis a voc. E se precisar de mais gente ou auxlio, mande buscar em minha casa. Se houver luta estarei ao lado dos Castro e Alves.
- Agradeo, emocionado. Aceito o emprstimo de seus homens, ficaro hospedados aqui. Assim, poder voltar tranqilo deixando Laurinda. E tem minha palavra de que 
estar protegida, ser sempre querida por ns.
Sr. Amadeu residia em sua fazenda do outro lado da cidade, distante da nossa trs horas a cavalo. Aps o caf da tarde, partiu e conosco ficaram os capangas, dois 
homens bem armados, destemidos, destes que matam sem dar um pingo de valor  vida. Hospedei-os no galpo, dando-lhes a liberdade de andar pela fazenda. Percebi logo 
que o sr. Amadeu os queria mais perto de casa a proteger a filha.
Logo depois, recebemos a visita do prometido de Carlota, com seus pais. Aps os cumprimentos, sentamos para um novo caf. Gostava de Pedro, era simples, educado 
e trabalhador.
CATIVOS E LIBERTOS
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Ofereceram seus prstimos, reafirmaram o noivado e que o casamento seria realizado logo aps o luto da famlia.
Percebi, pelos olhares que Carlota e Pedro trocavam, que se amavam. Fiquei contente, no queria forar minhas irms a casamentos indesejveis.

Quando entardecia, recebemos um mensageiro com uma carta para mim. Era de Abelardo, o prometido de Glorinha. Pedia escusas por no poder vir pessoalmente. E escusava-se 
novamente, desfazendo o compromisso com Maria da Glria, que fora feito com meu pai e devido s circunstncias melhor seria desfaz-lo.
As mulheres aguardavam minha leitura.
- Interessa a voc, Glorinha,  o otrio do Abelardo que acha melhor abandonar o barco que, por ele, est a afundar - disse, passando-lhe a missiva.
Glorinha leu num instante e disse, raivosa:
- Cachorro indecente! Peste! Covarde!
- Glorinha! - disse mame escandalizada, repreendendo-a:
- Uma senhorita no diz isto!
- Glorinha amava, ama a este idiota? H tempos que no vejo Abelardo, mas, pelo que recordo dele, no  animador. Se voc quiser, obrigo-o a cumprir o compromisso.
- Por Deus! - interferiu mame. - A famlia de Abelardo  amiga do Coronel Francisco, isto j  o bastante para no querermos mais este compromisso; j escolheu 
seu lado, demonstra to pouco carter que no deu para esperar uns dias.
Glorinha amassou a carta, jogando-a no cho pisoteando-a e disse, desabafando:
- Tenho raiva por ter concordado com este compromisso, concordado com um casamento arranjado. Se este "banana" estivesse na minha frente, amassaria a cara dele. 
No deixe a carta sem resposta, Jorge, aproveite o mensageiro e responda, diz que aceita as escusas e lhe deseja fartura e muitos filhos. Abelardo, este cachorro, 
certamente depois de sua complicada caxumba no poder ter filhos.  algo que teme e que o preocupa. Estaremos vingados desejando-lhe filhos, e
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
- Glorinha! - gritou mame.
Olhei admirado para minha irm, se fosse outra a ocasio, tinha dado boa gargalhada.
Sentei  mesa e respondi conforme o desejo de Glorinha. educadamente aceitei as escusas, desfazendo o compromisso e desejei-lhe muitos filhos. Fechei o envelope 
e pedi a Nrcio entregar ao mensageiro a resposta.
Na sala se fez um grande silncio, a raiva de minha irm passara, senti mesmo que ficara aliviada.
- Glorinha - disse -, no vou arrumar casamento para ningum. Carlota ama Pedro e isto me alegra, ser timo cunhado e amoroso esposo,  pessoa de bem. Quero-as 
muito e desejo que sejam felizes, ou aqui ou casadas com quem amem. Glorinha, ter de arranjar um marido sozinha. E olhe l, no ser fcil, com seu gnio, mas no 
tenho dvida de que ser seu esposo o mais feliz dos amados.
- Obrigado, Jorge. Tambm acho que devemos escolher nossos companheiros, esposo ou esposa que agrade, se no encontrar ficarei solteira e com muito orgulho. Sabe 
por que, Jorge, mulher solteira  to mal vista? Parece que no teve ningum que a quisesse e nunca se diz que foi ela que no quis ningum. Por agora, no se preocupe, 
no quero nem ouvir falar de compromisso. Quero ajud-lo, Jorge, no estamos l muito bem e quero que saiba que pode contar comigo. Jorge, deixaria eu aprender com 
os negros e empregados a atirar?
- Filha! - mame estava admirada com Glorinha.
- Pode. Mame, a luta  nossa. Acho mesmo que voc tambm deve aprender a se defender.
- Armas so para homens! - disse escandalizada mame.
- Em ocasio de paz - disse Glorinha. - No tem nada de mais. Posso at andar armada.
- No sei, se Pedro concordar, aprenderei tambm - disse Carlota.
- Jorge, posso levar Joana ou Brbara para me fazerem companhia? Amanh mesmo comeo a aprender.
CATIVOS E LIBERTOS
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Jantamos em silncio e fomos deitar cedo.
No outro dia, pela manh, fui  cidade. Comigo foram Nrcio, Benedito, Samuel e Lencio. Primeiramente fui  delegacia. O delegado, dr. Toms, atendeu-nos com cortesia, 
deixando logo claro que no gostava de intervir nas diferenas dos coronis. Ali estava para pr ordem, prender criminosos comuns e escravos foragidos. Fez a ocorrncia, 
interrogou os trs que estavam com Jos. Eles viram pouco e no puderam ajudar muito, repetiram mais uma vez o que tinha acontecido.
Tinham ido ver o cafezal, Jos, Benedito e Samuel, de carroa, quando ouviram o disparo e Jos caiu. No viram nada e no havia como subir no barranco; preferiram 
ajudar a Jos. Rumaram para a fazenda e encontraram Nrcio a cavalo que estava atrs de uma novilha. Ento veio na frente para avisar.
- Dr. Jorge - disse desafogado -, como v, no viram ningum e nem sabem de muita coisa, ser difcil achar o culpado. Mas me empenharei, e cumprirei meu dever.
Agradeci e sa nervoso; mame tinha razo, dr. Toms no ia mover uma palha para descobrir o assassino do meu irmo. Rumei para o armazm, achei munio e comprei 
grande quantidade, mas no havia armas.
Encontrei na cidade muitos conhecidos e amigos. Cumprimentaram-me, apressados. Entendi que no queriam tomar partido; para todos haveria luta, venceria o mais forte, 
era desaconselhvel demonstrar preferncia pelo mais fraco, que era eu na opinio deles, o doutor almofadinha, cheirando a livros.
Sempre fomos amigos de muitos, em nosso cofre havia muitas letras de emprstimos. Jos, como meu pai, no negava favores, ajudando a todos. Mas muitos pareciam ser 
amigos s nas necessidades deles. Com os acontecimentos, era dar uma peneirada e ficariam s os amigos de fato. Como tambm no escondia que nosso inimigo era o 
impiedoso Coronel Francisco de Souza. Captulo IV ORDEM E DISCIPLINA
Depois de ter ido ao armazm, passei pelo cemitrio para uma pequena visita ao tmulo dos meus dois entes queridos. As flores ainda estavam bonitas em cima do sepulcro. 
Orei, porm senti ali um lugar to frio, to solitrio e triste, que pensei: Papai e Jos no podem estar a neste lugar frio e sem vida. Somos eternos, vivemos 
alm do corpo e no  a, debaixo desta terra, que estaro."
Prometendo a mim mesmo no voltar mais ao cemitrio, fui para casa. Estava calado, no tinha vontade de conversar; nem olhava a paisagem, lugares que achava lindos 
e to queridos. Fiquei a cismar, como faria para defender os meus. No queria capangas iguais aos dois homens do sr. Amadeu, criminosos, na fazenda. Teria que treinar, 
armar os homens que tinha. Martins!" - sorri, dizendo baixinho.
Que feliz lembrana. Martins estudara comigo na Frana, voltara para o Brasil h dois anos. Seu pai era comerciante e entre tantas coisas que comerciava, tinha tambm 
armas europias que me interessavam no momento. Residia em So Paulo e seu endereo estava anotado em meu caderno de notas. Lembrava bem de Martins: era alegre e 
fanfarro, no gostava de estudar e voltara sem concluir seu Curso de Direito. Gostava de armas e entendia bem delas, comprava-as e as remetia para o pai, enquanto 
estivera na Frana.
No era aconselhvel eu viajar no momento, mas podia mandar algum de confiana at ele e tinha a certeza de que me venderia as armas melhores e mais modernas que 
possua. 45 Outra coisa que me preocupava  se no teramos algum espio, um traidor na fazenda, algum que poderia passar informaes ao Coronel Francisco, por 
dinheiro. Teria que usar muita precauo. Resolvi escolher alguns negros e empregados para tarefas de confiana. Fui pensando em quem poderia mandar para So Paulo.
Talvez Tio. Sim, Tio seria ideal, viajava sempre, conhecia toda a regio. Era forte e esperto, sabia ler e escrever, era trabalhador e eu sentia no seu olhar o 
carinho por ns, seus senhores. Tio era alegre e prosa, contava sempre sua histria e a de seus pais:
"Meus pais moravam numa fazenda e vivamos numa imunda senzala. ramos fechados  tarde e s saamos para o trabalho que era em todos os dias, sem descanso. Meu 
pai era forte, trabalhador, nunca tinha dado motivo de queixa aos seus senhores. Eu tinha nove anos e j trabalhava. Um dia, minha irm pequena, ramos ento em 
seis irmos, teve febre alta. Vendo a filha morrer  mngua, meu pai pediu, implorou ajuda ao capataz e recebeu em troca ofensas, o que o fez se enraivecer e dar 
uns socos nele. Correram os outros e meu pai foi para o tronco para ser castigado. Deixaram-no com as costas retalhadas pelas chibatadas e, no satisfeitos com este 
castigo, no outro dia levam-no para ser vendido, separando-o da famlia para servir de exemplo. Um negro no tinha direito de levantar a mo para atingir um branco. 
Amarrando e puxaram-no numa corda; nem o deixaram despedir-se de ns. Estava partindo e minha irmzinha morreu, minha me chorava desesperada. Eu era o mais velho, 
no entendia o porqu deste castigo e fiquei com muito medo de apanhar tambm.
Passaram-se os dias. mame estava to triste que emagrecera e enfraquecera. Um dia,  tarde, tiraram a gente do trabalho e levaram-nos para o ptio. O capataz disse 
somente: Vo partir, foram vendidos, no devem levar nada. Todos? indagou mame, abraando-nos. Sim. Mas, e minhas irms e minha me? Por que nos vendem? 46
VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
Recebi uma bofetada como resposta. Abraados, entramos na carroa, onde fomos amarrados, e partimos.
Samos da fazenda e. logo aps distanciar mais, um dos empregados soltou-nos e deu-nos gua e comida, que comemos esfomeados. Ele nos disse:
'A vida de vocs vai mudar. Pena no poder comprar todos os escravos desta fazenda. Vocs no precisam ter medo, quem comprou vocs  boa pessoa, o mesmo que comprou 
Justino, porque teve d dele. Sim, Justino, seu marido, o pai de vocs. Vo encontrar com ele. Vamos, comam com calma, devagar. Amanh chegaremos. Mame ria e chorava, 
mas estava desconfiada. Eu fiquei contente, estava comendo coisas diferentes da comida medida que tnhamos. O empregado nos dera frutas, po, doces, carne seca. 
E comemos at enfartar No outro dia, chegamos na Sant'Ana, avistamos meu pai, limpo, bem vestido a esperar-nos na porteira. Papai e mame abraaram-se felizes, chorando 
alto, emocionados, e acabei chorando tambm.
Acomodaram-nos numa casa, deram-nos muitas coisas e nos maravilhamos em viver aqui.
Meu pai sempre contava a ns o que lhe acontecera. Saiu sofrendo tanto da fazenda com o castigo, tanto fsica como afetivamente com a separao dos seus. Fizeram-no 
andar faminto e sedento, puxado por cordas at a cidade para ser vendido. Um senhor comprou-o, nem se interessou em ver quem era. Foi colocado na carroa e lhe deram 
gua, ao chegar  fazenda foi desamarrado, colocado num leito e vieram um negro e Maria, que era jovem naquele tempo, a cuidar dos seus ferimentos, e deramlhe gua 
e comida. Maria, curiosa, quis saber o que acontecera com ele. Meu pai, chorando, contou tudo. Ela foi logo contar para sinhazinha Ana e esta contou ao filho. Snh 
Joaquim veio ver meu pai.  verdade, negro, tudo o que contou  Maria? CATIVOS E LIBERTOS 47 Sim, sinh,  verdade.  triste saber o que fazem certos senhores de 
escravos. Comprei voc porque tive pena, estava to machucado e desanimado! Tem razo de chorar e de estar agoniado assim, foi separado dos seus. vou ajud-lo novamente, 
mandarei Manuel e Severino comprar sua mulher e filhos. No se alegre ainda, mandarei comprlos, mas no sei se eles os vendero. Se sabe rezar, homem, pea esta 
graa a Deus.'
Meu pai esperou aflito a volta dos dois empregados. Viu que a fazenda Sant'Ana era um paraso para quem tinha que, pela cor, ser escravo.
Meu pai morreu grato aos Castro e Alves, foram felizes aqui, tiveram mais filhos e contava sua histria sempre para os outros escravos da fazenda, para que dessem 
valor  forma de vida que tinham aqui. E todos ns somos gratos tambm. Meu pai dava a vida pelo sinh Joaquim, e eu e meus irmos, por todos da casagrande."
Tio conhecia muitos lugares; e um dia perguntei-lhe:
"Tio, no deseja ser livre?"
"Ser livre, preto, sinhozinho? Posso ser liberto, mas livre, no. No desejo ser alforriado, no, sinh. Para fazer o qu? Ser um empregado e ser tratado miseravelmente? 
Aqui estou bem."
Tio ganhava muitas recompensas e comprava coisas para sua casa, para sua mulher e filhos. Gostava de botas e as comprava de cano alto e boas. Tio e seus irmos 
eram fortes, altos, trabalhadores e amigos. Desde mocinho viajava ele com meu pai, fora buscar-me no Rio e tinha ido duas vezes a So Paulo com papai.
Iro Samuel e Tio, porque no era recomendvel um negro viajar sozinho. E Samuel porque era empregado nosso de confiana, nascera na fazenda, era bom e corajoso. 
Amava muito sua famlia, ainda h pouco contava a Nrcio as artimanhas de seus filhos. Quando falava da esposa, seus olhos brilhavam demonstrando continuar amando-a 
muito. Samuel era casado com uma
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS

negra, escrava da fazenda, seus pais no queriam, mas comprou-a de meu pai e casaram, viviam to felizes que Benedito e a esposa aceitaram a nora. E tinham filhos 
mulatos, muito bonitos. Ao chegar em casa, disse a Nrcio:
- Nrcio, chame Manuel, Tio e Samuel, e venham ao meu escritrio. Esperei-os e, logo que estvamos reunidos, fechei a porta.
- Vocs quatro so como meus braos, amigos em quem confio. No quero briga, como j disse, mas quero defender-me e defender a todos os moradores de Sant'Ana. Estou 
preocupado porque sei que somos fracos diante do Coronel Francisco, que tem sob suas ordens capangas bem armados. No quero, no desejo encher a fazenda desses homens 
do mundo, sem moral nem temor. Logo que for possvel mando de volta os dois homens do sr. Amadeu. Terei de dispor dos meus homens mesmo, so de confiana. Armarei 
um plano de defesa. Quero. Nrcio, que escolha mais duas famlias, sem crianas, para morar nos quartos dos fundos da casagrande, junto de voc, Joana e Brbara; 
devem saber atirar e serem de confiana.
- Deixar a casa bem guardada, no , sinh? - disse Manuel. - Meus filhos se casaram, moramos s eu e minha velha; se quiser, venho.
- Quero, e fico feliz. Tambm quero os empregados agora como guardas, que trabalhem menos, observando mais. Tirem uns doze negros, dos melhores, inclusive os irmos 
de Tio, e que lhes seja dada a tarefa de guardas.
- Guarda-costas, faro trabalho de jagunos, sinhozinho? indagou Nrcio.
- Prefiro dar o nome de vigias, de guardas, mas  isto, Nrcio, jagunos, porm sero diferentes, no para sarem matando e, sim, defendendo.
- Tiraremos muitos do trabalho - disse Nrcio -, aumentar o servio.
- J pensei nisto. Hoje no armazm escutei a conversa que o Coronel Joo dos Santos est vendendo escravos para pagar
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49 dvidas; tenho em meu poder letras dele, atrasadas. Quero, Manuel, que voc e Nrcio levem mais uns empregados, vo l e certifiquem se  verdade. Adquiram famlias, 
famlias, entenderam? No quero separar parentes. Escolham negros bons e pacficos. Assim, teremos mais gente por aqui. Manuel diga ao Coronel Joo dos Santos que 
venha, por favor, se fizer negcio, amanh aqui para acertar. Quantos devo comprar? Quantos acha que necessitamos? Tirando tantos do servio, calculo de vinte a 
trinta. Certo, Manuel, e ao traz-los, acomode-os no galpo, depois nas casas disponveis. Se necessitar, tire todos do servio, faam mutiro e construam outras 
casas. Vamos agora ao assunto mais importante: armas! Sabem que estamos mal armados. Lembrei de um amigo que mora em So Paulo e que comercia armas. Quero que prometam 
guardar segredo do que vo ouvir. Vou comprar armas, bem modernas e boas, e muitas. No posso me ausentar da fazenda, por isso chamei-os aqui, quero que vocs, Tio 
e Samuel, vo por mim. Podem recusar,  um pedido. Vou disse Tio. Quero ajudar o sinh, depois  justo que nos preocupemos como o sinh. Num ataque no sero somente 
os Castro e Alves que morrero falou Samuel, preocupado. Eu Vou.
- Levaro uma carta para esse meu amigo, compraro as armas e voltaro. Meu plano  este: partiro amanh, quanto mais depressa recebermos as armas, melhor. Sairo 
na madrugada, iro a cavalo, escolham dois bons, dos melhores; l compraro uma boa carroa e nela traro as armas. Levaro uns trs dias para ir, mais dois para 
acertar o negcio, na volta de carroa demoraro mais, acredito, mas logo estaro de volta. Levaro... - disse uma quantia grande de dinheiro.
- Sinh Jorge vai confiar a ns tanto dinheiro? - indagou assustado Samuel.
- Confio. Conheo os dois e sei o quanto so honestos. Depois, Samuel, iro s, aqui ficaro suas famlias, ser o dinheiro mais valioso que elas para vocs?
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- O sinh pode confiar em mim - disse Tio. - vou e volto
com as armas.
- Em mim tambm, sinhozinho Jorge. Podemos esconder as armas debaixo de mercadorias baratas. O plano  bom, um branco e um escravo no chamaro a ateno.
-  isto, Samuel, agora o mais importante, ningum deve descobrir! Temo que a notcia se espalhe; o Coronel Francisco deve saber s quando tivermos as armas em nosso 
poder. No digam nem para as pessoas da famlia. Partiro dizendo que iro s vilas vizinhas, nas redondezas, conversar com os delegados e verificar se no sabem 
de criminosos que rondaram por aqui.
Discutimos mais o nosso plano, os detalhes; aps, saram os quatro para as providncias que teriam que tomar e fui escrever a Martins. Saudei-o, lembrando os bons 
eventos que passamos juntos e pedindo o favor de vender-me armas boas e munio. Narrei, superficialmente, os fatos e o porqu de necessitar de armas. Temendo que 
no o encontrassem, escrevi tambm a seu pai, fazendo o mesmo pedido.
 tarde, vieram pegar o dinheiro que foi colocado em duas bolsas de couro, uma Samuel levaria, outra, Tio. Dei-lhes as cartas, e fiz as ltimas recomendaes.
- Conheo esse lugar, sinhozinho - disse Tio. - Sinh Joaquim foi l comprar tecidos para as meninas.
- Ser fcil. Partam com Deus e que Ele os proteja! Saram e pedi em orao a Jesus que os protegesse. Iam
com muito dinheiro e isso seria grande tentao. Poderiam ser assaltados, correr perigo. Mas o plano era bom, s os dois, no chamaria a ateno de ladres. E no 
havia escolha, se eu no podia ir, precisava confiar neles e tinha a certeza de que escolhera certo. De madrugada, partiram os dois, e para todos iriam s vilas 
vizinhas; e mame comentou, desiludida:
- Jorge, ser que os dois acharo alguma pista? Ilude-se assim, filho? Sabemos quem mandou matar seu irmo. Ser conveniente tirar dois homens como Samuel e Tio 
da fazenda?
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- Mame, pode ser que achemos uma pista, pode ser que um dos delegados se interesse pelo caso. Todo esforo  vlido, esperemos.
No outro dia, Manuel e Nrcio vieram com dez negros fortes e aptos para o trabalho. Eram seis famlias, totalizando umas trinta pessoas. O Coronel Joo dos Santos 
tratava bem seus escravos; no estava bem de situao, e ao enviuvar dera para gastar, ele e seus dois filhos, com jogo e mulheres.
Recebi-os, vinham felizes, todos na redondeza sabiam como viviam os escravos em nossa fazenda. Disse a eles o que fariam e as regras a serem obedecidas; liberei 
o dia para descansarem e se ajeitarem. Dei ordens a Benedito para vigi-los, orient-los e que ficariam sob suas ordens. Tnhamos lugar com as mudanas feitas, porque 
dois casais foram para as dependncias da casa-grande, embora mame no tivesse achado bom, mas era seguro; havia quatro casas desocupadas e as duas que faltavam, 
comeariam a ser feitas no outro dia. Ficariam no galpo, alojadas, as duas famlias.
Logo aps, chegou Coronel Joo dos Santos para acertar a venda. Devolvi as letras, embora a compra dos negros no cobrisse a quantia a mim devida. Mas dei por acertado. 
Agradecido, partiu Coronel Joo.
Todos os sbados, os negros reuniam-se no ptio no centro de suas casas, para danar, cantar e conversar at tarde da noite, porque no domingo no trabalhavam.
- Sinhozinho Jorge, os negros me pediram para perguntar se podem se reunir amanh. Iro cantar e rezar para o sinhozinho Jos.
Pedi para Nrcio esperar e fui consultar mame.
- Deixa-os, Jorge. Quando seu pai morreu, Jos deixou, e cantaram triste e bonito,  o jeito de eles se despedirem, gostavam tanto de Jos!...
Dei a permisso. No outro dia, acordei saudoso, lembrei tanto de minha av e fui ao seu tmulo no cemitrio da fazenda.
52 VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS Por que ser que quis ser enterrada aqui?" - pensei. "Ser por que seu filho de doze anos tambm o fora?"

Vov Ana, perdera um filho com doze anos. Na poca meu av brigara com o padre e ele fez o cemitrio no lugar mais alto da fazenda, rodeou de rvores e enterrou 
o filho ali. Papai contva-nos sempre que vov sentindo-se muito doente, pedira para ali ser enterrada e dissera: "O corpo vira p onde quer que seja enterrado, 
e quero ser p no lugar que amo".
Lembrei dos sonhos que com ela tivera:
"Oh, vov! A senhora tinha razo, encontrei minha terra diferente, sem meu pai, sem meu irmo, ameaado de uma vingana sem razo. Vov, se me escuta, ajuda-me! 
A senhora tentou prevenir-me em sonhos; se pode, auxilia-me a ser digno de cuidar desta gente, destas terras e a defender com honra a todos."
Senti-me melhor, voltei para casa; o dia passou lento e logo  noitinha os escravos comearam a cantar, tristemente. Nrcio veio chamar-me, queria falar em particular, 
fomos ao escritrio:
- Sinhozinho, trs que esto de castigo insistem em ficar na reunio.
- Qu, Nrcio! Trs sem recompensas? Por que tantos assim?
- No sei no, sinh, so cinco, os outros dois esto em
suas casas.
- H sempre os mais rebeldes que querem testar a autoridade dos novos donos. Vamos l.
Quando entrei no ptio, pararam de cantar e todos olharam-me, curiosos.
- Quem sem recompensa est aqui? - indaguei alto.
- Eu, sinh.
Reconheci Domingos, um negro alto e forte, respondeu-me com a cabea empinada e olhar desafiador.
- Ordeno que volte. Como disse a todos, no mudaram os costumes da fazenda, tudo  como antes.
- Se no quiser, sinh? - respondeu com um risinho. Mandar bater-me? Aqui nem tronco tem...
CATIVOS E LIBERTOS
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- Queria que tivesse tronco aqui, Domingos? No mando bater, bato eu! Desafio voc, brao a brao, lutemos. Se ganhar, fica, se eu ganhar, voltar para sua casa.
Dei minha garrucha para Nrcio, que me olhava, assustado. Tirei o palet, camisa e botas.
- Comeamos, Domingos. Lutaremos como dois homens que somos.
A luta durou minutos. Domingos lutava bem e eu tambm. Deixei-o estendido no cho. Todos olhavam-me com admirao.
- Levem-no para casa. E os outros dois? Nem responderam, saram correndo.
- Vamos, Nrcio.
- Lutou como um leo, sinhozinho!
- Estava precisando de um treino. Nrcio, temeu por mim., heim?
- Temi, sim. Domingos luta capoeira, e eu estava pronto para interferir. Nunca vi isto, um sinh lutar com escravo. Mas me orgulho do sinh, agiu bem, certo.
- Foi meu mestre, Nrcio.  o melhor lutador de capoeira que j vi. Lembro dos tempos felizes em que ensinou a mim e a Jos lutar.
- Isto foi h tempo, tive medo que perdera a forma. Sorri. No s estudava Engenharia na Frana, como eles
pensavam. Aprendi muitas outras coisas. O pai de um dos meus colegas era Capito do Exrcito, em Paris, e permitiu que treinassem, o filho e um grupo de amigos, 
em seus ginsios. L ia, sempre que me era possvel; aprendera a atirar, a usar espadas e facas, e a lutar. Estudava comigo um chins, lanchi, meu melhor amigo, 
e ensinou-me formas de luta corporais que usavam no oriente. Assim, no fora difcil vencer Domingos, lutador de capoeira, mais alto e forte que eu.
- Domingos, sinhozinho, ser motivo de riso por muito tempo na fazenda,  tido como valento e temido pelos outros. Sinh Jorge adquiriu autoridade sobre eles. Duvido 
que algum mais desobedea.
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
- Nrcio, entremos pela cozinha, no quero que mame me veja assim, vou pedir para Joana me fazer uns curativos.
Ferira-me em trs lugares: nos lbios do lado esquerdo, na testa e no ombro.
Joana passou remdios caseiros nos meus ferimentos, vesti minhas roupas e fui para a sala tomar ch para dormirmos. Escondi com as mos, meus ferimentos. As quatro 
estavam silenciosas e pensativas, no prestaram ateno em mim, nada percebendo. Aps, despediram e retiraram-se para seus quartos. Dava para ouvir-se o canto triste 
dos escravos. No tinha sono e fiquei na sala, folheando um livro da estante.
Foi quando novamente Nrcio veio chamar-me:
- Sinhozinho Jorge, temos outro problema, Dimas violentou Sarana, a filha do Chico Parreira. Eles o amarraram e esto aqui no ptio  espera do sinh.
- Qu, Nrcio! Aquela mocinha? Ai, meu Deus! Que acontece com estes negros?
- Dimas pegou Sarana no cafezal  tardinha, na volta do trabalho, veio e agiu como se nada acontecera, deixando-a l, toda machucada. Como demorou a voltar, a me 
se preocupou e Chico, que est de guarda agora, foi com os filhos menores procur-la; encontraram-na voltando com dificuldades. O malandro ainda ameaou-a para no 
contar a ningum, mas ela contou ao pai. Chico pegou-o e amarrou-o; esto a fora.
- E a mocinha?
- Tem treze anos e  muito bonita. Est na sua casa, Maria e Joana foram cuidar dela, a coitadinha treme e chora sem parar.
Dei um murro na mesa, que assustou Nrcio.
Meu av viera de Portugal, menino ainda, ajudou seu pai a desbravar aquele serto, formara a fazenda com ajuda barata dos escravos, e desde seu tempo, os escravos 
eram respeitados na sua intimidade. Viviam como famlias, casavam e as mulheres eram respeitadas, no serviam de pasto nem para seus senhores, nem para empregados, 
nem para os negros. Meu pai nunca permitiu
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que eu ou Jos desrespeitssemos uma negra. Ai de ns se ousssemos desobedec-lo! Aprendera desde mocinho a controlar o sexo e a ter respeito pelas mulheres, qualquer 
que fosse sua cor. A raiva tonteou-me, respirei fundo, controlando-me! Vamos, Nrcio, ser feito o que meu pai fazia.
Muitos dos escravos ali estavam. Chico segurava a corda1 em que Dimas estava amarrado muito bem, pelos pulsos. Estavam todos em silncio, esperando meu pronunciamento. 
Chico, tem a certeza da culpa de Dimas? Tenho, sim, sinh.
- Dimas,  culpado?
Dimas estava assustado, temendo mais a Chico que a mim, mas respondeu alto:
-Sou.
Olhei com raiva para ele e minha vontade no momento era deix-lo nas mos de Chico, mas no queria violncia. Papai sempre dizia que violncia no educa ningum, 
s gera dio. Controlei-me para no o surrar, disse com desprezo:
- Nem lutar com voc quero, negro sujo. No  digno de ser homem de lutar com um homem. Poderia deixar Chico surrar voc, mas por muito que apanhe,  pouco pelo 
que fez. Seu crime no tem perdo. Que todos escutem: No tem perdo! Que seja vendido amanh cedo.
Mame e minha irms levantaram-se assustadas, estavam na varanda abraadas, escutando-me. Os negros curiosos aproximaram para saber do ocorrido. Ningum contudo 
interferiu, continuei firme:
- Que passe a noite amarrado, bem amarrado na frente do galpo! Os guardas devem velar para que ningum chegue at ele, se algum quiser solt-lo, ser vendido com 
ele. Aproveito que esto todos reunidos, para afirmar que aqui estou para mandar e ser obedecido. Empregados so livres para pedir demisso e partir. Aos escravos, 
dou a liberdade de querer ficar ou ser vendido. Se aqui tem algum insatisfeito que fale ou obedea, porque no tolerarei indisciplina! 56 VERA LCIA MARINZECK DE 
CARVALHO / ANTNIO CARLOS Domingos adiantou-se: Eu quero ir com Dimas.
- Que seja. Amanh iro cedo para a cidade e que todos estejam aqui para ver. Iro amarrados, porm a cavalo. Manuel e Benedito os levaro, peo tambm a um dos 
homens do sr. Amadeu para acompanh-los.
Um deles adiantou-se, pareciam se divertir com meu procedimento, com minha luta com o escravo e com meu estranho castigo. Na fazenda do sr. Amadeu, os escravos eram 
bem tratados, bem alimentados, tinham folgas, faziam festas moravam em senzalas espaosas e eram raros os castigos, mas longe de ser como na Fazenda Sant'Ana.
Com tudo resolvido, esperei que amarrassem Dimas e voltei para casa. Os escravos tambm se dispersaram, foram para suas casas; com os acontecimentos a reunio deles 
acabou, perderam a vontade de cantar.
As mulheres entraram em casa comigo, nada comentaram e fomos deitar.
Demorei a dormir pensando nos episdios tumultuados da minha volta.
No outro dia cedo, levantei apressado com Joana a me chamar. Troquei de roupa e fui para o ptio e l estavam todos os que foram ver os que iam para a cidade. Chamei 
Manuel e disse-lhe baixo:
- Hoje, domingo, no ser difcil vend-los. Procure pedir preo justo por eles, mas pode fazer abatimento. Est autorizado a fazer qualquer negcio, que sejam vendidos 
nem que seja para o sr. Miliquias. No os quero de volta, negocia-os ainda hoje, porque no quero voc e Benedito longe da fazenda por muito tempo.
Manuel concordou com um "sim, sinh". Espantou-se quando disse sr. Miliquias, que nos era antiptico, um velho indecente que negociava negros na vila. Dei a ordem. 
Podem partir. Ajudaram Dimas a montar no cavalo. Domingos despediu-se da famlia, sua me e irms choravam muito e sua mulher estava inconsolvel.
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Benedito puxou-o pela corda, pois j se achava amarrado. Domingos correu para meu lado. Ao ver seu gesto, saquei da garrucha e apontei para ele. Mas Domingos, arrependido, 
ajoelhou-se a meus ps, lgrimas corriam pelas faces: Perdo sinh, perdo. No quero mais ser vendido. Deixe-me ficar, no desobedecerei mais, nunca mais. Serei 
bom. Ia responder concordando, mas esperei. Olhei para todos e disse alto: Que seja feita uma votao, porque Domingos no est sendo castigado, foi escolha dele 
partir, e agora se arrepende e quer ficar. Que seja decidido pela maioria, se foi bom colega, ficar. Levante a mo direita aqueles que querem que Domingos fique. 
Contei alto, foram poucos os que no levantaram a mo Desamarrem-no e que fique! Obrigado, sinh, obrigado! Correu para os seus, que o abraaram, felizes. Dimas 
em cima do cavalo olhava tudo cinicamente com a cabea erguida, desafiando-me e tambm a Chico, com olhares irnicos. S sua me chorava; seu choro triste apiedou-me, 
mas por ela nada podia fazer. Quem manda, no pode ter d de algum, se este ameaa o bem-estar de muitos. O exemplo tinha que ser dado, se no, violncias deste 
tipo seriam comuns na fazenda. Olhei para Dimas, encarando-o; no olhava para sua me, que chorava, parecia ou fazia de contente, com um risinho maroto, no se despediu 
de ningum e ningum se atreveu a se despedir dele. Olhando, entendi o porqu de muitos senhores surrarem s vezes at a morte certos escravos como Dimas, cnico 
e arrogante. No seria eu a mandar surr-lo, quem o comprasse saberia que os Castro e Alves no vendiam -toa seus escravos, e acostumar a outra forma de vida no 
seria fcil a ele. Dei a ordem: Podem partir.
Partiram a galope e logo no mais os via na estrada. Tanto os empregados, como os escravos, olhavam-me com respeito. A reunio se desfez. Com passos largos, voltei 
para casa.
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
"Ordem para ter disciplina!" - parecia-me escutar vov Ana e lembrei do Pastor Germano. Pareceu-me ouvi-lo:

"Autoridade, meus filhos, deve ser exercida com sabedoria e bondade. Ser bom  ser justo, no frouxo. Quem tem temporariamente poder sobre outros, deve proteger 
os fracos dos fortes, os bons dos maus, fazendo todos viverem bem. Se crimes e violncias acontecerem e no se tomarem providncias, pagaro eles juntos com os criminosos. 
Na terra ainda uns tm que mandar, serem lderes da maioria, mas ai deles se exercerem mal essa liderana. Felizes os que mandam com sabedoria e agem com justia!"
Ao entrar em casa, aguardavam-me para o desjejum; todos estavam silenciosos e pensativos. Captulo V MEDITANDO SOBRE DIFERENAS
Sentei-me num canto da varanda e fiquei meditando no que me dizia sempre lanchi. Recordando a expresso de Dimas, dei razo a ele, a suas idias. Falava-me sempre:
"Jorge, no vivemos uma vez somente, no tivemos s este corpo que usamos agora, a alma, o esprito  eterno e renasce na Terra, toma o corpo fetal, encarna, quantas 
vezes forem necessrias ao seu progresso. Ao sermos criados, somos ignorantes e, em cada passagem pela Terra, vamos aprendendo, desenvolvendo a inteligncia, adquirindo 
experincia. Tudo o que fazemos a ns pertence, o bem ou o mal. Nossa obra  nossa; nos pertence, as boas so tesouros que nos do a fartura do conhecimento, do 
aprendizado, das virtudes adquiridas. As ms obras so dvidas que contramos, que um dia temos que resgatar pelo bem. construindo, reparando faltas. Oportunidades 
pelo amor so dadas, mas, se nos negamos a aproveit-las, vem a dor, esta sbia companheira, a nos corrigir, a chamar-nos  realidade para a vida maior. No v tantas 
diferenas, Jorge? Tantas pessoas na fartura, outros na penria, uns belos, outros feios, senhores e escravos. Deus seria justo diferenciando tanto assim seus filhos? 
No seremos ns mesmos que fazemos esta diferena? Se um caminha, e outro pra, ocioso, no podem estar no mesmo lugar. Deus  justo, ns  que no entendemos bem 
seus desgnios."
lanchi falava-me tanto sobre o assunto, acreditava com tal fervor na Teresinha Kawski
Endereo(s) de email(s):
  teka72@terra.com.br
Teresinha Kawski
Endereo(s) de email(s):
  teka72@terra.com.br
reencarnao que fui me convencendo, cheguei at a comentar com Pastor Germano e foi com admirao que ouvi:
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
"Conheo a filosofia oriental, acho-a justa e simples. Para mim, a verdade est nos ensinos que compreendemos e acreditamos.  bem justa a lei do carma, de causa 
e efeito, da reencarnao, porque confirma a bondade do Pai, que no condena seus filhos a castigos eternos, mas sim, d sempre oportunidades de reparar, construir 
e de aprender aqui na Terra mesmo. Mudamos de corpo, para o recomeo, com a sabedoria do esquecimento. No faz muito tempo, Jorge, conheci um rapaz que, com dezesseis 
anos, matara cinco pessoas, estuprou duas meninas e acabou sendo assassinado. No acha que dezesseis anos de erros  pouco tempo para uma condenao eterna? No 
merece este esprito novas oportunidades? No posso expor estas idias; so contrrias  religio que sirvo. Sinto no ntimo que so verdadeiras e, se assim forem, 
espalhar-se-o pelo mundo. A verdade, Jorge, vem devagar,  como a luz que, forte, cega. Nascer como a Aurora, no Ocidente, e se fortalecer nas pessoas de boa-vontade."
"Ai que vontade!" - resmunguei. "Que vontade de conversar com eles, trocar idias com o Pastor Germano". Ia escrever a eles, aos amigos, mas como o que tinha a contar 
era tanto e to demorada a correspondncia que quando recebesse a resposta muitas coisas j teriam mudado. Entendia mame por no ter escrito sobre papai e o casamento 
de Jos.
Pensei novamente em lanchi, um oriental simptico e inteligentssimo. Voltara para a China na mesma semana em que eu regressara ao Brasil. Concluiu seus estudos, 
sendo admirado por colegas e mestres pela simplicidade e sabedoria. Ah! Se voc, lanchi, estivesse aqui, entre senhores e escravos confirmaria bem sua crena! As 
diferenas eram muitas. Por que um esprito, um indivduo ia ser escravo? Se nascemos uma s vez, por que esta diferena? Recordando Dimas com sua arrogncia, parecia 
mais um senhor que um escravo. Ser que no o tinha sido? Ser que no fora *~'.- em outra existncia um senhor cruel que voltara na cor negra para  dar valor aos 
ensinos de Jesus: Somos todos irmos o que quer que lhe faam CATIVOS E LIBERTOS 61 Ali, na fazenda, havia muitos casos a meditar, como o de Maria, sbia nas curas. 
Quem lhe ensinara? Ningum, ou aprendera em outra existncia?
Mesmo comigo, qual o porqu de achar a Frana conhecida sem nunca antes nesta vida ter ido l, e como recordei de tantos lugares e fatos?! A facilidade com que aprendera 
o francs e como falava corretamente, sem sotaque. Vivera na Frana?
Lembrava tambm de Tonho, um negro forte, ocioso, que no gostava de trabalhar, estava sempre brigando, e bastava algum cham-lo de negro para se ofender e revidar. 
J estava com vinte anos, no queria constituir famlia porque dizia sempre no gostar de negras. Comeou a rodear a casa-grande e olhar muito Carlota, que nessa 
poca estava com oito anos. Meu pai o proibiu de chegar perto da casa e de ns. Tonho teimou, olhava para Carlota com cobia, preocupando meu pai, que lhe tirou 
as recompensas e falou aos pais dele para aconselh-lo, porque, se desobedecesse outra vez, seria vendido. Sua me contou que ele achava lindas as meninas, mulheres 
brancas e que era revoltado por ser negro. Aps uns dias, Brbara contou ao papai que Tonho se aproximara de Carlota quando brincava no quintal e que o vira passando 
a mo nos seus braos, mas fugiu logo que a notara. Meu pai chamou sua famlia e lhe disse que ia vender Tonho, se quisessem poderiam ir junto. Responderam logo 
que queriam ficar e meu pai admirou-se por ningum pedir por ele, nem sua me. No outro dia, foi levado e vendido longe, ningum dele se despediu e nunca mais soubemos 
dele. No teria sido Tonho um branco racista que, mesmo negro, no conseguia amar a cor negra?
Sempre se ouvia falar de brigas entre negros, at crimes. E, em castigos, os escravos nunca queriam ser surrados por outro negro, escolhiam brancos para chicote-los. 
Havia entre eles dio revolta, nem todos escravos eram coitadinhos e inocentes, send< alguns maus, mesmo. No estariam eles num aprendizado na car ne, pela dor? 
Sentia que sim, acreditava que sim, uns abnegados bons, aprendiam; outros se revoltavam ante a oportunidade dada. 62
VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
Se assim no fosse, no poderia acreditar na Bondade de Deus, Pai de todos. Eu acreditava.
Senti um perfume, a imagem da vov veio-me  mente. Aspirei profundamente, reconheci o perfume que minha av Ana usava. Aspirei, senti-me abraado e escutei, no 
com os ouvidos fsicos, mas com a alma: Jorge, meu neto, continue firme no bem e na justia. Se for bom, ter a mim sempre ao seu lado, eu o abeno."
Quis falar, mas emocionado no consegui sair do lugar e foi mame quem me tirou do torpor em que me encontrava:
- Jorge, meu filho, quero falar-lhe: ser a missa do nosso Jos, queremos ir na vspera, amanh, e pernoitar por dois dias na casa da cidade. Voc vem tambm? Vamos 
todos, ento. D-me dinheiro filho, quero dar uma esmola farta na igreja.
- Mame, alm de pagar para rezarem ao Jos, quer dar mais dinheiro a eles? A igreja  rica, mame, muito rica, no necessita de esmolas, nem pequenas, nem grandes.
- Jorge, a igreja  pobre e ajuda aos pobres.
- Pobres de onde?
- Eu sei l, o vigrio manda dinheiro para os pobres de longe.
- Aqui no os tem?
- Tem.
- Ento daremos para os daqui, so os mais prximos. Temos muito feijo, arroz e milho, levaremos e daremos aos pobres da vila por inteno do Jos. Que acha a senhora?
- Acho bom, mas quero dar tambm ao vigrio.
- Feijo, arroz?
- No, dinheiro. Voc me d?
- Por que pede a mim, mame?
- Voc  o chefe da casa. E o homem que trata deste assunto
- respondeu admirada com minha indagao.
- Quanto a senhora quer? Disse ela a quantia.
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- Tudo isto, mame? Darei a metade. vou tomar as providncias para irmos amanh logo cedo.

Resolvemos, eu e Nrcio, que iramos na carruagem de visita, chamvamos assim a melhor carruagem que tnhamos. Seramos escoltados por doze homens que voltariam 
 fazenda logo aps, ficando quatro somente conosco. Na cidade no havia perigo, e, para voltar, iriam novamente para nos escoltar. Conosco viajariam algumas escravas 
para cuidar da casa e estas iriam na outra carruagem. Manuel ficaria no comando da fazenda durante minha ausncia.
 tarde, os homens que tinham ido vender Dimas, voltaram e trouxeram com eles um negrinho. Manuel foi explicando ao
me ver:
- Sinh Jorge, a vila est sem movimento hoje, andei por todo lado oferecendo Dimas, ningum se interessou, tive que negoci-lo com o sr. Miliquias; l estava este 
negro, apiedei-me dele. tem vinte anos, sinh, parece ter menos. Est doente, com febre, l estava jogado sem cuidado. Comprei-o barato, aqui esta o troco. Se o 
sinh quiser, fico com ele, pago com meu dinheiro, pois comprei, fiz m compra, mas foi por d.
- Agiu bem. Manuel, ficaremos com ele. Leve-o para o poro e pea  Maria para cuidar dele, v se no  contagioso o que tem.
- Sim, sinh - disse Manuel, alegre, ajudando o negrinho a descer do cavalo e a andar. Logo mais, veio Maria dar notcias:
- Sinhozinho, Mane, o negrinho que Manuel trouxe, tem feridas por dentro, parece ser como a doena de seu pai. Coitado, foi vendido s porque estava doente. O malvado 
do sr. Miliquias teve lucro com ele e tratou-o mal.
- Vamos cuidar dele. Pode fazer isto, Maria?
- Claro, sinh, gosto de cuidar de todos.
- Por que, Maria?
- No sei, sinh. Parece que fiz isto sempre,  algo que sei. s vezes, tenho a sensao de que fiz isto por dinheiro, muito dinheiro, agora, fao s por carinho, 
por gosto! 64 VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS Maria saiu e fiquei a cismar com o que ela dissera, no tinha dvida que Maria aprendera Medicina 
em outra existncia, num outro corpo.
Durante o jantar, Glorinha e Carlota comearam a indagarme sobre a Frana e conversamos mais animados.
- Deixou amores por l? - quis saber Carlota curiosa. Pensamos que voc poderia voltar casado.
- No escondi nada de vocs, queridas. No tive amor nem amores, mas alguns flertes, encontros sem importncia. As mulheres parisienses so encantadoras, mas nenhuma 
tentou um namoro mais srio. Nunca voltaria casado, no daria este desgosto aos meus pais. Depois, como uma francesa iria se acostumar aqui?
- Aqui  to ruim assim, Jorge? - perguntou Glorinha um tanto indignada.
- No, Glorinha, aqui  maravilhoso. Mas a vida l  diferente, as mulheres so mais emancipadas, e j no obedecem aos homens como aqui.
- Como  possvel? Assim vira baguna - disse mame.
- Mame, homens e mulheres so iguais perante Deus, devem ser tambm nas responsabilidades. Baguna, s se houver abusos de qualquer das partes.
Contei fatos interessantes e elas ouviram atentas e curiosas, fomos dormir mais tarde. Animado com o calor da conversa, adormeci logo.
No outro dia, logo cedo, preparamo-nos para ir  cidade. Uma carroa grande foi carregada de mantimentos para darmos aos pobres da vila. Aps o desjejum, partimos, 
acomodamo-nos na casa da vila. Era uma casa grande, bem imobiliada, muito bonita; um casal de escravos nela ficava para deix-la sempre limpa e em ordem.  noite, 
recebemos visitas de amigos, mais de amigas da mame e das meninas. O rompimento do noivado de Glorinha e Abelardo foi o assunto preferido. No outro dia pela manh 
realizou-se a missa, e a Igreja ficou lotada. Aps a missa, recebemos os cumprimentos dos amigos. Depois, mame levou-me  sacristia,
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fez tomar a bno do vigrio, o que fiz por educao. Sempre tive o conceito de que abenoar  dar fluidos, energias, algo de bom, de que quem abenoa, d espontaneamente.
Deu a ele a esmola, e o vigrio no conseguiu esconder a decepo, pois esperava mais, certamente.
Aps, fomos distribuir os mantimentos pela redondeza. Mame e as meninas gostaram tanto, que prometi que faramos sempre estas distribuies. Deus lhe pague! Obrigado!", 
eram canes, voltamos para casa, leves, como acontece sempre que fazemos o bem.
Recebemos muitas visitas  tarde e  noite. As mes casamenteiras olhavam-me, curiosas, fazendo questo de me apresentarem as filhas solteiras. Conhecia-as quase 
todas meninas, fui educado, mas dei graas, quando saiu a ltima visita. No outro dia cedo, regressamos  fazenda.
Na carruagem, observando-as, vi o quanto eram indefesas, dependentes. A no ser Glorinha, as outras no saberiam viver sem serem conduzidas. At mame, mais velha, 
no pensou em tomar nenhuma atitude. Do papai ao Jos, agora a mim pertencia o comando, segundo ela, que at dinheiro para esmolas me pedia. Fizeram-me o chefe, 
no teria como escapar. Como ir agora embora como planejara? Como deixar a fazenda? Teria o direito de vend-la? Tocar neste assunto seria ofender mame, abandonar 
a fazenda seria mat-la de desgosto. E minhas irms, iriam? Tinha a certeza de que Carlota no, estava apaixonada demais pelo Pedro. Era melhor no pensar no futuro, 
bastavam as minhas preocupaes do presente. Resolvi prestar ateno no que elas conversavam, comentavam sobre o bonito sermo que o vigrio fez na missa para Jos, 
e nos comentrios dos amigos.
Chegamos sem problemas. Quatro dias se passaram, tranqilos. Quase  noitinha, regressaram Samuel e Tio com a carroa carregada de boas armas e muita munio. Reunimos 
todos no ptio para ver as armas; encantaram-se com elas. Fiquei satisfeito com a compra, recompensei Samuel e Tio pelo bom desempenho da tarefa. Separei as armas, 
distribu, ensinando-os a us-las. Dei para Glorinha uma garrucha pequena muito bonita e outra para Brbara, ambas j atiravam bem.
Martins respondera minha carta com uma missiva alegre, dando notcias dos amigos e colocou-se  disposio para me vender o que necessitasse.
Com o meu pessoal bem armado, fiquei mais tranqilo. Chamei os dois homens do sr. Amadeu e mandei-os de volta, gratificando-os bem.
Agora, todos os empregados e os escravos que separara para guardas, andavam armados o tempo todo e tambm Glorinha, que prendeu sua garrucha na cintura, escandalizando 
minha me.
- Mame - disse-lhe -, Glorinha no sair matando, fico mais tranqilo se pelo menos ela e Brbara estiverem aqui em casa armadas e sabendo atirar. Deveriam todas 
fazer isto.
Planejei com todos os detalhes possveis nossa defesa; de qualquer lugar da fazenda que recebssemos um ataque, estaramos prontos a defender. No seria mais o Coronel 
Francisco, nem qualquer outro, a tocaiar-nos, nem temeramos qualquer ofensiva.
Tudo foi voltando ao normal, os negros novatos acostumaram-se logo ao nosso convvio, e no tivemos mais nenhum deles sem recompensas. As duas casas foram construdas, 
ficando todos bem instalados.
Nrcio me falava de Lencio, o tanto que era trabalhador; esquecera-me dos problemas dele e a promessa de ajud-lo. Mandei cham-lo.
- Lencio, receber seu salrio como empregado na fazenda. Manuel e Nrcio tm elogiado seu trabalho. Com tantos problemas que encontrei aqui. no pude ajud-lo. 
Descobriu o paradeiro de sua me?
- No, sinh. Perguntei a todos na fazenda e ningum sabe.
- Lencio, v perguntar ao pai Toms, o velho que mora na fazenda assombrada, ele deve saber, conhece a todos por aqui.
- Na fazenda assombrada, sinh?
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- At voc j sabe e teme. V durante o dia, pea a Nrcio para ir junto, ele conhece bem o pai Toms. Aquele velho sabe das coisas, tem uma memria incrvel. Tambm 
Lencio, acompanhe a todos que sarem da fazenda, v junto s compras, v perguntando, se ela estiver por aqui, acabar sabendo.
"Fazenda assombrada" era como chamavam a Fazenda Olho d'gua, vizinha  nossa pela parte Leste e Norte, fazendo divisa conosco e com o Coronel Francisco. Era uma 
fazenda pequena, de terra boa, lugar muito bonito, com muita gua e com duas nascentes formando um pequeno lago, cercado de pedras e lindas rvores. Estava abandonada 
h muito tempo. Sua histria era conhecida por todos na redondeza. H muito tempo, seu dono, um coronel de prestgio, enviuvara, casando novamente com uma jovem, 
muitos anos mais moa que ele e muito bonita. Dizem que fora obrigada ao casamento pelo pai, em resgate por dvidas com o tal coronel. A jovem esposa era muito infeliz 
e foi me de duas crianas. Veio em visita  fazenda um primo do coronel, moo e simptico, e ficou para uma temporada. Os dois jovens acabaram por se apaixonar. 
O coronel acabou desconfiando e pegando os dois conversando juntinhos, trocando juras de amor. Os dois juraram inocncia, disseram no o ter trado, mas este, louco 
de dio, amarrou-os, deixando-os dois dias no quarto, trancados. Nesses dois dias, o coronel vendeu sua colheita, todos os animais e escravos, tirou tudo o que tinha 
de valor na casa. Mandou os trs filhos do primeiro consrcio para a capital da provncia. Ficaram os negros da casa e os empregados. Levou os escravos para o quarto 
e amarrou-os junto da esposa. Disse friamente que ia mat-los, os dois por tra-lo e os negros por no lhe terem contado. Os escravos apavorados, juraram nada saber, 
pediram piedade, mas ele ria alto no se apiedando dos negros, dos choros. Trouxe o casal de filhos pequenos e deu ordens para que os jagunos os matassem. Como 
se negassem a isso, ele mesmo matou-os com facadas, diante da esposa, horrorizada. Depois ps fogo na casa, dando a eles uma morte horrvel! Morreram doze, naquela 
noite de terror. Quando
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viram fogo, os vizinhos correram, porm nada mais puderam fazer. O fogo destruiu tudo e o coronel olhava aquilo com indiferena. Pagou os empregados e os mandou 
embora e partiu em seguida. Ningum mais morou na fazenda a no ser um ex-escravo, alforriado, o velho pai Toms, como todos o chamavam.
Na fazenda, das construes, s restaram runas, o mato tomou conta de tudo e logo comearam os comentrios de que as almas da mulher do coronel e do amante passeavam 
de mos dadas, trocando juras de amor. Diziam tambm que a primeira esposa aparecia com dio da rival. Com o tempo, muitos afirmavam que os escravos apareciam, alguns 
deles com dio do coronel. Bastou uns jurarem que haviam visto, para o comentrio se espalhar e o lugar ficou conhecido como "Fazenda Assombrada". Mesmo tendo se 
passado tantos anos, temiam-na e poucos iam l, e s durante o dia e at  cabana do pai Toms. Ningum se aventurava ir l  noite, principalmente brancos, porque 
os negros fantasmas os atacavam com raiva.
A estrada para ir  vila era a mesma que usava o pessoal do Coronel Francisco e ns prprios. Para ir  Fazenda Assombrada, em sua antiga sede, nas runas, tinha-se 
que passar em frente da nossa fazenda. Pelo abandono a estrada acabara e s se chegava a ela, a p ou a cavalo.
De vez em quando, uma vez a cada dois anos, o filho mais velho do tal coronel vinha ver a fazenda. Algumas pessoas se interessaram em compr-la, mas no a venderiam 
enquanto o pai fosse vivo e este estava, como soubemos pelo filho, louco, preso
em casa.
Pai Toms vivia ali, sozinho e feliz. Se perguntassem a ele sobre as assombraes ele sorria e dizia:

"Almas so gente como ns, vivendo com outro corpo, e a mim, no fazem mal!"
Dava bnos, receitava ervas e aconselhava para o bem, todos os que o procuravam. L no iam mais pessoas pelo difcil acesso e pelo medo dos fantasmas. Olhava 
a sorte com pedras,
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talvez com bzios. Tinha uma memria fantstica e de todos sabia um pouco, parecendo conhecer a todos da redondeza.
Um dia, de tanto ns insistirmos, Nrcio nos levou, eu e Jos, para conhec-lo. Foi muito simptico, tinha algo, bondade talvez, que conquistava as pessoas. Achei-o 
muito inteligente. Ao despedirmos, abenoou-nos e disse ao Jos:
"Breve ser sua caminhada na Terra" - e a mim disse: '"Veio de outras terras, mais instrudas e velhas. Neste estgio, far planos que adormeceram para seu remorso 
no Cu. Mandar em muitos, ser dono nestas terras. Que Deus o abenoe, menino, e livre-o das tentaes do ouro e do poder!"

"Engraado!" - balbuciei, espantando-me da recordao com detalhes dessa visita e do que ele dissera.
Talvez porque ele acertava quanto ao Jos. E eu cheio de planos e os acontecimentos imprevistos que os tornavam irrealizveis. Dissera que viera de outras terras, 
da Europa, talvez da Frana, para encarnar no Brasil? Sendo o nico varo dos Castro e Alves, no se fez que me tornasse dono de tudo, algo em que nunca pensara 
nem desejava? Acertara prevendo o futuro de ns dois!
- Sinhozinho - chamou-me Manuel. - Mane, o negrinho doente, est bem ruim, quer ver o sinh.
Fui com Manuel v-lo. A entrada para o poro ficava em um canto  direita de nosso quintal. Usvamos do poro uma parte para guardar materiais usados na fazenda. 
Na outra, mais alta e arejada, morava Maria num cmodo e. ao lado, ela fazia seus curativos, cuidava de seus doentes, tendo dois leitos e, num deles, estava Mane. 
Maria no tinha outro trabalho a no ser cuidar de sua horta de ervas que ficava numa parte do pomar, e dos doentes. Tinha l seus cinqenta anos, era forte, robusta 
e alegre, mas aparentava ser bem mais nova.
Mane estava deitado no leito limpinho e sorriu ao ver-me:
- Sinhozinho veio ver-me! Deus lhe pague por ajudar-me assim!
- Nada fiz, menino. Foram Manuel e Maria.
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- A mando do sinh, porque deixou. A eles j agradeci.
- No necessita agradecer. Quero que sare e sinta-se bem.
- No vou sarar, no, sinh. Sei que vou morrer logo. Nesta noite sonhei com minha madrinha, uma negra boa, que morreu h muito tempo. Ela disse-me que viria buscar-me 
e que meus padecimentos iam acabar.
- E sonho - disse.
- No, sinh, deve ser verdade. Estava ela muito bonita no sonho, abenoou-me e pediu para que recordasse o passado, para entender o porqu de estar sofrendo assim. 
Ento me vi como branco, num navio carregando negros como prisioneiros. Eles choravam a separao dos amigos e parentes e me vi tambm jogando doentes na gua, muita 
gua, num rio enorme onde no se via a margem. Chorei em ver tudo aquilo e a madrinha consolou-me:
"Maneja se arrependeu de tudo. Nesta existncia foi bom e justo, sofre dores resignado, por isso foi encaminhado junto de pessoas boas, tudo chega ao seu final."
- Se no tivesse sido bom, que aconteceria comigo? - perguntei a ela, que me explicou:
"Morreria no alojamento do sr. Miliquias."
- Como v, sinh, vou mesmo morrer e desejo que seja logo. Queria pedir uma coisa...
Mane narrou o sonho com dificuldades e eu escutei-o atento, acreditando que nada era injusto no sofrimento dele, estava pela bondade do Pai tendo a oportunidade 
de resgatar seus erros. Era o mar que vira em sonho. Fora ele, um traficante de negros, e nesta vida veio como escravo, sofrendo o que fizera outros sofrerem. Parecia 
acanhado em fazer o pedido, olhei para Manuel que escutava atento, e indaguei-lhe:
- Fale Manuel, o que ele quer?
- Ele tem me, pai, irmos na Fazenda Santa Rosa, venderam-no porque no podia trabalhar, levou at castigos, pensando ser por preguia. Os pais ficaram desesperados 
ao v-lo partir. Ele quer que, quando morrer, o sinh mande algum l avisar sua famlia que ele morreu aqui, bem cuidado.
CATIVOS E LIBERTOS
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- No quer que avise agora, Mane? - disse apiedando-me mais ainda do mocinho.
- No, sinh. deixa morrer primeiro, assim levaro a notcia toda.
- Prometo, menino. Manuel que tanto tem feito por voc, ir dar notcias aos seus, como deseja.
- Obrigado, sinh. Deus lhe abenoe e a todos aqui. Adormeceu tranqilo, sa sem fazer barulho.
Logo chegaram Nrcio e Lencio e indaguei deles do pai Toms.
- Ele vai bem - disse Nrcio -, disse-nos saber do sinh e mandou dizer-lhe que se necessitar do favor dele, que pode contar como certo.
- E estranho este homem, sinh Jorge - falou Lencio. Por que acha que o sinh necessitar dele? Perguntei da minha me e ele respondeu-me: "No conheo e  melhor 
no achar".
Aborrecido, Lencio foi desarrar os cavalos.
- No se chateie Lencio - animei-o -, se elas estiverem por aqui, acharemos. Pergunte sempre a todos que encontrar.
- Sinhozinho - falou preocupado Nrcio quando Lencio se afastou -, Pai Toms fala de forma estranha, mas verdadeira. Me deu um pressentimento estranho ele ter dito 
que melhor seria no ach-las.
Tambm senti um pressentimento ruim, mas nada disse.
Dois dias depois, Mane morreu e foi enterrado no cemitrio da fazenda e no outro dia cedo Manuel foi avisar seus pais, conforme lhe prometera.Captulo VI MARCINA
Comecei a supervisionar o trabalho na fazenda, saa com sete a oito homens, e ia no meio deles. Em lugares perigosos que poderiam tocaiar-nos, caminhavam trs homens 
 frente, um  direita, outro  esquerda e outro na direo que seguiramos. Combinvamos na hora o nmero de tiros para o alto que dariam para informar que no 
havia ningum escondido, que no havia perigo. Se no dessem o tiro era sinal de perigo, outros iriam at eles para ajud-los ou ver o que havia.
Gostava de andar pela fazenda, olhar o cafezal e os animais nos pastos. No tivemos mais nenhum problema, tudo estava em ordem e normal. Resolvi ir  cidade e pressionar 
o delegado para desvendar a morte do Jos; agora, sentia-me seguro para isto. Bem armados, formos em doze homens. Na vila chamei a ateno, todos nos olhavam com 
respeito, admirando as armas que meus homens portavam. As notcias corriam rpido, e curiosos, todos, queriam ver-me, pois j no era a parte fraca, no era visto 
como um almofadinha que s tinha estudado. Fui cumprimentado com respeito, at mesmo pelo delegado, que gaguejou ao explicar que estava fazendo tudo, mas que, sem 
provas, estava difcil.
- Sr. delegado, tenho a certeza de que est fazendo muito, mas quero mais, quero o impossvel. No se mata um Castro e Alves e se fica impune. Quero todo seu empenho!
- Sim, o senhor tem razo. Mas  como procurar agulha no palheiro, j corri a redondeza, ningum sabe de nada, ningum viu nada. Acharemos o assassino, o senhor 
e sua famlia podem estar tranqilos.
CATIVOS E LIBERTOS
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Sabia que nunca iramos desvendar este mistrio, o assassino ficaria impune pela justia dos homens, pois fizeram bem feito a tocaia. Mesmo se fosse sincero o desejo 
do delegado em pegar o assassino, seria bem difcil.
Cumprimentei-o, despedindo-me friamente e sa. J no era o Jorge que na primeira vez ali estivera, meio desorientado. Mudara, agora, sentia-me seguro.
Fui ao armazm fazer algumas compras. O local era tambm bar, lugar de fofocas, e se quisesse saber algo, ali era o ideal. Dei algumas informaes sobre as armas, 
sem dizer de onde as obtivera.
- Sr. Mendona - disse alto ao dono do armazm -, ofereo uma fortuna para quem der informao segura do assassino do meu irmo. Diga a todos, pago...
"Oh!" - fizeram os presentes, era realmente muito dinheiro na poca.
No demorei muito e voltamos.
A estrada cortava morros, havia curvas perigosas, subidas e descidas, amos tranqilos quando vimos uma carruagem em disparada, sem controle, descendo o morro atrs 
de ns. Vi o cocheiro deitado no banco, parecia desmaiado. Galopei em sua direo, parando os cavalos da frente. Eram quatro, num salto passei para um deles, segurei 
as rdeas dominando-os, e foram parando devagar. Meus homens vieram ao meu encontro, vi nas suas fisionomias, o quanto estavam orgulhosos de mim. Um deles segurou 
os cavalos e desci, outro trouxe o meu, mas, antes de montar novamente, fui cumprimentar os passageiros da carruagem. Samuel examinou o cocheiro e informou:
- O homem est desmaiado, sinh. Abri a porta da carruagem.
Dentro estavam duas mulheres. Uma negra, dama de companhia, e a outra, uma senhora que tremia, plida de susto. Observei-a firmemente, sua pele era muito clara, 
seus cabelos e olhos negros, contrastavam de um modo que me fascinou. Seus lbios eram pequenos e vermelhos, trajada simplesmente e com poucas
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS jias, era magra. Pareceu-me conhec-la. Estas observaes ocorreram em segundos e lembrei: "Marcina, a filha do 
Coronel Francisco. H tempos que no a via, no mudara muito, no podia dizer que era linda ou maravilhosa, mas tinha algo que me atraa, era doce, meiga e delicada. 
Respeitosamente, tirei o chapu e cumprimentei-a.
- Boa tarde, senhora, seu cocheiro desmaiou. Sou Jorge Correia de Castro e Alves, a seu dispor.
A negra desceu com muita rapidez, subiu no banco do cocheiro, Samuel teve que sair rpido, e ela ps os cavalos em movimento.
Marcina nada disse, ficou me olhando, espantada, e logo a carruagem tomou distncia.
Meus homens riam. E Nrcio tratou de explicar:
- Sinh Jorge, esta  Marcina, a filha do Coronel Francisco. Se tivesse esperado, teria dito ao sinh. Salvou a filha do nosso inimigo!
- Foi corajoso, sinh.
- Seu pulo foi perfeito.
- Conseguiu parar a carruagem, salvou as mulheres. Na curva do Pio, na certa iriam virar.
Meus homens comentavam entusiasmados, eu nada disse. Montei no cavalo e pusemo-nos a caminho. Curioso, indaguei de Nrcio:
- Nrcio, Marcina deve ter a minha idade.  casada?
- No, sinh,  uma solteirona.
Ali. no serto, nessa poca, as moas se casavam bem novas, com seus treze a dezessete anos. Aps os vinte, eram tachadas de solteironas. Nrcio continuou a falar:
- Sinh Marcina  muito boa, nem parece ser filha daquele horrvel homem, porque puxou  me, mulher boa. Era noiva prometida do sinh Carlos Santana, que morreu 
trs meses antes do casamento. Dizem que foi do corao. A, no quis mais casar. Sai pouco, vai  missa e anda muito a cavalo pela redondeza. CATIVOS E LIBERTOS
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- Parece que o coronel no se preocupa muito com ela, estava s com uma negra e o cocheiro.
- O coronel no liga para as mulheres, parece nem gostar das filhas. A outra  demente, segundo dizem, ele no gosta nem de v-la.
Ao chegar, fui tomar banho e, ao sair do quarto, mame esperava-me.
- Jorge, que explicaes me d? Arriscou sua vida para salvar a filha do Coronel Francisco! Eles mandam matar meu Jos e voc se arrisca para salvar um deles?
- Calma, mame, no arrisquei minha vida. O que fiz foi fcil, no tinha perigo. Depois, no sabia quem era ela.
- Que ironia! Um Castro salvando a vida de um inimigo!...
- Mame, a moa no  um inimigo!
- Como no ?  filha dele. Todos l so malditos. >
- Eu no sabia que era. Depois mame, mesmo que soubesse agiria do mesmo modo, tenho a certeza de que a senhorita Marcina nada tem com as maldades do pai - disse 
lembrando o modo assustado de Marcina.
- Jorge! - exclamou mame aborrecida.
- Jorge, voc  um heri, todos comentam - disse Glorinha, alegre, entrando na sala. - No se fala noutra coisa na fazenda.
- Glorinha! - respondeu mame. - Jorge salvou a filha do nosso inimigo!
- Este  um motivo para acharmos bom, ora! Pense bem, mame, o Coronel Francisco deve estar bufando de dio por ficar devendo-nos este favor. Pela redondeza, todos 
j devem estar sabendo e os comentrios os ridicularizaro. As vantagens so nossas, Jorge  visto como heri, corajoso. Comentrios nada agradveis a eles.
- , pode ser, mas preferiria que Jorge no a tivesse salvado e que estivesse morta. Jorge - continuou mame -, quanto ao dinheiro que ofereceu de recompensa, no 
 uma fortuna?  dez vezes mais o que lhe pedi para dar de esmola  Igreja!
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Os comentrios corriam mesmo, no me deram tempo nem de contar.
- Mame, temos dinheiro e resolvi us-lo para nossa segurana. A senhora quer, como todos queremos, descobrir quem mandou matar Jos, friamente! O delegado nada 
descobriu nem descobrir. Ofereci o dinheiro e o darei por uma informao segura. Dinheiro, mame,  meio de progresso, de segurana, como tambm de ambio. Para 
t-lo o que muitos tm feito e faro? Trair amigos, companheiros, pela recompensa que ofereci no  difcil. Dinheiro  tentao!
- Ser - disse esperanosa - que descobriremos alguma coisa?
- No acredito muito.
- Ento?... No o entendo filho, se no acredita por que oferecer esta fortuna?
- Com esta oferta, mame, traremos insegurana tanto ao criminoso, como ao mandante. Talvez o mandante mate ou mande matar o assassino de Jos. Se assim for, ter 
ele seu castigo, se no, ficar com medo de que o mandante o faa. De qualquer forma, mame, com esta oferta, no estaro mais tranqilos, o mandante ficar inseguro 
temendo que o criminoso seja preso e confesse seu nome. E, intranqilos, podero falhar. Criminosos, cedo ou tarde, temem ser descobertos. E a tentao de receber 
a recompensa ser muita e, quem sabe, talvez algum os traia...
- Voc  inteligente meu filho. vou rezar para aparecer algum com uma denncia. A Jos ser vingado.
- Mame, ser que Jos clama por vingana? Quem faz paga, quem planta colhe. Um dia, tero que dar contas de seus atos a Deus.
Nos dias seguintes recebemos muitas visitas e os comentrios foram muitos, a notcia da recompensa se espalhou, mas ningum veio at ns.
Na tera-feira, aps o almoo, Joana entrou atrs de mim, no meu quarto . CATIVOS ILIBERTOS 77
- Sinh, trago-lhe algo - disse baixinho. - Sou muito amiga de Ana, comadre at. Ana  uma escrava do Coronel Francisco. Serve na casa-grande, adora a sinh Marcina. 
Encontramo-nos no rio, na ponte. No fique bravo comigo, e no conte ao Nrcio, se ele souber,  capaz de surrar-me. Ana trouxe uma carta para o sinh, disse que 
 de sua sinh, falou-me de ps-juntos, pelo sangue de Jesus. Eu acredito nela, por isso entrego. Acho que sinh Marcina agradece ao sinh.
Entregou-me um envelope.
- Joana, a senhorinha Marcina sabe escrever?
Saber ler e escrever era privilgio de senhores, de homens, raras mulheres o sabiam. Meu pai contratou um velho professor para dar aulas s minhas irms, alfabetizando-as. 
Fez minha me aprender tambm, e ela o fez em obedincia a ele. A Tio, moo na poca, foi dada a tarefa de guardar a sala, ou seja, vigiar o professor. Interessado, 
pediu para aprender tambm e meu pai consentiu. Laurinda quando casou no sabia ler, depois Carlota e Glorinha ensinaram-na. Por ali, no interior, era raro mulheres 
alfabetizadas.
- Ana garantiu que sim, sinh Jorge.
Abri o envelope, meu corao disparou, era um bilhete, a letra era delicada como a dona, estava escrito e li alto:
Senhor Jorge,
Sinto no ter conseguido agradecer-lhe por seu bondoso gesto. Gostaria de faz-lo pessoalmente. Se me der o prazer, encontre-se comigo no Lago das Pedras, na Fazenda 
Assombrada, quarta-feira s dezesseis horas.

Marcina
Joana se benzeu.
- Pela Virgem, o sinh no ir!
- Por que no, Joana?
- Uma moa direita no escreve bilhete marcando encontro, sinh.
Joana tinha razo, no era costume mulheres de famlia marcarem encontros, poderiam ir talvez, se convidadas.
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- Joana, Ana  mesmo sua amiga? E pessoa boa?
- Como minha irm. Ela no  capaz de trair. Odeia o coronel, ama a sinh.
- Acha que a senhorinha Marcina seria capaz de armar uma emboscada?
- Ela, no, seu pai, sim. Mas como ter a certeza? No v, sinh. No me perdoarei se algo acontecer com o sinh.
- No se preocupe, Joana, nada me acontecer, no serei bobo. Obrigado, pode ir e... nada!
Ia falar para no ir mais  ponte, mas poderia necessitar desses encontros. Ficando a ss, li e reli o bilhete. Estava perfumado suavemente. Poderia bem ser uma 
emboscada. Deveria ir, ou no? Foi no que pensei a noite toda e no cheguei a nenhuma concluso.
Ao meio-dia, decidi ir. Mas precaveria-me. Desenhei no papel o terreno do local do encontro marcado. Para o pessoal da Fazenda Morro Vermelho chegar no lago, s 
havia dois caminhos, subir pelo rio ou contornar uma montanha por um estreito atalho. Chamei meus homens, separei em trs grupos, deixando Tio e Samuel para irem 
comigo. O primeiro grupo ficaria desde j na curva do rio, nas nossas terras, at s cinco horas, vigiando se passasse algum por ali. A ordem era para no deixar 
passar ningum. Se vissem algum, mandariam parar, se no obedecesse: atirariam para ferir. O segundo grupo iria esconder-se entre as margens do Atalho das Pedras, 
numa curva do caminho na montanha. O outro grupo deveria percorrer a Fazenda Assombrada, vasculhar a parte norte do lago.

Arrumei-me todo, peguei mais outra arma e fui com Tio e Samuel.
- Por que isto s para ir ao lago?
- Tudo isto s para ir ao lago?
- Devem esperar-me aqui - disse ao avistar o lugar -, no quero comentrios, e fiquem atentos!
Segui alguns metros sozinho e atento, ali o lago acabava, estreitava-se seguindo o rio, atravessei uma ponte velha com
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cautela e vi Marcina. Ela estava encostada numa enorme pedra e seu cavalo pastava ao lado. Estava distrada, observei-a por segundos. Tinha os olhos cerrados, longos 
clios cobriam os olhos, estava mais corada, vestia roupas de montaria.
- Boa-tarde! - disse baixo, temendo assust-la.
- Oh! Boa-tarde, senhor Jorge. Como est?
- Muito bem, e a senhorinha?
- Fui to mal-educada no outro dia! Arriscou sua vida para salvar-me. Quero agradecer-lhe.
- Vendo-a agora, viva e bem, arriscaria outras vezes. Est muito bonita, senhorinha.
- Por favor, senhor Jorge, chama-me de Marcina.
- Com prazer, desde que me chame de Jorge.
- Deve ter estranhado meu bilhete.  que senti ter sido to grosseira, no ter dito nem obrigado.
- Estranhei e temi, mas a vontade de rev-la foi mais forte.
- Quero que saiba, Jorge, que no aprovo o procedimento de meu pai, abomino. Era outra coisa que queria dizer-lhe. Fomos amigos. Lembra quando puxava minhas tranas 
na missa? Falava que parecia um esquilo. Nossas famlias nunca foram amigas, mas nunca tivemos animosidades, no  mesmo? Guardo boas recordaes daquele tempo.
Sorri, recordando. Via Marcina em festas e na missa aos domingos. Aps a missa era costume ficarem todos conversando na frente da Igreja, as mulheres faziam rodas, 
de amigas e parentes. E os homens tambm, formando vrios crculos, e a meninada aproveitava para brincar. Marcina era da minha idade, meses mais moa, sempre a 
procurava e puxava suas tranas devagar e s escondidas. Engraado, que s fazia isso com ela. Chamava-a de esquilo, parecia-me sempre assustada e ela ria, gostava 
de v-la sorrir. Ao tornar-se mocinha, no me atrevi mais a puxar-lhe as tranas, tambm, porque no as usava mais. Ficava olhando-a sem chegar perto. Era menino 
ainda e senti muita tristeza ao v-la com o noivo. Recordei Carlos, franzino e muito louro, ento parei de observ-la e, tempos depois, parti para a Franca.
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
Por minutos ficamos silenciosos, cada um parecia estar vivendo no passado, fui o primeiro a falar.
- No me parece mais um esquilo, nem tem tranas. Ela sorriu, tinha um sorriso encantador.
- Nem voc, um menino travesso. Foi por isto, Jorge, que quis v-lo e dizer a voc que eu e Joo, meu irmo, nada temos a ver com estas desavenas, a mim to reprovveis.
- Lindo este lugar, vem sempre aqui, Marcina?
- Sim, todas as quartas  tarde, neste horrio, gosto daqui,  to tranqilo...
- Vem s? No tem medo?
- Cavalgo sempre sozinha. No tenho medo, nunca vi nada de anormal. J  tarde, devo ir-me. At logo, Jorge. Obrigado novamente.
Ajudei-a a montar no seu cavalo, senti seu perfume suave, igual ao do bilhete. Fiquei olhando-a at que virou no atalho. Montei no meu cavalo e fui ter com Samuel 
e Tio que estavam srios, preocupados, mas nada falaram, achei melhor explicar:
- Ela s queria agradecer-me, quando meninos fomos amigos.
- O sinh arriscou - disse Tio -, agora entendo suas ordens. Sinhozinho, todos por aqui sabem que sinh Marcina  boa e caridosa, mas  filha do homem, do Coronel 
Francisco.
- Quero que este encontro seja segredo. S ns trs sabemos e assim deve continuar sendo. Confio em vocs.
- Nada diremos.
Os homens regressaram  fazenda. Logo aps termos chegado, s os do grupo que vigiara o atalho da montanha, disseram ter visto sinh Marcina passar por l, os outros 
nada viram.
Senti que arriscara, porm, no me arrependi, e fiquei pensando nela.
No sbado, logo cedo, veio a notcia, trazida por amigos, de que chegaram presos, na vila, os trs negros foragidos da Fazenda Morro Vermelho e que confessaram ter 
assassinado Chico por no
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gostarem dele, por odi-lo. Os trs negros haviam fugido na vspera; perseguidos, esconderam-se perto da estrada, e ao verem Chico sozinho, um deles pulou na frente 
do cavalo e dois sobre ele, matando-o com facadas. Os homens que acompanhavam Chico, foram socorr-lo e na confuso os negros escaparam e foram parar num quilombo, 
onde ficaram escondidos. Sendo o quilombo invadido pelos soldados, trouxeram-nos presos em lastimvel estado, quase mortos.
Mame comentou:
- Jorge, todos na vila, assim como o Coronel Francisco, tm agora certeza de que no fomos os mandantes do brbaro crime. Ser que ele no se arrependeu de ter mandado 
matar Jos?
- Acho que no. Ele nos odeia mais por inveja. Penso que ele preferiria termos sido ns, a ter o filho assassinado pelos prprios escravos foragidos,  golpe para 
seu orgulho.
- Que matem rpido estes negros assassinos. No tinham direito de matar seu senhor.
- Ningum tem direito de matar, mame, nem eles aos negros. Mas no  assunto nosso; como esto, ser melhor que morram. Dizem que foram muito torturados.
Pensei tanto em Marcina, que ansiei por chegar quarta-feira. Ser que dissera que ia ao lago, todas as quartas espontaneamente ou para eu saber? E, na quarta, antes 
da hora marcada, sa decidido a ir ao lago e comigo foram Samuel e Tio.

Ningum estava no lago, desci do cavalo e sentei na pedra, onde nos encontramos na quarta passada e esperei. Logo escutei galope e Marcina apareceu no caminho do 
atalho, sorriu e veio at mim, seu sorriso encantava-me. Ajudei-a a descer e procedemos naturalmente como se fssemos acostumados a estes encontros.

Marcina no falava dos seus, nem eu, dos meus familiares, como se no quisssemos coloc-los entre ns. Falvamos do passado, acontecimentos. Contou-me que aprendera 
a ler porque um professor ia ensinar os irmos e sua me tinha que estar presente e deixava ela ficar tambm. A me queria que aprendesse e pediu
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em segredo, longe dos filhos, para o professor ensin-la. O bondoso mestre disfaradamente e cauteloso, ensinara, e o pai no sabia que ela era alfabetizada.
O tempo corria nesses encontros semanais, que passaram a ficar muito significativos para mim e os esperava com ansiedade. Descobrimos que gostvamos das mesmas coisas. 
Tinha preferncia pelos mesmos livros que Marcina lia s escondidas, emprestados pelo padre Jos.
Sabia que Marcina ia  missa todos os domingos e pensei em v-la, mesmo de longe. Como tinha dado ordens para no sairmos da fazenda, no fomos mais  missa, mas 
tudo estava em ordem e sentia-me protegido, falei a mame:
- Mame, a senhora no quer ir novamente  missa aos domingos? No necessitamos ficar na cidade, podemos ir e voltar. No vejo mais perigo e podemos ser escoltados 
por nossos homens. Manuel substitui-me na nossa ausncia.
- Verdade, Jorge? Que alegria! Quero ir, sim, filho.
Saiu contente para dar a notcia s meninas. A missa no deixava de ser um acontecimento social.
Passamos a ir todos os domingos  missa.
Revi o Coronel Francisco, pois ele ia  missa com os seus. No nos cumprimentamos, estava envelhecido, tinha os cabelos quase todos brancos, uma barba rala, olhos 
midos; para mim era tremendamente desagradvel. Lucas, seu filho, era parecido com ele, cnico, imitava o pai em tudo. Marcina ficava sempre ao lado de Joo, eram 
parecidos fisicamente, estava ele com vinte anos e pareceu-me educado e agradvel. Na Igreja, no olhava para ela nem a cumprimentava, temendo que notassem. Aps 
o ato religioso, os crculos formavam-se na frente da Igreja. Assim podia v-la, e para mim, estava sempre bonita, conversava sempre com amigas, todas j casadas. 
Quase sempre o Coronel Francisco ia embora primeiro, dificilmente ficavam na casa da cidade. Eu era o ltimo a ir, dava um tempo para ele se distanciar, porque usvamos 
o mesmo caminho. Iam eles bem escoltados por seus jagunos e eu por meus homens.
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Mame, Laurinda e as meninas adoravam ir  missa. Carlota encontrava-se com Pedro, e Laurinda, com sua famlia. Passei a ser taxado de bom partido pelas mocinhas 
em idade de casar. No me interessei por nenhuma delas, por estar com o pensamento em Marcina. Tambm os coronis sondavam-me as preferncias polticas. Por ali, 
sempre tiveram desavenas ideolgicas, mas sem maiores conseqncias. Meu pai tudo fazia para ser neutro, no gostava de poltica. Eu era um abolicionista com idias 
de um Brasil livre do Imprio. D. Pedro era um farrista e portugus. Mas como ser abolicionista tendo escravos? Minhas idias eram perigosas e eu j tinha problemas 
demais. Preferi adiar minhas idias para o futuro e adotei a posio de meu pai. Escutava, e falava pouco, mudava de assunto, preferindo estar bem com todos. Passei 
a ser respeitado pelos coronis como se fosse um deles.
Mais de dois meses se passaram desde meu primeiro encontro com Marcina. Ia sempre com Samuel e Tio que guardavam segredo, embora demonstrassem estar preocupados 
e ficassem sempre atentos com nossos encontros. Marcina os via, mas nunca comentou nada. Na fazenda, tudo transcorria sem problemas, a colheita comeava e seria 
abundante, e o caf, de primeira qualidade. A vigilncia era a mesma, meus homens treinavam todos os dias e tornaram-se excelentes atiradores.
Naquela quarta, chegara ao encontro antes da hora, Marcina atrasara e eu fiquei aflito, tive a certeza de que a amava.

"Ah, meu Deus! Pensei que nunca ia amar algum. Aceitava a idia de um casamento arranjado, ria de amigos enamorados. Agora totalmente apaixonado e por quem? Pela 
filha do meu nico inimigo" - resmunguei aborrecido e ansioso.
Porm, quando a vi chegar, as preocupaes se foram e senti meu corao bater alegremente.
- Marcina, como demorou!
- Lucas me prendeu com conversas, e eu no quis sair, temendo que desconfiasse.

Beijei suas mos.
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- Marcina, seu atraso pareceu-me horas, fiquei aflito temendo no v-la. Amo voc, Marcina!
- Oh, Jorge! Meu Deus! Amo-o tambm.
Namorados parecem ver o mundo cor-de-rosa, com facilidades, e foi assim conosco tambm. Felizes, trocamos juras de amor, promessas de nos amarmos para sempre. Neste 
dia, Marcina falou sobre ela:
- Meu pai sempre foi difcil, tem um gnio terrvel. Minha me sofreu muito com ele, no tinha direito de optar por nada. Diz sempre que mulher  inferior e que 
deveria nascer muda. Quando mudamos para a Fazenda Morro Vermelho mame j estava doente e logo faleceu. Sofria muito por ver papai castigar os escravos. Pelo menos 
aqui, a senzala  longe da casa-grande e ela no viu mais os castigos, porm sabamos e sei que acontecem. Senti muito sua morte, amava-a muito, passei a tomar conta 
da casa e de Tamira. Somos em cinco irmos: Chico, que morreu, Lucas, eu, Joo e Tamira, que  doente, dbil-mental. Papai tem horror a ela, quase no a v,  como 
criana, nada sabe.
- E seu noivo, Marcina, amava-o?
- Carlos? No, nunca o amei. Amo s a voc; penso, Jorge, que o amo desde criana. Nestes anos sempre pensei em voc. Meu susto naquele dia que me salvou, foi mais 
por rev-lo. Carlos era bom, fora prometida a ele desde criana. Gostava ele de ler, fazer poesia, era educado e de pouca sade. Estava sempre doente e trs meses 
antes de casarmos ele morreu. Senti, perdi um amigo e temi que meu pai me forasse a casar com outro e pedi a ele para ficar solteira e foi com alvio que dele escutei: 
"Noiva  quase esposa. Mulher viva no  para casar mais. Ficar solteira,  til em casa". Por cuidar da casa, de Tamira, foi que papai no pensou em casar-me 
novamente. Ele prometeu a mame, no leito de morte, que cuidaria de Tamira, mas no a suporta e sente-se aliviado por eu cuidar dela.
- Por que Marcina, este horror a ela? - indaguei intrigado.
- No sei. Tamira  feia, toda desengonada, age como criana, mas amo-a e ela quer muito a mim e ao Joo. Joo  o
CATIVOS E LIBERTOS
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irmo que adoro. Estudou em So Paulo, viveu oito anos com minha tia, irm de minha me. Somos iguais, diferentes do meu pai e de Lucas e pouco tolerados. Joo chegou 
dois dias antes do acidente da carruagem e foi ele que me salvou de uma tremenda surra naquele dia.
- Por qu?
- Papai, ao saber que voc me salvara, ficou como louco. Eu tinha ido, naquele dia,  costureira. E ao voltarmos, com o cocheiro desmaiado, tudo aconteceu... Enchemo-nos 
de coragem e contamos a ele, antes que soubesse por outros.
"Voc, Marcina" - gritou enfurecido -, "deixar salvar-se por um Castro?! Por que no morreu sua peste? Era prefervel!"
Xingou alto, tirou a cinta para surrar-me e Joo interveio.
"Calma, pai, pense um pouco. O Castro salvou Marcina sem saber quem era ela, neste instante deve estar tendo um ataque de nervos, arrependido. Pense na raiva que 
deve estar sentindo, nas gozaes que receber. Um Castro salva a filha do Coronel Francisco, seu inimigo."
Papai riu, cnico, e guardou a cinta.
" Joo" - disse -, "tem razo. Salvou a filha do inimigo sem saber."
Marcina abaixou a cabea e pelos seus olhos passou por instantes uma profunda tristeza.
- Sente-se s em sua casa, no , Marcina?
- No com Joo, ele  encantador, mas est de partida. No sei por que ainda no foi. Veio para visitar-nos. Acabou seus estudos e vai trabalhar com meu tio no comrcio 
de tecidos. Resolveu ficar mais, nem sei por que est aqui ainda. Mas adoro sua companhia.
Senti muito d de Marcina, prometi a mim mesmo faz-la feliz. Como? No o sabia, mas para mim, naquele momento, bastava a vontade.
- Marcina. que ser de ns?
- No sei, Jorge. Se meu pai descobre nem sei o que  capaz de fazer. Me mandar para um convento ou me prender em casa, ou me obrigara a casar com o sr. Amncio.
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- Aquele velho?
- Desde que ficou vivo, me faz assdio, e morro de medo de papai fazer casar-me com ele.
Conhecia sr. Amando, devia-nos dinheiro, sua situao financeira no era das melhores, talvez por isso o pai de Marcina no pensava em cas-la com ele.
- Defendo voc, amor. Se for para um convento, roubo voc. Se for-la a casar com outro, roubo-a tambm, nem que seja na porta da Igreja. J, se prend-la em casa, 
ficar mais difcil, mas daremos um jeito!
- Jorge, tenho medo que descubram, devemos esconder nosso amor. Deus nos ajudar no futuro. V este broche? Ser sinal, nosso aviso. Olhe, ele  partido no meio, 
ficarei com uma parte e voc com a outra. Necessitando um do outro, ou querendo comprovar um bilhete, um encontro, mandaremos junto a parte do broche. Deveremos 
ficar atentos. Saio sempre a passear a cavalo, papai nunca se importou ou prestou ateno, nem pergunta aonde vou. Mas no deveremos nos arriscar. Por que no manda 
seus homens ficarem no alto do atalho? Se for seguida vero e daro sinal.
- Tem razo, Marcina, Samuel e Tio ficaro no atalho. Tomaremos todo cuidado. No quero que sofra por mim.
- E eu, que nada de mau lhe acontea. Despedimo-nos carinhosamente.
Pensei muito e tive a certeza de que Marcina era a mulher de minha vida e que no ia perd-la. Deveria ter um jeito de ficar com ela e eu o acharia. Para o corao, 
os sentimentos, tudo parecia fcil, mas para o raciocnio, no. Diante dos olhares de Samuel e Tio, senti-me irresponsvel, tantas coisas dependendo de mim e eu 
namorando s escondidas a filha de nosso terrvel inimigo.
- Captulo VII -
OS MORTOS DO CORPO
 Quinta e sexta-feira passaram lentamente. Por mais que pensasse, no achava um modo de estar com Marcina a no ser nos nossos escondidos encontros. No sabia o 
que faria para ficar com ela. Estava triste e preocupado. No sbado aps ter feito meu trabalho, sentei-me na varanda, aproveitando a tarde para descansar e pensar. 
Estava s e tudo parecia-me silencioso, quando vi meu pai. Papai se mostrava triste, abatido, fisionomia adoentada, estava encostado na parede, com a cabea baixa 
e pensativo. Arrepiei, no me mexi, temendo afastar a viso. A sensao era diferente de quando via minha av e foi nela que pensei e a chamei mentalmente. Logo 
em seguida, senti d. Ana ao meu lado. Vov , qe fao? Papai parece-me to esquisito, adoentado" - indaguei mentalmente.
"Jorge" - senti o sussurro de vov -, "seu pai sofre. Est desorientado sem entender bem o que se passa."
"Por que ele no conversa comigo, vov?"
"Como ningum o v ou lhe fala, acostumou-se a ficar quieto."
"Poderei ajud-lo?" - disse, com vontade de chorar ao v-lo sofrendo. "Poderei fazer algo por ele? Auxilia-me, vov querida."
"Converse com ele."
"Como fao?"

"Chame-o mentalmente e, como se pensasse, fale com ele. Explique que teve o corpo morto e que foi como fazer uma mudana, que necessita entender e aceitar o corpo 
ter morrido. Diz que o ama. Aqui ficarei para ajud-lo."
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
Papai continuava no mesmo lugar, do mesmo jeito: enchime de coragem, e sem mexer um msculo do corpo, chamei-o em pensamento:
"Pai, papai!"
Olhou-me e sorriu. Seu sorriso era triste, mas cheio de carinho.
"Voc me v, meu filho? Fala comigo!"
Lgrimas correram por seu rosto, nunca o tinha visto chorar, ia chorar tambm, mas senti vov.
"Jorge, coragem, para ajud-lo  necessrio todo seu controle, d agora s atrapalha!"

"Abenoe-me, papai. Sinto no t-lo visto antes. Como est?"
"Mau, Jorge, mau. Alm da doena, enlouqueo..."
"Papai, no sabe o senhor que a morte  para todos? Todos vamos morrer, para viver em outro lugar, de outra forma. Somos eternos!"
"Acho Deus injusto comigo. Sempre fui bom, sou bom, honesto, trabalhador, religioso, tenho a conscincia tranqila e sofro assim, desprezado, doente e meio louco."
"No est louco, meu pai."
"Estou, filho, penso que ningum me v,  terrvel."
"Ningum de fato o v."

"Qu?!"
"Papai, o senhor morreu, seu corpo morreu. Observe bem, v como estamos diferentes.  uma alma, um esprito, e eu sou alma num corpo. Somos vivos, s que vestidos 
com corpos diferentes. O senhor no se lembra? Ficou doente, muito doente."
"Sim, lembro. Passei muito mal e uns negros, antigos escravos, me levaram para um local estranho, onde me curaram. Mas a fazenda, todos aqui necessitavam de mim, 
tive que voltar, e voltei."
"Fez mal, meu pai. Quando foi levado a este lugar estranho para o senhor, deveria ter ficado, porque foi quando morreu. Observe as diferenas."
CATIVOS E LIBERTOS
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"Sim,  verdade. Somos diferentes."
Chorou alto.
"Papai, lembra-se de vov Ana, sua me? Chame-a para ajud-lo. Deve partir com ela, e aos poucos entender."
"Mame! Mame!" - disse papai emocionado. " a senhora? Ento o que Jorge disse  verdade! vou, mame, vou com a senhora, necessito da senhora. vou embora, adeus, 
Jorge."
"Adeus, papai. Deus o abenoe."
No mais o vi. Fiquei impressionado e entendi que o que dissera a ele, fora dito por vov, no compreendi bem, orei. Lembrei do Pastor Germano que uma vez nos explicou:
"Jorge, a morte  como o nascimento, no  igual para ningum. Quando a aceitamos, tudo nos  facilitado. A morte do corpo , para todos, um processo natural, ns 
 que complicamos por no compreend-la."
"Se papai estava sofrendo, e Jos?" - lembrei. Senti a resposta:
"Jos est bem, era desapegado dos pertences materiais. Aqui veio, desfrutou, cuidou, mas no se deixou possuir, no ficou escravo da matria, no se ligou a ela."
"Ainda bem!" - suspirei.
Domingo aps a missa, quando chegamos  fazenda, Lencio veio conversar comigo.
- Sinhozinho, descobri onde esto minhas irms e minha me.
- Diz isto assim triste, Lencio? Alegre-se. Como soube? Onde esto?
- H alguns dias, conversei com sr. Miliquias, ficou de se lembrar, hoje l voltei; a conselho de Nrcio, dei dinheiro para que se lembrasse. O malvado disse que 
elas passaram por l e que as vendeu ao Coronel Francisco. Esto com aquele horrvel homem, coitadas!
Abaixou a cabea, estava muito triste e desiludido.
- No  boa notcia, mas no perca a esperana, poder compr-las. O Coronel Francisco no venderia escravos a mim, e
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
j  voc conhecido por aqui. Podemos disfar-lo, vestindo-o como um cavalheiro. Deve ir tentar. Sair daqui  noite e pela manh se apresente a ele, dizendo que 
veio de So Paulo e quer comprar sua famlia. Vestir minhas roupas e farei outra carta de alforria a voc, com outro nome.
- Compr-las, sinh? No tenho dinheiro.
- Darei a voc, emprestarei Lencio, pagar aos poucos, o importante  libertar os seus. Oferea boa quantia a ele, o Coronel Francisco  ambicioso, no deixar 
de fazer bom negcio. Compr-las-, e as levar para a estalagem na sada da vila, fique l uns trs dias, depois, veremos. Poder partir, ir embora livre, e recomear 
a vida em outra parte.
- Queria ficar aqui, sinh, vivermos todos aqui.
- V para a estalagem, aps uns dias, mandarei busc-los.
- Ser que ele me vender as trs?
- Penso que sim. Far boa oferta. Vamos j providenciar tudo. Melhor partir j, passe esta noite na estalagem.
- Obrigado, sinhozinho. Nunca encontrei algum to bom como o sinh. Juro que eu e elas lhe pagaremos tudo, serei fiel e nunca me esquecerei o favor que nos faz.
Surpreendi-me novamente com Lencio, ele pegou-me a mo, beijou-a e suas lgrimas molharam-na.
Ficou muito elegante com terno e chapu de couro, saiu meio escondido e s os guardas na casa-grande o viram. Dei o dinheiro . que me pareceu o suficiente e desejei-lhe 
boa sorte.
Ao partir, orei por ele, pedindo a Deus para tudo dar certo. Ser bom v-lo feliz,  to triste separar-nos de quem amamos.
Da varanda, olhei-o na estrada at sumir, quando Nrcio aproximou-se de mim:
- Sinhozinho, estou preocupado com menina Glorinha, tem andado muito a cavalo por a, ela e a Brbara. Hoje segui-as, foram  Fazenda Assombrada.
De fato, tinha-as visto chegar pouco tempo antes; j h al^gm tempo que Glorinha andava por toda a fazenda com sua ama
CATIVOS E LIBERTOS
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Brbara e sua arma na cintura, acompanhando-a. Mas pelo jeito de Nrcio, estava minha irm fazendo algo escondido; pensei em pedir a ele dizer o que vira, mas preferi 
indagar a minha irm.
- Obrigado, Nrcio, vou falar com ela.
Preocupado, entrei em casa e fui ao quarto dela, abri a porta e entrei. No era nosso costume, nunca entrara no quarto de um irmo, sem bater. Acho que a preocupao 
me fez distrair. Glorinha levou um susto enorme. Estava sentada na cama lendo um papel e o escondeu rpido.
- D-me isto, Glorinha! D-me! - Glorinha olhou-me, assustada e negou com a cabea, eu insisti: - Glorinha me d ou eu o tomo. Vamos, me d este papel.
Tirou debaixo do vestido a folha, agora amarrotada e me deu.
Era uma carta de amor. Algum dizendo que a amava, falava de seus sonhos, e acabava com dois versos apaixonados. Estava assinado s pelo primeiro nome: Joo.
- Joo! - exclamei. - Quem ?
Glorinha continuava muito assustada, tremia e olhava-me com muito medo.
Mentalizei quem poderia ser. Amigos, no, no eram; amigos no esconderiam, no haveria motivos. Empregado? No, no tnhamos empregados com nome de Joo. Escravo?! 
No, s tnhamos Tio que sabia ler e escrever. Que motivo teria para esconder-se? Inimigo? S tnhamos um inimigo. De repente estranhei lembrei de Marcina, no que 
me disse: "Meu irmo Joo, veio para visitar-nos e ficou, no sei porqu!"
- Glorinha! Quem  este Joo que voc esconde? Quem No me responde? No tem coragem? No  o filho do Coronel Francisco? Glorinha afirmou com a cabea, e lgrimas 
correram- pelas faces, torcia as mos; embora nervosa, no chorou alto.
Sentei numa banqueta, senti-me desiludido. Que ser q Deus me reservara? Eu que em sonhos planejei uma vida diferente. 92  VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO 
CARLOS
Sem preparo, me vi chefe de uma famlia, tendo muitas pessoas sob minha responsabilidade. No me sentia em condies para tal chefia. J era chamado por muitos de 
Coronel Castro, como meu pai. ttulo de que no gostava, mas aceitava. Com tantas responsabilidades, que fazer? Apaixonei-me pela filha do nosso inimigo, o mandante 
do assassinato do meu irmo! E agora, como resolver este problema de minha irm caula, de quinze anos, enamorada de outro filho dele? Seria brincadeira de mau gosto 
do Cupido, ou desgnios de Deus que eu no conseguia entender?!
Glorinha olhava-me do mesmo modo, nada disse enquanto pensava. Senti-me cansado, triste e entreguei-lhe a carta:
- Glorinha,  puro seu amor? Quero dizer, no tem conseqncias?
- Juro, Jorge. Joo me ama e respeita-me.
- Ainda bem...
- Jorge, nada fao por mal, no quero aborrecer ningum. Amo-o, amo-o muito. Vi-o naquele domingo na missa, vimo-nos, trocamos um olhar e senti-me fascinada por 
ele, amei-o logo que o vi e ele a mim. Foi como se nos amssemos h tempos, a vida inteira. S pensei nele, esforcei-me por no o fazer, mas no consegui. No outro 
domingo, um menino entregou-me um bilhete, ningum viu e o escondi rpido, ansiei por chegar em casa para l-lo, era dele e marcava um encontro  tarde na nascente 
da Pedra Torta, na Fazenda Assombrada. Fiquei com medo, mas acabei indo e levei Brbara.
- Brbara sabe?
- No a castigue, Jorge, s eu sou culpada. Brbara me ama, faz tudo o que quero. Obriguei-a a se calar.
Glorinha era corajosa, digna, defendeu a escrava. Entendia o porqu de Brbara ter silenciado, as duas eram amigas e estimavam-se bastante.
- No vou castig-la.
- Jorge, entenda-me e ajuda-me. Foi voc mesmo quem me disse que no ia arrumar casamento para mim, que eu deveria fazer isso sozinha.
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- Disse, pensando que escolheria um dos nossos amigos.
- Joo no  nosso inimigo, nada tem com o pai.
- Que pretendem fazer, Glorinha? Quais so seus planos?
- De fugir para So Paulo, de casarmos, de sermos felizes. Nada temos com estas brigas.
- Ama-o com certeza?  isto que quer, sem dvidas?
- Sem ele, morro. Amo-o como a vida!
- Ento vo ter que casar antes de fugir. Ah, isto vo! Nem que seja s eu a assistir a cerimnia.
- Jorge! Ento no  contra?
Glorinha pulou da cama, chegou perto de mim e olhou-me esperanosa. Abracei-a.
- No  o marido que sonhei para voc. Prometi no interferir nas escolhas de vocs. No sei se fao bem, mas no vou impedir. Mame sofrer muito quando souber.
- Jorge, meu irmo, juro que se pudesse, teria evitado. No quero que mame sofra mais, tenho esperanas de que se conformar. Se conhecer Joo, ver como  bom, 
amvel, diferente do pai.
- Glorinha, quantas vezes se encontra com ele na semana?
- Encontramos quase todos os dias.
- Diminua.  perigoso. Nrcio j viu, e j sabe, ir com vocs de agora em diante. Devem planejar tudo, partir com ele, se assim o deseja, porm exijo que se casem. 
S concordo, com esta condio.
- Joo sempre quis casar comigo. Obrigada, Jorge. Obrigada!
- Ah, Glorinha! No me agradea, se pelo menos tivesse a certeza de que procedo certo... No se arrisque, por favor. Se acontecer algo de ruim a voc, morro de remorsos.
- Nada de mal acontecer comigo, Jorge. Age certo,  bom e compreende-me. vou ser feliz com ele. sem ele  que estarei mal, infeliz.
Sa para a varanda aborrecido e preocupado, e l esperando-me, estava Nrcio.
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
- J sei de tudo, Nrcio, Glorinha contou-me.
- Que fez o sinh? -Nada, concordei.
Nrcio olhou-me, assustado, nada disse. Expliquei:
- Eles se amam, Nrcio, no posso impedir. Ela continuar a ir encontrar-se com ele, quero que v junto e vigie. Por enquanto, guarde segredo.
- O sinhozinho tem certeza de que  isto o mais acertado?  perigoso, ele  filho do nosso inimigo, do assassino do sinhozinho Jos.
- Eu sei, Nrcio, eu sei. Que devo fazer? Responda-me. Matar Joo numa emboscada? Proibir Glorinha de v-lo, trancando-a em casa? Poderei impedir de se verem, mas 
no acabar com o amor. Casaro e iro embora.
- O sinhozinho  quem sabe e manda. Farei o que me pede. Mas, se eu fosse o sinh. no deixava, no. Embora Joo seja bom, todos falam que  timo moo, mas na Fazenda 
Morro Vermelho quem manda  o Coronel Francisco e seu filho Lucas. vou ficar de olho, gosto da menina Glorinha e a defenderei com a prpria vida.
- Obrigado, Nrcio, obrigado.
"Ah!" - pensei. "Se Nrcio soubesse que eu tambm amava a filha do inimigo, chamar-me-ia de louco". s vezes, pensava se assim estaria bem, enamorado da filha do 
meu inimigo. Marcina no era linda e sim bonita, simples, uma moa comum, considerada solteirona por estar com vinte e dois anos e no se ter casado. Por este motivo, 
no tivera coragem de proibir minha irm de amar, entendera-a.
Na segunda-feira  tarde Lencio regressou  fazenda, sozinho. Ao v-lo chegar, entendi que no conseguira fazer o negcio, fui receb-lo na varanda. Aproximaram-se 
os homens curiosos e ele explicou-nos, tristemente:
- Sinhozinho Jorge, fiz como combinamos. Estava dando certo. Deixaram-me entrar na fazenda, fui levado ao coronel. Expliquei o que viera fazer, ele afirmou t-las 
realmente e mandou
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busc-las no trabalho. Ah, sinh Jorge! Que emoo rever minha me Tereza, minhas irms Luzia e Maria. Choramos comovidos ao abraar-nos. Tambm, conheci meus trs 
irmos, nascidos na Morro Vermelho, filhos de cruzamentos. Estava a negociar com o coronel o dinheiro que o sinh me deu, ia dar para comprar todos. Estava feliz, 
meu peito parecia estourar. Foi quando um dos homens do Coronel Francisco o chamou, tive um pressentimento ruim. Ao voltar, veio acompanhado com trs capangas e 
mandou minha me e meus irmos voltarem ao trabalho. Esperou que eles sassem e comeou a perguntar tudo novamente com olhar ruim e sorriso cnico.

"Ento o alforriado  da capital? Ganhou todo este dinheiro trabalhando? Pensa que sou bobo, seu negro sujo? Trabalha na Fazenda Sant'Ana,  um dos jagunos dos 
Castros. Nunca venderei escravos a voc e a eles, nunca, entendeu?"
- O Coronel Francisco foi se exaltando, me xingou de todos os nomes feios que existem e finalmente disse:
"S sai daqui vivo para dar um recado ao moleque de fraldas do Castro. Nunca ele comprar escravos meus. Nunca! Agora v! Fora!"
- Tentei explicar, no me deixaram falar, vigiaram-me at a sada da fazenda. Malditos! Por que tamanha maldade?
Lencio entregou-me o dinheiro, chorando, nenhum dos meus homens ousou fazer comentrios, todos compartilhavam da dor dele. Lembrei do que o Pai Toms dissera: "Antes 
ele no soubesse onde estavam".
- No desanime Lencio - disse -, acharemos um jeito de libert-las ou de algum amigo compr-las.
- Sim, sinh, agradeo.
Afastou-se triste. No seria fcil adquiri-las. Por pirraa do Coronel Francisco no as venderia a ningum, desconfiaria de qualquer um que quisesse compr-las; 
seria este um favor delicado e deveria pensar bem antes de fazer este pedido a algum amigo, que se negaria assim evitando mais brigas.
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
Na tera  tarde, Nrcio veio at mim, preocupado:
- Sinhozinho, acabo de saber que o malvado do Coronel Francisco colocou, desde ontem  noite, as trs, Tereza, Luzia e Maria, no tronco.
- Qu?! Repete.
- O Coronel Francisco as colocou no tronco.
- Por qu?
- S porque o sinh queria compr-las. Por Lencio ser seu empregado.
- Faz afronta a mim?! Que  que as coitadas tm com isto? Como soube, Nrcio?
- O sinhozinho me perdoa, no fiz por mal.  que encontro s vezes com Tio, um amigo escravo de l,  como meu irmo. Quando temos algo importante a contar um para 
o outro, fazemos um sinal e nos encontramos no rio, ele pode fazer isto porque serve na casa-grande, vai ao pomar catar lenha.
- Voc, Nrcio, desobedecendo-me, num encontro deste? Podem mat-lo!
- No se aborrea comigo, sinhozinho, sei me cuidar, estes encontros so raros, gosto deles e tenho tanto d, sofrem muito por l. Sinhozinho no conte como ficou 
sabendo,  segredo. Se Joana souber ficar brava comigo e me deixar sem comida.
Se no estivesse to aborrecido com a notcia, daria boa gargalhada. Nrcio e Joana um casal que servia na casa-grande, que se amavam, que ns queramos bem e eles 
a ns, j velhos e tendo encontros escondidos um do outro.
- No digo a ningum, mas prometa ter cuidado, Nrcio, e evite estes encontros. D a notcia na fazenda, no diga como soubemos.
- Tem outra coisa, sinhozinho, andam falando que a fazenda Morro Vermelho est sendo assombrada por Chico. Dizem que muitos o vem, os que tm dom de ver os mortos 
da carne. Falam que  "alma penada", que alguns negros judiam dele. Que est acorrentado e todo machucado com as facas no corpo. O bando
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anda como loucos pela fazenda. Os negros se vingam dele e ele urra com dio de todos os negros. Tio me contou que ele influi no pai para que judie ainda mais dos 
escravos.  uma viso horrvel! Nrcio se benzeu.
-  possvel isto, Nrcio? - indaguei, curioso.
- Como no, sinhozinho! O que plantamos, colhemos,  a lei de Deus. S que estes negros que perseguem o sinh Chico, esto errados, deveriam perdoar como Jesus nos 
ensinou. Mas l na Morro Vermelho os negros no tm religio, o coronel no deixa que aprendam nem sequer a nossa, por tradio. Mas os bons esquecem e perdoam, 
eles sofrem juntos, mas preferem sofrer a se vingar. E. com isto, fazem os escravos da fazenda sofrerem mais ainda.
- Conseguem judiar do Chico? Ele sente dores?
- Judiam, sim, fizeram dele um escravo, perseguem-no mesmo.
- Ele pode influenciar o Coronel Francisco?
- Dois maus se entendem, o Coronel Francisco no escuta o filho com os ouvidos do corpo, mas sente com a alma!
- Que coisa estranha!
- Agem os negros que o perseguem como demnios, igual ao que o padre fala dos garfos e do fogo no Inferno. Sinh Chico fez por merecer.

No consegui dormir naquela noite. O que Nrcio me falara sobre Chico impressionava, no vira eu o meu pai? S que bom. antigos escravos ajudaram-no, assim mesmo 
voltara ao antigo lar. A morte do corpo tinha muitos mistrios para mim, que gostaria de saber. Pensei muito, nas trs no tronco; indiretamente era culpado, fora 
precipitado e ingnuo pensando que no reconheceriam Lencio. Deveria ter pedido a algum coronel, amigo nosso, para adquiri-las. Maltratar escravos era proibido 
por lei. mas seria mais ingnuo ainda acreditar que algum tomaria a defesa delas. Ali. cada senhor ditava suas leis.
Quarta-feira passou lentamente. Fui ansioso me encontrar com Marcina, planejara contar a ela o namoro entre Joo c
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Glorinha. Na fazenda, todos comentavam com tristeza o castigo da me e das irms de Lencio e ele estava triste e calado.
Marcina veio logo aps eu ter chegado, estava com um vu! negro no chapu tampando o rosto. Estranhei, nunca a vira assim. Ao ajud-la a descer do cavalo, assustei:
- Marcina, que aconteceu a voc?!
Marcina estava vestida, s apareciam as mos e o rosto, este estava com hematomas em diversos lugares, lbios inchados, olhos roxos. Tirei o vu e ela olhou-me com 
tristeza e pareceu-me a Marcina de antigamente, um esquilinho assustado. Abracei-a penalizado, senti seu corao bater forte, delicadamente acariciei seus machucados.
- Est machucada tambm pelo corpo?
- Um pouco.
- Por qu Marcina? Quem fez isto?
- Meu pai, ele est louco, Jorge, louco de maldade. Nunca foi bom pai, j surrou-me muitas vezes. Desta vez foi por defender umas negras que colocou no tronco. Pedi 
a ele para no fazer isto e mandou-me calar. Enchi-me de coragem e implorei, nem me respondeu e saiu de perto de mim. Angustiada com o castigo to injusto das trs, 
fui v-las e a elas dei gua. Contaram a meu pai e ele surrou-me para que aprendesse a no interferir em suas ordens. Infelizmente, Joo no estava para defender-me.
No conseguia entender as atitudes desse homem, que era pior do que pensava. Sentamos e ficamos juntinhos. Senti raiva do Coronel Francisco, tive vontade de roubar 
Marcina, lev-la j comigo. Mas no me precipitaria de novo, no deveria morrer ningum pelo nosso amor, e numa briga maior entre ns dois, muito sangue inocente 
se derramaria. Querendo confirmar o motivo do castigo, indaguei:
- Marcina, por que seu pai as castiga?
- S porque voc quis compr-las.
As negras no deveriam ser castigadas para me atingir, e se era por minha causa seus castigos, caberia a mim libert-las.
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- Marcina, diga-me quantos homens seu pai tem? Quantos jagunos? Ficam de guarda na fazenda? Diga-me com detalhes como  a fazenda, os lugares, onde se situa a senzala, 
a casagrande, o celeiro.
- Por que, Jorge?
Mas, antes que eu respondesse, comeou a explicar. Confiava em mim e sentiu que era para algo srio, talvez para roub-la no futuro.
Marcina deu-me a planta toda da fazenda, os lugares de tudo, e eu prestei muita ateno guardando-os na memria. Espantei-me, porm, ao saber que o Coronel Francisco 
tinha poucos homens e que no estava armado como pensava.
- Pensei, Marcina, que seu pai tinha mais jagunos.
- No tem tantos porque meu pai lhes paga mal. Os escravos so presos, no so como os seus que at andam armados, nossos escravos o odeiam.
"Melhor para mim" - pensei -, "tinha quase o triplo de homens armados e de armas que ele. Sua avareza me facilitaria, nos dava vantagens."
- Marcina, no se preocupe, deixe os problemas comigo, vou resolv-los. Procure ficar longe de seu pai e no interfira mais nos assuntos dele, fique de escuta, qualquer 
perigo, avise-me.
Acariciei seu rosto machucado, j soubera de muitos senhores maus, mas bater assim numa filha, nunca soubera.
- Devo ir-me, Jorge, est na hora.
Beijei-a nos lbios machucados; pela primeira vez a beijava.
- Amo-a, Marcina. Quero-a para minha esposa. Casaremos e seremos felizes.
- Obrigado, Jorge, amo-o muito.
Olhei-a, estava agora calma, agradecida e feliz. Pensei: "Como as mulheres deveriam emancipar-se, dar-se o devido valor. Pelo que Marcina era, todos deveriam respeit-la 
e ela agradeceume por respeit-la e am-la".
Beijamo-nos novamente. Tive a certeza de que s com ela me casaria, s com ela seria feliz.
100 VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
Fiquei olhando-a, at virar o atalho e esperei Tio e Samuel virem at mim e voltamos  fazenda.
Mil pensamentos matutavam-me. Ao chegar, disse a Tio:

- Tio, chame Manuel e Nrcio e venham vocs quatro ao meu escritrio.

Entretanto, esqueci-me de contar a Marcina sobre Joo e Glorinha. Captulo VIII 
O RESGATE Enquanto esperava-os, desenhei a Fazenda Morro Vermelho como Marcina a descrevera. Quando os quatro chegaram, fechei a porta e falei:
- Resolvi assaltar Morro Vermelho e resgatar a famlia de Lencio. Quero saber se posso contar com vocs. Todos concordam? Muito bem, ento ajudem-me a planejar, 
tem que ser logo, seno as negras morrem. Esta noite.
Os quatro olhavam-me, curiosos, depois olhavam-se entre si, e Nrcio aventurou-se e deu seu palpite:
- Sinhozinho, no acha perigoso?
- No, Nrcio, no se fizermos tudo bem feito. Escutem: tenho aqui o desenho da Fazenda do Coronel Francisco. Necessito de seis homens para ir comigo. Desceremos 
pelo rio, olhem meu desenho. Neste local passaremos para a fazenda dele, cortaremos a cerca, aps passar a lavoura de caf e chegaremos ao pomar. Um de ns ir at 
o celeiro e por fogo, todos na fazenda correro para apag-lo. Lencio e um outro iro  senzala e pegaro os irmos dele, e eu e mais trs pegaremos as escravas 
no tronco. Voltando pelo mesmo caminho andando bom pedao pelo rio, despistaremos e vo ficar sem saber se subimos ou descemos o rio.
- O sinh esquece o pessoal do coronel, tem ele homens armados l. no acha sete homens muito pouco para esta faanha?
- indagou Manuel, preocupado.
- O Coronel Francisco no tem tantos homens como pensamos. Tem oito jagunos e sete empregados que, na hora do fogo, devero ir apag-lo ou vigiar os escravos que 
o apagaro.
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
- O sinh tem certeza? O coronel deve ter mais homens.
- Manuel, sei do que falo. Pois no tem.
Tio e Samuel confirmaram, Nrcio e Manuel olharam-me, curiosos, mas no perguntaram onde tivera a informao e eu de nada falei. No queria por enquanto que ningum 
mais soubesse do meu amor por Marcina. Continuei:
- Lencio e famlia ficaro escondidos na Fazenda Assombrada, os negros fantasmas no devem fazer mal nenhum a eles, seus irmos em dificuldades. Esconder-se-o 
nas runas da casagrande. Nrcio v l, por favor, e avise Pai Toms. Foi ele quem me mandou dizer que se necessitasse de seu favor podia contar como certo, ele 
nos ajudar. E j leva com voc mantimentos, roupas, cobertas, pois devero ficar muito tempo escondidos. Manuel, algum, aqui na fazenda, conhece bem Morro Vermelho?
- H Loureno, sinh, h quatro anos trabalhou l, tem dio do Coronel Francisco. Sua filha na poca com doze anos, foi estuprada por Chico; quando ele foi reclamar, 
o coronel achou ruim e os expulsou. Jos lhe deu trabalho e veio para c. Sua filha agora casou e vive bem, mas ele guarda muito rancor das humilhaes que sofreu 
l, at bateram nele.
- Podemos confiar nele?
- Ele  bom, nada temos para reclamar dele,  honesto, trabalhador, s no gosto do dio dele. Para mim, quem tem dio no corao,  doente da alma. Acho que pode 
ajudar, se pedirmos para esquecer o seu dio.
- Manuel, escolha dois homens e chame Lencio e Loureno. No quero ningum indo por ordens, diga que necessito deles para algo perigoso e que podem negar se quiserem, 
como voc, Tio, e Samuel. Se no quiserem ir, eu os compreenderei.
- Eu vou.
- Eu tambm.
- E eu e Nrcio, no iremos? - indagou Manuel.
- Ficaro a tomar conta dos cavalos.
- Somos velhos no ? Atrapalharemos - queixou-se Nrcio.
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- No  isto. De fato, teremos que ser rpidos e a caminhada ser difcil. Mas quero-os longe disto. Se algo nos acontecer, devero cuidar da fazenda, devero buscar 
Pedro e cas-lo com Carlota. Dever ele assumir a fazenda e vocs a ajud-lo.
- O sinh no deve se arriscar assim! - disse Nrcio preocupado.
- No me arriscarei, confio no meu plano e no estou disposto a morrer, mas sim continuar a viver. Manuel, v, chame os homens. Nrcio deve ir j  Fazenda Assombrada. 
Diga a Joana que a roupa e os alimentos so para Pai Toms e uns necessitados que ele abriga e no fale a ningum sobre o que vamos fazer.
No esperei muito, e Manuel voltou e com ele Lencio, Loureno, Matias e Cabral. Olhei-os, satisfeito. O grupo estava muito bom. Falei:
-  arriscado o que vamos fazer, no  uma ordem, iro se quiserem - como todos afirmaram que iriam, esclareci: - Vamos esta noite resgatar a famlia de Lencio.
- O sinhozinho Jorge far isto?! - exclamou emocionado Lencio. - Que Deus lhe pague e nos ilumine!
- O Coronel Francisco afrontou-me, castigando-as s porque quisemos compr-las.
- Creio que o Coronel Francisco no espera por essa atitude, ser pego de surpresa, acha o sinhozinho incapaz para isto.
- Por que diz isto, Cabral?
- O Coronel Francisco anda dizendo por a que o sinh  moleque e que tem um bando de homens burros e uns negros fantasiados de homens.
Os outros concordaram, e senti que o coronel falava muito mal de ns, mas nada vindo dele me surpreenderia. S que ele ia ver o que um "moleque de fraldas" faz, 
quando tem inteligncia.
- Loureno, voc conhece a Fazenda Morro Vermelho, no ? Que acha deste desenho?
- Muito bonito, nunca vi nada igual.
- No, o que quero saber,  se  assim mesmo Morro Vermelho.
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS

Loureno olhou bem e deu seus palpites:
- Aqui  maior, o celeiro  mais embaixo, nesta parte o pomar  mais estreito e fcil de se andar, os troncos de castigo ficam mais para c.
Fui acertando o desenho conforme Loureno falava, depois, expliquei meu plano e Lencio lembrou:
- Nrcio sabe despistar os rastros, sinhozinho.
- Nrcio ento ficar para trs e apagar as nossas pegadas. Levaremos cavalos para todos. Neste ponto os largaremos, na volta Tio acompanhar Lencio e os seus 
at a fazenda, nas runas. Os restantes devem voltar para casa. Manuel d ordens para os que ficaro de guardas esta noite, para estarem atentos. Ningum deve ficar 
sabendo o que faremos esta noite e no se deve comentar nem aps. A segurana da famlia de Lencio depende do segredo. Devem dizer que me acompanharam a encontros 
com mulheres e deixaram os cavalos na porteira, digam que  para d. Catarina no saber. Aceito sugestes, palpites.
- Sinh - falou Tio -, cada um de ns poderia levar um rolio com o qual poderemos silenciar, caso algum nos veja, sem entretanto matar.
Rolio era um pedao de pau, lixado, medindo uns 20cm, que eu nem sabia por que os tnhamos. Desde os tempos do meu av que estavam na fazenda, ficavam dependurados 
pelo galpo.
- Boa idia Tio. Um tiro disparado alertar de nossa presena, a salve-se quem puder. Como j disse, vamos em resgate, salvar pessoas e no mat-las, no quero 
mortes. Armados com rolios, s em ltimo caso, usem-no ou a faca, mas para ferir, no para matar. Se todos agirem certo, com cautela, no necessitaremos de usar 
violncia. O Coronel Francisco no espera um ataque, acha-me incapaz e medroso, um moleque que  fraco para ele. Tanto melhor para ns, no desconfiar de nada quando 
vir o fogo no seu celeiro e mandar todos os seus homens para apag-lo ou vigiar os negros a faz-lo.
- Sinh Jorge - disse Loureno -, conheo bem a fazenda, para mim ser fcil ir ao celeiro.
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- De fato, como conhece  mais fcil, ir, preste muita ateno, deve ser bem cuidadoso: coloque fogo na ala sul; no quero que incendeie o celeiro todo. o fogo 
deve ser necessrio para podermos agir. Colocando-o nesta parte, distanciar o pessoal para mais longe do local do resgate e tambm est perto do poo e o fogo dever 
ser apagado com mais facilidade.
- O sinh Jorge pode confiar em mim, farei tudo como manda, com todo o cuidado e com prazer.
- Loureno, esquea mgoas, o passado, no pense em vingana. Se um de ns falhar, todos sofreremos: a Fazenda Sant'Ana, nossas famlias.
- Sirvo o sinh, l fui humilhado, odeio-os, mas sei das minhas responsabilidades. Dou minha palavra que s farei o que me compete e do melhor modo possvel, ningum 
me ver. No arriscarei minha vida. tenho filhos pequenos e somos felizes aqui, graas ao sinh e aos seus. E por nada arriscarei a vida de todos!
- Certo, Loureno, leve somente uma lata pequena de querosene.
Repassamos o plano novamente, estvamos entusiasmados, e cada um sabia o que fazer com segurana, e assim dei a ltima recomendao:
- Ningum deve saber; se por acaso tiver um traidor na fazenda  morte para todos ns. E depois Lencio e famlia correro perigo, se mais pessoas souberem. No 
se esqueam de vestir roupas escuras. Agora vamos.
Todos saram e fui providenciar minha roupa, carreguei mais duas garruchas e escolhi dois punhais para armar-me. Na gaveta em que guardava as armas, bem no fundo, 
na caixa de guarnies estavam os bilhetes que Marcina me mandava e o pedao de broche: peguei-os, apertei-os e beijei-os. Lembrei-me dela toda machucada.
"O Coronel Francisco merece isto!" - resmunguei.
O jantar foi servido, tudo fiz para parecer natural, e aps, como de costume ficamos conversando. Era sempre a hora em que
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
nos reunamos para conversar, falar do passado, eu contava histrias de minhas viagens e acontecimentos no perodo em que estivera na Frana. Senti-me aliviado quando 
mame se despediu para ir dormir e fui com ela, estava ansioso. No meu quarto contava os minutos esperando pelas onze horas, horrio marcado para irmos. Na fazenda, 
calculavam horas pelo tempo e lugar do sol, e  noite, pelas estrelas. Tentei ler, no conseguia concentrar-me, muito antes da hora, j estava pronto. Alguns minutos 
antes das onze horas sa cuidadosamente de casa, andei at a porteira e todos j estavam a esperar-me; sem fazer barulho, montamos nos cavalos e partimos.
Ao nos afastarmos das casas, Manuel orou alto:
- Senhor meu Deus, proteja-nos, dai-nos assistncia de seus anjos e espritos para ajudar-nos - declamou um Pai-Nosso e trs Ave-Marias e todos ns o acompanhamos.
Fiquei a pensar no pedido sincero e simples de Manuel e me lembrei do Pastor Germano e no que ele nos dissera a respeito da orao:
"Jorge, orao  fora, uma fora poderosa se tivermos f, e por ela, devemos pedir s o bem, no s o nosso, mas para todos. Lembre-se sempre de que todos ns somos 
irmos e Deus  Pai de todos, dos bons e dos maus, que so temporariamente doentes, necessitados mais ainda de carinho, de aprendizado. Nunca pea ao Pai algo bom 
a uns e algo mau a outros. Ele nos d o exemplo, deu-nos o sol, a chuva para todos, a bons e maus."

"Ser" - pensei - "que pedindo proteo a ns nesta faanha no estaramos a prejudicar a outros? O fogo no celeiro trazendo prejuzo justificaria a liberdade das 
negras? Ah, meu Deus! Como estou inseguro". As responsabilidades eram muitas e sabia que a responsabilidade em ombros invigilantes os fazem sucumbir. Orei, orei 
com f e pedi ao Pai o melhor para ns todos, para meus companheiros e para eles, os moradores da Morro Vermelho.
A lua era crescente, isto facilitava-nos, no era noite clara e no estava totalmente escura. Nrcio ia na frente, guiando-nos.
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Chegamos ao rio, no local combinado e descemos dos cavalos. Nrcio colocou as mos no meu ombro e com seu jeito carinhoso, falou-me:
- Sinhozinho, se a bno de um homem crente valer, eu lhe dou tudo de bom que tenho. Deus lhe guarde e a todos vocs. Pai Toms disse que os espera e que l ningum 
ir procur-los, ele garante e eu acredito. Boa sorte.
- Obrigado, Nrcio.
Entramos n'agua. O rio no era fundo, havendo um pedao em que a gua chegava-me no peito. A gua estava fria e andamos cautelosos evitando fazer barulho. O rio 
seguia naquele pedao em direo reta, declinando, amos a favor da correnteza e sabamos que para voltar seria mais difcil. Este rio, mais um riacho, aps a ponte 
a uns trs quilmetros, unia-se com outro rio maior. Se fugitivos chegassem a ele e conseguissem uma embarcao, iriam longe. Se meu plano desse certo, tudo levaria 
a crer que os fugitivos haviam descido o rio, em vez de subi-lo e como no os achariam, pensariam que fugiram numa canoa.
Chegamos ao local combinado e samos do rio, subimos um pequeno barranco e entramos nas terras do Coronel Francisco. Com as ferramentas que levvamos, cortamos a 
cerca, resistente e reforada na nossa divisa, passamos o cafezal, cortamos a outra cerca e entramos no pomar. Segundo Marcina. na fazenda havia poucos ces, todos 
vira-latas e inofensivos, porque seu pai no tolerava seus latidos. O coronel dormia pouco e qualquer barulho incomodava-o.
Paramos no meio do pomar, Loureno adiantou-se, levava somente uma latinha com querosene para iniciar o fogo. Aguardamos ansiosos e silenciosos.
"Ah. Marcina!" - pensei. "Est to perto de mim agora, se soubesse que estou nos fundos de sua casa, tremeria de medo. Ser que um dia voltarei aqui para busc-la? 
S em ltimo caso, pois tinha esperana de conseguir pacificamente Marcina para mim, mas no hesitaria em busc-la caso fosse necessrio; sem ela  que no ia ficar, 
amava-a realmente."
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
O pomar era bem cuidado e de onde estvamos as rvores no nos deixavam ver nada alm. Tudo estava silencioso e o tempo que esperamos pareceu-nos horas.
"Fogo! Fogo no celeiro!"

Quando ouvimos gritos, fomos para a parte de cima do pomar, e  medida que avanvamos ouvamos a confuso e a gritaria. Avistamos o ptio onde estavam os troncos, 
como tambm vimos o fogo que me pareceu alto com muita fumaa subindo. Aguardamos Loureno. No esperamos muito, ele chegou e com um sinal indicou que tudo estava 
certo.
Cautelosos samos para cumprir as tarefas planejadas. Loureno ia esperar Lencio, escondido, resguardando-o, enquanto libertava seus irmos da senzala. Tio seguiu-os 
para resguard-los pelo lado de cima. Samuel, Cabral e Matias seguiram em direo ao centro do ptio para libertar as negras. Segui com eles, deveria dar-lhes cobertura.
Como havia previsto, o ptio estava vazio, todos foram para o celeiro tentar apagar o fogo. Chegamos ao ptio sem problemas. As trs estavam imveis. Quando nos 
viram, ficaram assustadas e expliquei baixo:
- Calma, viemos com Lencio, ele foi buscar os irmos na senzala. Vamos libert-las, confiem em ns, somos todos amigos, venham conosco e no faam barulho. Senti 
muito d ao v-las naquele estado de fraqueza, com as roupas rasgadas, com ferimentos pelo rosto e corpo. Estavam presas numa posio incmoda, com os braos para 
cima, atados pelos pulsos, e estes sangravam, feridos. Embora tivesse morado sempre em fazenda, nunca tinha visto um negro no tronco. Quando pequeno, se estvamos 
na vila e algum negro ia ser castigado no tronco, meu pai afastava-nos. Sabia dos castigos que havia, mas saber  uma coisa, ver  outra. Comovi-me muito com seus 
olhares pedindo compaixo, auxlio. Com as facas cortamos as faixas de couro que as prendiam. Dei graas por no ser corrente, o que nos dificultaria para solt-las. 
Pareciam no sentir os braos e notei CATIVOS E LIBERTOS 109que sufocavam os gemidos, estavam to fracas que necessitamos carreg-las. Cada um carregou uma delas, 
a princpio fiquei atrs at atravessarmos o pomar, depois, vendo Matias um tanto cansado, peguei a irm de Lencio e ele foi na frente, verificando estar o caminho 
livre. Atravessamos o cafezal, percebi que a mocinha que carregava estava grvida. Ao chegarmos ao barranco, colocamos no cho e correram em desespero para tomar 
gua.

No houve comentrio, nossos sentimentos eram os mesmos, uma compaixo profunda. Aps tomarem bastante gua, deitaram na terra molhada. Matias tirou umas faixas 
de pano do bolso, que trouxera, imaginando que as utilizaria, e delicadamente foi a elas e enfaixou seus pulsos para pararem de sangrar.
Esperamos alguns minutos e chegaram Tio e Lencio com dois meninos. Emocionado, abraou as trs, e os seis uniram-se chorando. Lencio disse:
- Jonas foi apagar o fogo.
- Ficou! - exclamou Tereza, a me de Lencio, com uma voz to sentida que minha vontade foi de voltar e peg-lo.
Jonas era o mais velho. Lencio dissera que contava com nove anos, os que vieram tinham sete e cinco anos, pareciam mais novos, eram magros, assustados, estavam 
com medo.
Fraca, cansada. Tereza ainda tinha foras para acariciar os filhos, olhava-os com amor e amargurando-se pelo que ficara. Eu que tanto vira minha me sofrer com a 
perda de Jos. entendia o sofrimento dela. Acaso seria Tereza diferente por ser negra? Falei a ela encorajando-a:
- Tereza, tranqilize-se, a vida de vocs vai mudar, ficaro bem escondidos e ningum os achar, sero todos livres agora. Prometo-lhe que logo que for possvel, 
voltaremos e pegaremos Jonas.
Tereza observou-me e sorriu sem abrir os lbios, virou para Lencio e perguntou:
- Quem  ele, filho?
- Meu senhor e amigo, minha me. Ao sinh Jorge devo tudo, minha liberdade e, agora, a liberdade de vocs.
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- Sinh Jorge? O moleque de fraldas? Digo, o sinh me desculpe,  o sinh de Sant'Ana?
-  ele mesmo, minha me.
Sorri, "moleque de fraldas", o coronel s deveria se referir a mim deste modo. Tereza, que estava sentada, esforou para se erguer, pensei que fosse levantar, mas 
ajoelhou-se no cho e disse, chorando:
- Obrigado, meu Deus! Deus lhe pague, sinh Jorge, que o Pai do Alto lhe d vida longa, sade e proteja meu Jonas.
Segurei as lgrimas emocionado e dei-lhe a mo ajudando a se levantar.
- S a Deus devemos agradecer. Sero felizes todos juntos. Como Loureno demora, no devemos esperar mais,  perigoso, deixemo-lo para trs, vamos embora. Um de 
ns leve as armas e as ferramentas e cada um ajude a um deles. Vamos!
Os meninos montaram nos ombros, um em Cabral outro em Matias, e eu apanhei uma das mocinhas, entramos na gua, quando chegou Loureno apressado, vi que seu brao 
esquerdo sangrava, comeamos a andar, indaguei-lhe:
- Preocupou-nos, Loureno. Por que se atrasou?
- Um imprevisto, sinh, um dos empregados me viu, ia dar o alarme, chegou a sacar a arma para atirar em mim, tive que lutar com ele e deixei-o ferido, arrastei-o 
e deixei-o escondido.
- Tem certeza de que s feriu? Ele o viu? Devemos ir mais depressa!
- S o feri, sinh. Estava escuro, no deve ter me visto, se me reconheceu, negarei.
Suspirei preocupado; a, olhei bem para Loureno, estava com o rosto todo negro, ningum diria que era branco, olhando assim, na noite.
- Sinh - disse ele -, passei carvo no rosto, achei melhor, na Morro Vermelho muitos me conhecem, disfarado ningum reconheceria. O homem que feri, achou que eu 
era negro, pois chegou a dizer:
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"Seu negro sujo, mato-o!"
Sorri, Loureno fora inteligente, no poderiam acus-lo e o resgate fora um sucesso.
Loureno, ferido, carregava as armas, e nos revezamos, descansando, ora cada um de ns  que andava sozinho. As mulheres esforavam-se, mas tnhamos que arrast-las. 
A volta pareceu-me lenta e a gua estava muito fria; quando chegamos, o alvio foi geral. Ajudamos as mulheres a montar nos cavalos e partimos, silenciosos. Nrcio 
que j tinha ramos e galhos nas mos, ficou para trs, a p, e comeou a apagar os rastos com perfeio. Queimava umas folhas, com que, segundo ele, at o cheiro 
sumia, nem ces nos achariam. Seguimos at a estrada. Tio e Samuel acompanharam Lencio e sua famlia at a runa e ns seguimos para a fazenda.
- Voc, Loureno - disse a ele -, vem comigo! Vamos pedir a Maria para cuidar do seu brao.
Seguimos, eu e ele, para os fundos e espantei-me por encontr-la acordada, genuflexa, orando.
- Maria, acordada? - indaguei.
- Esta noite, sinhozinho, necessitava de guardar em oraes para as trevas no atrapalharem.
Sorri e ela olhou-me com alegria.
- Orava por ns, hein, Maria? Que fica oculto a voc, negra bondosa?
Sorriu contente, sorria sempre quando Jos chamava-a assim e ele tinha razo, aquela mulher era muito bondosa.
- Maria, cuide do brao de Loureno e... no fale a ningum!
O ferimento fora feito por uma faca, o corte era fundo e grande, Maria comeou rpido a colocar suas ervas, despedi-me deles, dei a volta e entrei em casa. Tirei 
as roupas molhadas colocando-as no cesto para serem lavadas, tomei um conhaque e fui deitar-me. Orei em agradecimento, senti-me feliz, adormeci logo.
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTONIO         CARLOS No outro dia cedo, Tio veio informar-me:
- Deixei-os bem instalados, sinh. Pai Toms esperava-nos com comida quentinha, as crianas e as mulheres comeram com tanta gulodice, estavam com tanta fome, que 
me penalizei! Trocaram de roupas e Pai Toms fez curativos nos ferimentos delas, ele j havia arrumado lugares no cho para eles dormirem. Sabe, sinh, ele arrumou 
certo, um para cada um deles, sendo que Nrcio o havia avisado de que seriam sete e ele arrumou lugar para seis. Deixamos Lencio bem armado como o sinh recomendou 
e Pai Toms mandou dizer que l estaro bem, que ningum vai procur-los por ali. Ele orou fechando o pedao, l s iro pessoas boas.
- Orou fechando o pedao? Que coisa estranha! Acredita nisso?
- Nunca errou em nada do que diz. Se faz orao curando pessoas, pode fazer tambm para ningum ir l. A orao  a mesma e eu acredito, ningum se lembrar de ir 
l. Tambm perguntei baixinho a ele se os fantasmas no os incomodariam e ele respondeu-me: "No, Tio, eles os protegero, so irmos de raa".

- Melhor assim. Tio, diga para os homens ficarem atentos, se o grupo de procura passar rumo s runas, devo ser avisado imediatamente, que todos fiquem preparados.
- Se eles descobrirem Lencio, que far o sinhozinho?

- Toramos para ningum procur-los l, mas se acharem... Se achassem Lencio. onde estava escondido, com as armas
que tinha e bom atirador que era, podia defender-se muito bem. Mas, se o apanhassem, acabariam por saber que fora eu a ajudlos, estaria complicado com a lei. Deveria 
evitar que os achassem, confiar na ajuda de Deus e torcer para que no fossem procur-los l.

Logo aps, Maria veio at a mim e pediu:
- Sinh Jorge, Pai Toms chama-me e preciso ir l, posso?
- Chama-a? Como Maria?
- Pelo pensamento, ele necessita de mim.
- Telepatia! - exclamei.
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- No sei se  isto que o sinh falou, sinto, ele quer que eu v l e agora!
- Pois v, mandarei selar um cavalo, ir mais rpido. Maria foi em seguida, levando sua cesta de ervas e apetrechos. Tudo tranqilo, ningum subira o rio para procur-los. 
 tarde, Maria voltou e veio informar-me.
- Pai Toms precisou de mim para cuidar da irmzinha de Lencio, a Maria, chama-se como eu. Maria. Teve a coitadinha um aborto, passou muito mal, est muito fraca, 
mas agora no corre perigo, deixei-a bem melhor, graas a Deus.
- Quem  o pai, Maria? Um amor?
- Antes fosse,  um dos jagunos do coronel.  gente ruim! Logo todos estaro fortes, Pai Toms cuida deles com carinho, necessitam de comida. Se os visse, sinhozinho, 
no duvidaria que agiu certo.  corajoso e bom!
Sorri; da varanda olhei a fazenda, tudo tranqilo e senti-me satisfeito, no pude deixar de me orgulhar da faanha que fizemos. De termos ido ao Morro Vermelho e 
resgatado a famlia de Lencio. Captulo IX -
ACONTECIMENTOS EM MORRO VERMELHO
Glorinha chegou do seu passeio a galope. Nrcio segurou seu cavalo e ela desmontou na frente da varanda, veio rpida at a mim.
- Jorge, necessito falar com voc.
Estava nervosa, inquieta, segui-a at seu quarto, entrou e fechou a porta.
- Jorge, nem sabe o que aconteceu! Encontrei com Joo e soube que muitas coisas se passaram na Morro Vermelho.  melhor sentar. Assaltaram a fazenda do pai de Joo, 
colocaram fogo no celeiro, libertaram umas negras do tronco e...
- Calma, Glorinha! Fale devagar - disse tentando ser natural e dando a impresso de desconhecer o assunto.
- Est bem, vou contar do comeo. Joo est muito nervoso e triste, no quer ficar mais por aqui, na fazenda do pai, porque acha que o coronel est maluco, doido 
de maldades, tem somente d das irms. Hoje veio encontrar comigo arrasado. Contou-me que, ontem l pela meia-noite, comeou um fogo no celeiro, todos na fazenda 
correram para apag-lo. Ele, o pai, o irmo, os negros da senzala, os empregados, as famlias destes. O fogo aumentou rpido, violento e demoraram para apag-lo, 
queimou quase tudo, foi grande o prejuzo. Quando venceram o fogo, todos estavam exaustos. Joo deu graas a Deus por ningum ter ficado ferido. Disse que o coronel 
ficou furioso com o prejuzo e Lucas comeou a investigar como comeou o fogo, os negros no poderiam
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ser acusados, pois todos estavam trancados na senzala. Porm nada encontrou nas cinzas. Joo se espantou quando seu pai disse:
"Levem os negros de volta  senzala, tranque-os, amanh no trabalharo."
Todos estavam sujos e cansados e seguiram silenciosos para a senzala, trs empregados acompanharam, logo voltou um gritando:
"Coronel, Coronel Francisco, as negras sumiram do tronco!"
O Coronel Francisco deu um grito e correu. Joo, Lucas e os outros correram atrs.
As cordas foram cortadas e as negras desapareceram. O coronel correu para a senzala e Joo disse ter ido atrs, impressionado com o pai. Este pareceu transtornado, 
tinha os olhos vermelhos e inchados pela fumaa e pelo dio. Estava descabelado, bufava e xingava os piores nomes, invocando o demnio para ajudar a ach-las, horrorizando 
a todos com as blasfmias que dizia. Abriu o porto da senzala e procurou os negrinhos, filhos de uma das escravas que estavam no castigo e s encontrou o mais velho, 
que se chamava Jonas.
Glorinha fez uma pausa, engoliu o choro e eu indaguei aflito:
- Conte logo, Glorinha. Por que disse chamava? Que aconteceu?
- Oh, Jorge! Que sogro fui arrumar, coitado de Joo, no merece esta peste por pai. A o coronel pegou o negrinho pelos cabelos e perguntou furioso:
"Onde esto seus irmos? Sua me? Fale, se no lhe bato." Deu uma bofetada no rosto do menino que o sangue brotou de seus lbios. Ningum falava nada, todos estavam 
apavorados pelo medo. Uma negra, se, enchendo de coragem, que ficara na senzala por estar com o p; quebrado e enfaixado, tomou a defesa do menino e disse: /
"Ele no sabe de nada, sinh Coronel, foi com os outros apagar o fogo. Eu estava aqui com as crianas pequenas, quando entrou um negro horroroso, armado e levou 
os meninos."
O coronel olhou a mulher que tremia de medo e perguntou: "Conhece o negro? Sabe se  o tal que quis compr-las?"
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"No conheo, no vi o tal que quis compr-las. Logo que saram daqui, gritamos eu e as crianas avisando, mas ningum ouviu."
Joo acha que ela mentiu, disse ter suspirado aliviado, quando ele arrastou o menino para fora da senzala, para o ptio na frente desta; o coronel pegou uma faca, 
tirou-a da cinta, e enfiou-a no peito do menino que morreu sem nada dizer e nem se mexer. Foi to rpido e ningum esperava que no deu tempo a ningum de acudir. 
Ai, comeou a gargalhar, a xingar todos os negros, e, diante dos olhares horrorizados de todos, ele cortou os braos, as pernas, a cabea do menino, e disse:
"Que fique aqui, sem ningum enterr-lo para dar exemplo,  isto que fao de agora em diante com a famlia dos fugitivos."
Glorinha fez pausa e at engasguei com minha saliva enquanto escutava; estava assombrado, ela continuou:
- Joo disse-me que acompanhou a cena petrificado! Tal como os negros da senzala, s voltou a si, quando um empregado chamou-o:
"Sinhozinho Joo vai ficar a dentro da senzala? vou fechar o porto."
Joo saiu e seu pai pareceu voltar ao normal, indiferente ao que fizera, parecia ter matado uma cobra, um animal nocivo e chamou:
"Vamos  busca deles, no creio que estejam longe, devemos saber que rumo tomaram. Lucas, reparta os homens em trs grupos. Comando um e voc vai pela estrada at 
o rio. Joo, v se faz alguma coisa, monte, imprestvel! (Sempre se refere ao Joo deste modo.) Chefia o outro grupo, segue pelas montanhas, no creio que tenham 
ido para l, mas... Quem achar pistas d o alarme. Qutrio, v pelos fundos. Quitrio! Quitrio! Onde est ele?"'
Ningum sabia dele. Segundo Joo, este tal Quitrio  outro demnio, o jaguno de que o pai mais gostava, seu homem de confiana e to mal como o coronel.
"Que procurem Quitrio!"
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Os empregados saram a cham-lo, alertando sua famlia, que tambm saiu a procur-lo. Encontraram-no morto, perto do celeiro, da parte menos afetada pelo fogo. Morto 
por facadas. O coronel deu ento novo vexame, gritou, xingou, chutou o cadver.

"Seu imprestvel, viu os negros fugirem e nem para dar o alarme! Deixar um negro  toa mat-lo!"
A esposa de Quitrio chegou chorando e o malvado gritou para todos ouvirem:
"Seu marido  um imprestvel e agora no serve para mais nada. No os quero mais aqui. Amanh cedo empresto uma carroa para que o levem daqui para ser enterrado 
e tambm para transportar sua mudana. Devem partir amanh cedo!"

"No faa isto, senhor. Quitrio serviu-o a vida toda. Para onde vou?" - perguntou desesperada a mulher.
"Serviu com a vida, deixou-se morrer e agora no serve para nada! O problema  seu, se no fosse ele to palerma isto no aconteceria. Expulso-os! Que saiam das 
minhas terras amanh cedo e que levem este imprestvel."
Joo disse que ficou pasmado porque Quitrio e o pai eram amigos, tinham o mesmo modo de ser e de pensar.
Separou os grupos de procura, esquecendo-se do morto e gritou para que todos na fazenda o ouvissem:
"Tonho, v avisar o delegado da fuga e do assassinato de Quitrio. Diz que foi um negro sujo, empregado dos Castro com ajuda certamente de alguns escravos de Sant'Ana, 
que vivem soltos como gente."
- Ah, Jorge, que medo! Foi Lencio?
- No, no temos nada com isto. No deve se preocupar. Sem provas, no podem acusar ningum.
- Ainda bem! - continuou Glorinha: - Ele gritava: "Quero-os vivos! Que procurem bem, vasculhem tudo, e que achem. Quero os vivos, para mat-los em torturas. Morrero 
todos aos poucos, sero queimados com ferro quente, tero as unhas, dentes e cabelos arrancados. /Quero cort-los em pedaos e colocar sal
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por cima. E na frente destes meus escravos idiotas, quero que todos vejam na fazenda. Quero-os vivos!"
Os grupos sairam  procura dos fugitivos e logo acharam cercas cortadas perto do rio. Acharam rastos de muitos homens, pelo menos seis e tiveram a certeza de que 
fugiram pelo rio.
Joo teve que participar das buscas e o fez com pouca vontade, temendo encontr-los. O delegado logo cedo chegou  fazenda com seus soldados, e ajuntando-se a Lucas 
e jagunos desceram o rio avisando a todos da fuga dos negros em todas as vilas que circundam o rio. Joo acha que, se desceram o rio, sero apanhados.

Logo que o delegado saiu  procura dos escravos, seu pai mandou dois empregados carregarem uma charrete com a mudana da viva e o cadver de Quitrio; mandou um 
deles acompanh-la at a vila e deix-los por l e voltar logo com a charrete. A mulher e os filhos, cinco pequenos, choravam desconsolados, ela pediu dinheiro ao 
coronel e este negou-se dizendo que nada devia ao morto e sim este a ele. Chorando, ela disse que no tinha para onde ir e ele, j sem pacincia, respondeu que no 
era problema dele.
Escondida, a irm de Joo, Marcina, deu dinheiro a ela; partiram logo, e na hora do almoo, o empregado voltara dizendo que os deixou numa casinha desabitada, na 
estrada que vai para a vila. E o corpo em pedaos do garoto l est, na frente da senzala, os negros no trabalharam, ficaram presos. Diante do espetculo macabro, 
o coronel disse que s  tardinha mandar enterrar o menino.
Joo est to triste, Jorge, ele at chorou ao contar os acontecimentos de seu lar; est exausto, ficou comigo, s o tempo de narrar tudo. Sinto medo, Jorge, muito 
medo. Joo quer marcar um encontro com voc para provar-lhe que sofre muito com as atitudes do pai e muito se envergonha. Quer, com voc, planejar nosso casamento. 
Ele acha melhor ir na frente, depois voc me levar a So Paulo e l casaremos. No confia muito no padre da vila, acha que ele pode falar do casamento, ele tambm 
teme o pai.
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Glorinha comeou a chorar. Passei as mos nos seus cabelos e consolei-a.
- Sogro pior no tem voc jeito de arrumar, nunca ouvi nada parecido. Joo bem que poderia ter sido filho de outro coronel, mas, j que  filho deste, o melhor  
se conformar ou arranjar outro. Joo tem razo em temer o pai, mas no pense que se ele mandar matar outro de ns, que ficarei de braos cruzados. Tudo tenho feito 
em nossa defesa, porm, se ele nos fizer mal, a nem sei Glorinha, ataco a fazenda. Pensamos no melhor e tomaremos todo o cuidado. Acalme-se, seno mame acaba percebendo. 
Por enquanto,  melhor que ignore. Algum mais sabe do que acaba de contar-me?
- Brbara e Nrcio que estavam conosco. Disse a eles que no precisavam guardar segredo, s que no deveriam contar como souberam.
- Preocupo-me com estes seus encontros, irmzinha!
- No vamos nos encontrar durante uma semana, no se preocupe.
-  melhor. Quando se encontrarem, marque para logo nosso encontro, quero mesmo conversar com ele, no quero que corra perigo.
Sa do quarto de Glorinha, triste. O resgate no foi to perfeito como pensava. Tinha morrido um homem e resultou em mais maldades do Coronel Francisco, como a expulso 
de uma famlia e a morte de um menino.
O pessoal voltava do trabalho e conversava formando grupos, comentando o ocorrido, muitos se benziam horrorizados, dando graas por no estarem l. Todos sabero 
em instantes" - pensei. "Ah! Manuel tinha razo em dizer que quem cultiva dio  doente em esprito. No deveria ter levado Loureno, fora novamente imprudente. 
Aproveitou a ocasio para se vingar, deve ter levado mais latas de querosene escondido nas roupas para o fogo ter se alastrado tanto. Foi Quitrio quem pegara sua 
filha para Chico, como tambm quem o surrara a mando do coronel, quando reclamou. Onde encontraram
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o morto, deve ter Loureno descido, voltado ao celeiro para procur-lo e atacado de surpresa. Quis cham-lo, repreend-lo, mand-lo embora, mas seria outra imprudncia, 
seria o mesmo que alertar a todos da nossa faanha, deixar a todos desconfiados. Que motivo teria para despedi-lo? Era bom empregado, dar desculpas no satisfaria 
a curiosidade de todos e melhor seria t-lo agora conosco, na fazenda; poderia dizer besteiras por a e ser preso e contar ao delegado a verdade. A responsabilidade 
maior era minha, desobedeceu-me, aproveitou para se vingar, fora eu, porm, a lev-lo." Estava muito aborrecido, pensei em Tereza, em Lencio, nas outras crianas, 
achei que precisavam saber, chamei Manuel:
- Manuel, sabe o que aconteceu? Estou muito aborrecido, voc tinha razo, no deveria ter levado Loureno, desobedeceume e arriscou muito, matou um homem; agora, 
no falarei nada a ele, os outros podem desconfiar.
- No fique chateado, sinhozinho. Devemos nos entristecer s pelo garoto. Se no fosse assim, seriam trs que morreriam, e foi melhor para ele. Jonas era um anjo 
e deve agora estar bem mais feliz, agora  livre, l sim  que era um coitadinho. A me vai entender, e o fato de o coronel ter matado o menino violentamente foi 
melhor para Jonas. Quanto ao outro, foi um alvio, o sinh no precisa se aborrecer, o homem era mau, peonhento, jaguno de confiana do coronel. Loureno teve 
sorte em mat-lo, deve ter sido pego de surpresa, era o danado bom de briga e tinha boa pontaria, atirava muito bem  distncia. Talvez, Loureno no tivesse agido 
to mal quanto lhe parece. Quanto  mulher com os filhos enxotados  maldade desse coronel e o sinh no tem nada a ver com isto.  exemplo para os outros empregados, 
que agora sabero como ficaro suas famlias se vierem a morrer.
- Manuel, pea ao Tio para ir logo a noite s runas, dar a triste notcia ao Lencio e tambm diga a ele que o coronel pensa que desceram o rio. Pea ao Tio para 
ter cuidado e que ningum deve v-lo!
- Jorge! Jorge! - gritou minha me, vindo ao meu encontro. Manuel afastou-se rpido.
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- Estou aqui. mame.
- Jorge, olhe para mim. Diga-me filho, voc tem algo a ver com este assalto ao Morro Vermelho? Tem? Joana disse-me que suas roupas, as que vestia ontem estavam molhadas 
e sujas. Foi voc, filho? Foi?
- Eu...
Nunca conseguiria mentir para minha me. Quando ela me mandava olhar nos seus olhos e dizer a verdade, acabava fazendo-o.
- Ah, filho, eu sabia! Quando Nrcio me contou, senti que fora voc. Como estou orgulhosa! S que tremo de medo em pensar o perigo que correu. Arriscou sua vida. 
filho!
- No teve perigo mame, foi fcil.
- Que bom! Voc  inteligente e forte. Estou contente, o Coronel Francisco teve seu celeiro queimado e grande foi seu prejuzo. Jorge, mande vigiar bem o nosso, 
aquele rato pode fazer o mesmo com o nosso. Gostei de saber que Quitrio morreu. Seu pai conhecia-o, via-o sempre, era a sombra do coronel, homem horroroso. Sabe, 
filho, sempre achei que tivesse sido ele quem matou meu Jos. Dizem que era excelente atirador, o melhor jaguno do Coronel Francisco. Naquela poca ningum viu 
pessoa desconhecida, ningum de outro lugar, foi algum daqui mesmo e deve ter sido ele. O coronel deve t-lo escolhido para matar Jos, ele era o melhor de seus 
homens. E pelo modo certeiro do tiro e do lugar que atiraram, foi uma pessoa que sabia o que fazia. Tem outra coisa.: promete no rir de mim. filho, algum tempo 
atrs, sonhei com seu pai e lhe perguntei: "Quem. Joaquim, atirou em nosso Jos?" E ele respondeu- me: "Quitrio, o jaguno do Coronel Francisco. Olhei assustado 
para mame, que enxugava uma lgrima, Ele disse isto? No sonho, ele disse que fora Quitrio? Disse, lembro bem. ia perguntar-lhe mais coisas, mas ele foi embora, 
triste. Acho que era porque o danado estava solto. Se foi ele, teve seu castigo e, se no foi, fez muitas e mereceu o qu recebeu esta noite. Jorge, onde escondeu 
os negros? - indagou! baixinho. 122 VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS Na Fazenda Assombrada, nas runas, mas, por favor, mame, no conte a ningum.
- Que idia boa! Ningum vai l h anos, todos temem aquele lugar assombrado, ningum pensar que se esconderam l. E muito inteligente e esperto, meu filho, sinto 
orgulho de voc,  um Castro e Alves!
Pela primeira vez, desde a morte de Jos, vi minha me sorrir como antigamente, ela deu-me um estalado beijo no rosto e entrou em casa, deixando-me sozinho novamente 
na varanda.
Passei a mo no rosto, amava os meus, amava demais minha me e, ao v-la mais animada, senti-me melhor e ela poderia ter razo. Se o Coronel Francisco mandou matar 
Jos, s pode ter sido algum que era bom atirador! No era difcil para Quitrio ter ficado dias esperando uma oportunidade. Deveriam saber que meu irmo sempre 
ia ver o cafezal por aqueles lados. A oferta que fiz era muito tentadora e ningum apareceu, dando a entender que fora uma s pessoa mais o mandante. Quitrio encaixava-se 
como o assassino e, com o sonho de mame, eu tinha a certeza. Sabia que meu pai estava, na ocasio, vagando por ali e bem podia ter visto o assassinato, sem nada 
ter conseguido fazer para evitar, e dissera  mame, enquanto ela dormia. Chamei Manuel novamente:
- Manuel dobre a guarda, deixa uns trs homens vigiando nosso celeiro.
- Sim, sinh - disse sorrindo e tratou de cumprir as ordens. No outro dia logo cedo. tomvamos o desjejum, Manuel
veio chamar-me:
- Sinh Jorge, o delegado e seus soldados entraram em Sant'Ana, passaram a porteira.
- Vamos esper-los.
Levantei, foi at mame e disse-lhe baixinho:
- No demonstre qualquer nervosismo.
- Claro, Jorge, sou uma Castro e Alves, filha do finado Coronel Correia, sei comportar-me  altura, s quero saber o que ele quer e quero estar ao seu lado, filho! 
Ficamos na varanda, o delegado parou em frente e cumprimentou:
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- Bom-dia, Coronel Castro, bom-dia, d. Catarina. Bom-dia - respondi secamente e tranqilamente, olhando-o com indiferena.
- O senhor soube da fuga dos negros da Morro Vermelho, no soube, Coronel? Todas as vilas ribeirinhas foram avisadas. O Coronel Francisco prometeu bom prmio pela 
captura. At agora, no sabemos deles. O senhor entende, tenho que cumprir meu dever, so vizinhos, os negros podem ter se escondido por a e tenho que dar uma busca 
em suas terras.

Fiquei impassvel olhando-o, e o delegado, meio inquieto, fez uma pausa e continuou:
- Embora no tendo provas, suspeitamos de um de seus empregados, um negro chamado Lencio.
- Ex, ex-empregado, o senhor quer dizer. Despediu-se e foi embora.
- No sabe para onde?
- Era um empregado, sr. delegado, negro alforriado, quis ir embora, paguei o que lhe devia e no me interessei para onde ia.
- H dias, ele foi ao Morro Vermelho querendo comprar a me e as irms com muito dinheiro.
- Verdade? Ignorava, afirmo, se tinha dinheiro, era porque  trabalhador. Nada tenho a ver com as atitudes dele, sei o que acontece nas minhas terras, mas meus empregados 
cuidam cada qual de sua vida.
- Sim, claro. Mas ele deve ter tido ajuda, o senhor sabe, no deve ter feito tudo sozinho.
- No, no sei. No soube os detalhes e nem me interesso por saber, no  assunto meu. Espero que o senhor no esteja insinuando que o negro Lencio recebeu ajuda 
daqui!

Meus homens se ajuntaram, todos bem armados, mais que o dobro dos homens do delegado e ficaram parados como se esperassem uma ordem minha. O delegado pareceu-me 
nervoso.
- No, senhor, nem imaginei. Melhor assim. No me intrometo na vida de ningum, nem gosto que se intrometam na minha. Sei dos homens e aqui
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS ningum ajudou a ningum em fuga nenhuma. Faa seu trabalho, delegado, tem minha autorizao para procurar pelas 
minhas terras, como tambm pode indagar de meus homens, quase todos esto a.
- Algum viu os negros que fugiram da Morro Vermelho? Sabem deles? Ningum respondeu, somente negaram balanando a cabea.
- Ento, Coronel, vou procur-los, com sua licena. Afirmei com a cabea e dei a ordem:
- Manuel, Nrcio, acompanhem o delegado - o dr. Toms nada disse, seu rosto fechou-se de raiva e conclu, calmamente: Se quiser revistar a casa-grande, pode comear 
por aqui.

Olhei-o desafiando e sorri, debochando.
- No  preciso - respondeu secamente. Quando saram, chamei Tio.
- Tio, deu a notcia da morte de Jonas  Tereza? Como aceitaram?
- Dei sim, sinh. Ningum chorou, parecia que esperavam algo assim. Tereza disse somente:
"Jonas morreu rpido, no sofreu, meu medo era que o coronel o matasse no tronco. Morto, no sofre mais, entre ns muito sofreu, agora viver melhor e de onde estiver 
olhar por ns. Como tenho sofrido, Tio ter deixado Jonas l, foi um martrio to grande como o tronco,  melhor saber que est morto. Obrigado por ter vindo nos 
dar esta notcia, sinto-me melhor agora. Vamos orar por ele. Lembrei, sinhozinho, de minha me e, vendo os irmozinhos de Lencio, lembrei de quando criana e dos 
meus irmos. Senti muita pena deles, tomara que tudo se acalme e que possam ir embora. Acha o sinh que o delegado ir dar buscas na Fazenda Assombrada?
- Creio que no. Pelo que contam, teme ele os fantasmas; peo a Deus que no, enquanto no forem embora no estarei tranqilo. De longe fiquem voc e Samuel seguindo 
os passos deles, quero estar informado de onde iro. Quando acabar as buscas,
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ajudarei Lencio e famlia a irem para longe, para a Corte ou para So Paulo. Farei cartas de alforria a todos. Podemos disfar-los e sairo  noite.
- Lencio queria ficar por aqui.
- No vai ser possvel, o melhor  irem embora.
O dia todo, tive notcias dos passos do delegado e seus soldados. Procuraram em volta do rio, buscaram rastros e, como espervamos, nada acharam. Passaram pelo cafezal, 
perguntaram aos escravos, foram at o Barranco das Antas onde Jos foi morto, andaram pelos pastos e  tarde voltaram  sede, cansados e suados. Era costume nessas 
buscas os fazendeiros oferecerem refrescos e alimentos  comitiva. Meu pai, embora no gostasse destas perseguies, fazia sempre isto, mas eu no fiz. Com a mesma 
tranqilidade, cheguei  varanda, mame acompanhou-me:
- Ento, sr. delegado, achou-os?
- No, nada. No estiveram por aqui.
- Claro que no. Nada acontece nas minhas terras sem que eu saiba, sem minhas ordens.
- Foi um dia cansativo, o sol est quente...
Nada respondi, fez um intervalo e vendo que no ia ser convidado, despediu-se:
- Obrigado, Coronel Castro e tenham uma boa-noite.
- Boa-noite a vocs tambm e que achem os negros! Manuel, Nrcio, acompanhem-os at a porteira e deixem-na trancada.
Saiu furioso. Mandar que os acompanhassem at a sada, era como se certificar de que realmente saram da fazenda e mandar trancar a porteira era ter a certeza de 
que no voltariam.
Mame riu:
- Jorge,  isto mesmo! Este delegado sabe agora quem manda aqui e que no temos medo dele.
- Mame, ele representa a lei, muito mal, mas representa. No o tratei mal para mostrar minha autoridade, somente por no gostar dele. No nos consta que no assassinato 
do Jos, ele tenha sado para investigar, nem mesmo no local do crime esteve. Ele  daquelas pessoas para quem a lei deve ser cumprida para os
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pobres. Com os ricos e importantes no gosta de mexer. No ia, s por cortesia, oferecer um lanche a eles, perseguidores dos pobres coitados escravos, que nem tm 
como se defender.
- Teve o que mereceu! - disse mame toda orgulhosa. Esperei por Nrcio e Manuel que voltaram rindo:
- Sinhozinho Jorge, o homem nada disse, mas foi embora furioso.
- Olharam tudo por a?
- No s olhou como fiscalizou a margem toda do rio, perguntando a todos os que encontrava se no viram os fujes. Eles acham mesmo que desceram o rio. E nem passou 
a eles, ir  Fazenda Assombrada.
No domingo fomos como sempre  missa. O Coronel Francisco, todo arrogante, l estava, parecia estar muito orgulhoso de ter matado o negrinho, orou como sempre. Lucas 
e Joo acompanharam-no. Marcina no fora, calculei que deveria estar com sinais da surra que levara do pai e no devia ter querido ir. Aps o ato religioso, as rodas 
se formaram e o assunto era um s, a fuga dos escravos da Morro Vermelho. Perguntaram-me curiosos:
- Como vizinho o que nos diz, Jorge, da fuga dos negros?
- Somos vizinhos separados como todos sabem. Nada sei dessa fuga.
- Dizem ter sido um ex-empregado seu.
- Comentam somente, no tm provas. Duvido que tenha sido ele. Despediu-se dias antes e no soube mais dele. O delegado e comitiva deram buscas por toda a fazenda 
e nada encontraram.
- Sabemos que nada encontraram.
- Claro, no dou abrigo a negros fujes e, se os tivesse visto, os denunciaria.
- Para mim, desceram o rio. Que acha Jorge?
- No sei, meus negros no fogem e no me preocupo com este assunto.
Evitei falar, respondi a todas as indagaes feitas diretamente com tranqilidade. No horrio de costume voltamos para a fazenda.
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Na carruagem, Glorinha desabafou:
- Que chato, s falaram da fuga dos negros! Olhei para mame e ela me tranqilizou:
- S ouvi, nada falei.
Mudamos o assunto para o texto lido do Evangelho, da Parbola do Semeador.
- No vejo o significado desta histria - disse Carlota. -  to estranha, compara-nos com terrenos.
- Somos como a terra, ela tem que ser boa para plantar, se no for, nada d. No sei por que Jesus, era ele o Semeador, no era? Semeou em toda parte - falou Glorinha.
Interferi:
- Jesus  de fato o prprio Semeador, ele ensinou sem distino e o Evangelho a est para todos os tipos de almas, em muitos lugares, acredito que no futuro em 
toda a Terra. No , Carlota, a semente material que foi semeada com os ensinos do Mestre Jesus, e sim, a semente espiritual. Os tipos de terrenos so os tipos de 
pessoas que habitam a Terra e cada um  livre para fazer de sua alma o tipo de terreno que Jesus demonstrou to sabiamente nesta parbola. Podemos calcular vinte 
e cinco por cento para cada tipo: no  negado o ensino da palavra Divina a ningum. Pensamos, com o nosso egosmo, que as pessoas comparadas com as estradas, os 
piedosos, no a merecem. No  assim, o Pai d o calor do sol a todos. Somos livres para aceitar, ou no, e para modificar nosso modo de viver, mudar o terreno. 
Ao querer progredir, ter boa terra,  necessrio arrancar as pedras da indiferena, do egosmo, os espinhos dos vcios, dos nossos defeitos. Limparmos, como se limpa 
a terra para o plantio. Quero ser bom terreno, almejo ser boa terra e dar frutos. Pergunto sempre a mim mesmo, se sou bom terreno. No  fcil, necessitamos de coragem, 
esforo, vontade e trabalho. Porque no basta escutar os ensinos evanglicos, como as sementes entre as pedras,  preciso aceitlos, compreend-los, am-los e viv-los 
no dia a dia e fazer frutificar com as boas obras. E nem todos do frutos iguais como Jesus disse, um dar trinta, outro sessenta e outro cem por um, dependendo 
de nossa boa vontade e esforo.
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- Que bonito, Jorge! - exclamou mame emocionada. - Onde aprendeu tudo isto?
- Lendo o Evangelho, mame.
- Voc o leu? L? - quis saber, curiosa, Glorinha.
- Sim, li e leio, sempre e gosto muito.
- Gostaria de l-lo - falou minha irm caula.
- Os padres no recomendam, como deveriam, a leitura da Bblia, do Evangelho;  to bonito, ensina-nos tanto! Por que no nos reunirmos um dia na semana para ler, 
comentar e orar juntos?
- Boa idia! - exclamou Glorinha entusiasmada.
- Podemos comear hoje  noite, aps o jantar. Domingo  dia consagrado ao Senhor, prprio para orar - opinou mame.
- Concordo, pode ser hoje. No acha, mame, que todos os dias so do Senhor e que devemos consagrar todos os minutos de nossa vida a Ele?
- Ficar orando o dia todo. meu filho?
- No, mame, no orando, recitando preces, mas sim, tendo a conscincia tranqila, sendo bons, adorando o Pai atravs do prximo.
- E muito bonito o que diz, Jorge - disse Carlota. - Vendo hoje o Coronel Francisco orando na missa, estou pensando: "Que terreno  sua alma?"
- Carlota - disse-lhe -, no devemos nos preocupar qual terreno  o do nosso prximo e, sim. com o que somos e no que devemos melhorar. Julgar o Coronel Francisco 
 ver um cisco nos olhos alheios e no ver uma trave no nosso.
- Agradecemos a Deus por no sermos como ele - replicou minha me. - Quando morrer, ir direto ao Inferno!
- No devemos pensar assim. Deus, como Pai, ama a todos e quer que sejamos bons, porm, deixou-nos livres para sermos, ou no. Agradeamos, sim, a oportunidade de 
nos educarmos.
- No pensa, Jorge, que o Coronel Francisco ir para o Inferno? Se ele confessar antes de morrer e for perdoado, no receber nenhum castigo? Pode ir para o Cu 
junto com os
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justos? - perguntou indignada Laurinda, que, at ento, nada dissera, s escutava.
- Acho que para sermos perdoados, Laurinda, necessitamos de estar arrependidos com sinceridade e no s pedir perdo da boca para fora. Mesmo arrependidos, acredito 
que erros, pecados, so dvidas que contramos e. para nosso prprio bem, devem ser quitadas. No se planta espinhos para colher uvas, s com o arrependimento no 
nos transformamos, mas sim com a reparao, com o trabalho. Podemos ser o terreno com espinhos, porm, se o quisermos e tivermos coragem de arranc-los, preparar 
a terra, seremos bons terrenos. O Coronel Francisco no planta, ao nosso entender, algo de bom, chegar o tempo da colheita, e queira, ou no, ter de colher o que 
plantou. Devemos preocupar-nos, Laurinda,  conosco, em plantar o bem com amor. Deixemos o Coronel Francisco com seus atos, devemos, sim, orar por ele, para que 
melhore.
- Eu  que no fao isto! - disse Carlota.
- As aes dele ferem a muitos, Carlota. Tantas pessoas sofrem por ele ser mau!
- Ser, Jorge, que estes que sofrem na Morro Vermelho, colhem a m semente que plantaram?
- Acho que sim, Glorinha.
- Jorge, para modificar-nos no  fcil. Se sou um terreno de espinhos e quiser modificar-me, sofreria em arranc-los, pois muito trabalho teria para limp-lo. Sangraria 
minhas mos, meus ps - concluiu Glorinha.
- Tambm penso assim, minha irm. No existe transformao se no quisermos, sem sacrifcios e vontade. Despertamos para as verdades ou pelo amor ou pela dor, somos 
livres.
Naquela noite, comeamos a reunir-nos, comecei a ler o Evangelho desde o comeo. Li um texto, comentamos, aps orarmos um Pai-Nosso em agradecimento; e fizemos destas 
reunies um hbito familiar, um encontro carinhoso nas noites de domingo.
- CaptuloX  ENCONTROS Na quarta-feira fui ao encontro de Marcina, esperei, esperei, e ela no veio. Pensei que talvez estivesse proibida de sair, j que Chico fora 
morto por fugitivos. Voltei aborrecido.
No domingo, no foi  missa novamente.
Vigivamos disfaradamente a estrada desde que recebera as armas. No domingo  tarde, Juvenal um dos guardas, veio me contar que novamente o sr. Amncio fora  Fazenda 
Morro Vermelho. Era a segunda vez naquela semana que ia l, senti muito cime. Se ele estava interessado em Marcina, deveria ser por sua causa que ia l; no eram 
normais suas visitas e fiquei mais preocupado ainda.
As buscas continuavam; no voltaram mais  Sant'Ana nem foram  Fazenda Assombrada e a opinio de todos era de que haviam descido o rio, tranqilizando-me sobre 
este assunto, mas inquietando-me mais sobre Marcina.
"Ser que o coronel quer cas-los?" - indagava-me a todo instante. "Ser que obrigar Marcina a ficar noiva desse homem?"
A noite chegou e nos reunimos para a leitura do Evangelho, li um texto do Sermo da Montanha, de Mateus, "Os Bem-aventurados". Tranqilizei-me com os maravilhosos 
ensinos contidos nessa narrativa. Aps, sem sono, fui para a varanda; mame e as meninas retiraram-se aos seus aposentos.
Olhava a noite distrado, pensando nos ensinos de Jesus.
- Jorge!
Assustei. Era Laurinda que, silenciosamente, chegara  varanda. CATIVOS LIBERTOS 131
-Hum!
- Estou sem sono. Posso ficar aqui com voc?
Queria mesmo era ficar sozinho, mas no quis ser indelicado com minha cunhada.
- Sim, claro. Est saudosa?
- Sim, lembro-me muito do passado, dos muitos acontecimentos, do nosso compromisso, do tempo que o esperei. Todos achavam que no voltaria solteiro, estaria fora 
por muito tempo.
Olhei diretamente para Laurinda, ela abaixou a cabea encabulada. Ainda no sabia o que havia acontecido, pois no me explicaram; com tantos transtornos, no me 
interessei em saber, depois no queria magoar mame com esse assunto. O fato  que me julgava noivo e encontrei minha prometida casada com meu irmo. Naquele momento 
quis saber e j que Laurinda tocara no assunto, indaguei curioso:
- Conta-me, Laurinda, o que se passou na minha ausncia? Por que no me esperou?
- Dois anos aps voc ter partido, Jos comeou a cortejarme. Senti-me repartida, estvamos sempre juntos, em festas, minha famlia em visita aos seus, e a sua, 
em minha casa. Conversvamos muito. Era to jovem quando me prometeram a voc, depois, nunca namoramos ou conversamos sobre o assunto. Achava, como todos, que voc 
me esqueceria na Frana distante. Sem me consultar, mesmo sem eu saber, seu pai conversou com o meu e acertaram nosso casamento, at mesmo a data. Senti-me abalada 
e assustada, nem sabia o que queria e eles resolveram por mim. Reclamei ao meu pai e levei um tapa no rosto; falou-me exaltado:
"Que  isto? D esperanas ao rapaz, est sempre conversando com ele e diz no saber o que quer?! Eu e Joaquim achamos que estavam apaixonados. Com Jorge longe e 
sabe-se l quando volta, resolvemos casar voc com Jos. Assim est decidido e assim ser."
Fiquei desorientada, quis me comunicar com voc e no sabia como, temi at que j estivesse comprometido. Enchi-me de
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coragem e falei ao Jos. Ele se entristeceu, confessou amar-me muito, mesmo assim, prometeu ajudar-me. No sabamos o que fazer, Jos sempre obedeceu a seu pai e 
eu ao meu. Com tudo preparado, casamos!
- Foram felizes? - indaguei sentido.
- Jos amava-me muito; sabia, porm, que eu pensava muito em voc, embora sentisse muito carinho por ele; depois no lhe dei filhos. J havamos decidido que, se 
voc ficasse na fazenda, iramos morar na cidade. A notcia de sua volta, deixou-nos inseguros.
Suspirei tristemente. Jos era para mim especial, nunca vira ningum mais bondoso, inocente e puro como ele. Amava-o e respeitava-o, embora fosse mais novo que eu, 
sempre, desde criana, obedecia-o, sentia-o mais maduro, mais responsvel. Se tivesse oportunidade, teria dito a ele que no me importava de ele ter casado com Laurinda, 
que queria mesmo  que fossem muito felizes. Nem tempo para isso tive. E saber que no foi feliz e a causa fora eu, senti-me abalado, muito triste. Assustei-me novamente 
quando Laurinda falou:
- Jorge, voc no voltou casado, no parece interessado em nenhuma mulher, voltou para casar comigo, no foi? Agora nada impede-nos de ficarmos juntos, sua me me 
adora e...
- Qu?!
Fez-se um silncio desagradvel, Laurinda encabulada mais ainda, torcia as mos nervosa e eu no consegui ocultar meu assombro, levei um choque ao escut-la. Nem 
prestava ateno em Laurinda, convivia com ela como uma pessoa da famlia, uma cunhada e nem me passou pela cabea suas pretenses, nem acabara o perodo de luto, 
nem um ano fazia da morte do meu irmo, procurei acalmar-me e fui claro:
- Sinto, Laurinda. Sinto muito Jos no ter sido feliz e ter sido por minha causa. Voc deveria ter pensado nisso antes de aceitar o cortejo dele, de t-lo feito 
se apaixonar. Voltei pensando em casar-me com voc, sim. mas no me importei em v-la casada, porque de corao os queria felizes. Entristeo-me com tudo.
CATIVOS E LIBERTOS
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No pretendo ligar-me a voc; se dei a entender isto, perdoe-me, no foi esta a minha inteno. Quanto a interessar-me por outra, amo algum, amo muito.
Escutei a respirao forte de Laurinda, ela indagou-me:
- Quem Jorge? Ama a quem?

Olhei-a, vi que tremia, nada respondi, entendeu que deveria ser um amor secreto. Aps uma longa pausa, mais controlada Laurinda falou:
- Desculpe-me, Jorge, no deveria ter pensado que voc... Estou envergonhada, parto, volto para a casa de meu pai.
-  melhor, Laurinda. Quero-a bem, como uma irm, uma cunhada.
- Cuidado com esse amor, Jorge, pode lev-lo  morte. Saiu, deixando-me sozinho. Senti um leve mal-estar. Ser
que desconfiava? Ser que Laurinda percebera algo? No, deve pensar que um amor escondido seria perigoso.
"Ah, meu Deus! Mais esta!" - resmunguei, sentando-me numa cadeira.
Fiquei pensando no que Laurinda me dissera, senti-me inquieto e muito aborrecido. Lembrei-me do rosto de Jos, morto no meu colo, e lgrimas vieram aos meus olhos.
"Jos! Jos! Perdoa-me meu irmo, por nada neste mundo o faria sofrer, nem que sua escolhida fosse a minha Marcina."
Vi uma luz na minha frente, olhei com firmeza e vi Jos envolto de uma claridade suave e lindssima. Pareceu-me mais belo, mais alto, olhava-o fascinado e com esforo 
consegui dizer:
"Jos! Jos!"
Ele sorriu, alegre, esperei que fosse falar comigo, mas a viso foi se desfazendo, ele desapareceu. Senti que ele me amava e que ningum tivera culpa, nem Laurinda 
que to jovem ainda fora prometida a algum que se ausentara, que nem sequer sabia se era querida e fora obrigada a casar desconhecendo seus sentimentos. Nem ele, 
Jos, que se apaixonara pela minha prometida, nem eu que ignorava tudo. Senti nimo, com a certeza de ser ouvido por ele, e disse:
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS

"Obrigado, meu irmo, obrigado. Pelo seu sorriso,  mais feliz que eu!"
Sentindo-me bem, fui deitar, orei e dormi logo.
No outro dia, Glorinha que se encontrara com Joo no domingo  tarde, disse-me que marcara um encontro para ns dois, na tera  tarde.
Na hora marcada, fomos. Ela foi comigo. A Fazenda Assombrada, era mais uma vez palco de encontros secretos. Embora com muito mato e abandonada, era bonita, tinha 
recantos encantadores. Encontramo-nos perto de uma nascente, embaixo de umas rvores frondosas. Minha irm apresentou-nos, e no incio ficamos encabulados para, 
logo aps, conversarmos amigavelmente. Joo era parecido com Marcina, inteligente, simples, educado, agradvel e senti que realmente amava minha irm.
- Jorge - disse-me -, amo Glorinha e desejo casar com ela o mais depressa possvel, agradeo seu apoio e no se arrepender por ter consentido. Volto a trabalhar 
com meu tio em So Paulo e l fixarei nossa residncia.
- Joo  melhor voc ir na frente, dou uns dois meses para que organize tudo, depois, levo Glorinha at voc e deixo-os casados.
- Nem sei como lhe agradecer.
Joo fora determinado. Se eu no consentisse com o casamento, fugiriam com certeza, porque conhecendo minha irm, sabia que ela o seguiria para qualquer lugar. Achava-o 
talvez um tanto fraco, no enfrentando o pai. Mas os filhos naquele tempo obedeciam e respeitavam muito os pais e estes mandavam at a morte. Como percebesse o que 
pensava, Joo disse calmamente:
- Jorge, gosto de terra, de fazenda, aqui, porm, no  meu lugar. Morei muito tempo com meus tios porque nunca aceitei o proceder de meu pai. Vim visitar minhas 
irms, conheci Glorinha e fui ficando. Lastimo as atitudes de meu pai, no tenho como interferir, de impedi-lo, s se o matasse. Prefiro ir embora. O que prometo 
a voc  que farei Glorinha feliz!
CATIVOS E LIBERTOS
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Combinamos os detalhes. Ele partiria dentro de um ms e aguardaria a mim e a Glorinha. Despedimo-nos. No caminho de volta, fiquei pensando se ele tinha dinheiro 
para montar a casa e para o sustento deles. No queria ofend-lo oferecendo dinheiro. Levaria na viagem, se notasse que necessitavam, f-lo-ia aceitar. Pensei tambm 
em mame, dificilmente iria compreender, no era conveniente falar antes, poderia dizer a todos. Teria que contar s nas vsperas de nossa partida.
Na hora do jantar, ao sentarmos  mesa, mame queixou-se:
- Jorge, Laurinda quer voltar para a casa de seus pais. Por favor, convena-a a ficar.
-  srio? Laurinda quer voltar a morar com seus pais? indagou Carlota.
- Sim, quero,  o melhor. Gosto daqui, de todos, porm a casa dos meus pais  que  a minha, l  o meu lugar, minha me est um pouco adoentada, necessita de mim.
- Acho que est certa, Laurinda - disse-lhe. - Voc  livre, porm, deve cuidar de sua me. Aqui sempre ser seu lar tambm, por isso volte quando quiser.
- Jorge, meu filho, no a impedir? - falou indignada mame, que amava muito Laurinda e que tambm deixava claro que tinha intenes de ver-nos casados.
- No sejamos egostas, mame. Laurinda deve retornar ao lar paterno e recomear sua vida. Quando parte?
- Amanh, ou depois.
- Mame, porque no acompanha Laurinda e passa l uns dias? Poderiam ir na quinta-feira cedinho, meus homens as acompanharo.
- Venha comigo d. Catarina, passe uns dias l conosco, se- ; ria to bom!
- J que  assim que quer, acompanho-a. Prometa, querida, vir sempre visitar-nos. Laurinda estava encabulada comigo, evitava olhar-me. Era to jovem, bonita, tinha 
o direito de refazer sua vida, casar 136 VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS novamente e longe, acabaria por esquecer-me. Em nossa casa. seria sempre 
a viva do Jos e no era justo. Com mame acompanhando-a, a partida seria suavizada e minha me se distrairia com o passeio.
Esperei ansioso a tarde de quarta e fui, antes do horrio, encontrar com Marcina. Esperei em vo, j era tarde quando regressei. Sofria, estava inquieto sem saber 
o que estava acontecendo com ela e o porqu de ela no vir. Aps o jantar, retirei-me para meu quarto, alegando estar com dor de cabea.
Peguei o broche e sem muito pensar, escrevi um bilhete com poucos dizeres, simples, rogando que viesse ao meu encontro no sbado, no mesmo horrio e local. Fui ao 
quarto de Glorinha e bati, ela logo abriu a porta e fui indagando. Glorinha, quando encontrar novamente com Joo?
- Amanh  tarde, por que Jorge?  Quero que me faa um favor. D isto ao Joo e lhe pea para entregar a Marcina.
Dei-lhe o envelope fechado. Glorinha observou-o, depois olhou-me curiosa:  Que  isto Jorge? Que significa este envelope para ser entregue a Marcina? i
- vou lhe contar.
Contei tudo a ela e me senti bem melhor, desabafado, ansiava por confiar em algum, repartir esses problemas com algum. Minha irm abraou-me.
- Jorge, eu e voc... parece brincadeira do Cupido. Tranqilize-se, ela est bem, embora Joo me dissesse que ela anda muito triste e pensativa.
- Anseio por v-la, Glorinha. No sei porque no vem aos encontros. Estar proibida de sair?
- No seria de estranhar se estivesse presa em casa, porm, Joo nada me disse. O pai nem presta ateno nelas, Joo diz sempre que o pai nem as nota. Vai ele levar 
um bom susto ao saber. Agora entendo porque nos compreendeu.
CATIVOS E LIBERTOS 137 Como proibir voc, se no mando nem nos meus sentimentos? No consigo deixar de pensar nela.
- Mame pensa em cas-lo com Laurinda. Se no morrer ao saber do meu casamento, morre com o seu.
- Est consolando-me muito! - queixei.
- Desculpe-me, Jorge. J pensou no que far para casar com ela?
- No sei. Tenho pensado muito, no cheguei  soluo ainda.
- Amanh entrego seu bilhete ao Joo e lhe explico tudo. Ajudaremos vocs, ele ama tanto Marcina, quer tanto que ela seja feliz!
No outro dia bem cedo, mame e Laurinda j estavam prontas para partir. Tomei a bno de minha me e despedi-me educadamente de Laurinda.
- Laurinda, este  o lar de Jos, aqui ser sempre recebida como uma parenta, nora e cunhada. D recomendaes nossas aos seus familiares.
Partiram acompanhadas de sete dos meus melhores homens. A fazenda do sr. Amadeu, no era longe, l estariam antes do almoo.

Mame desde o desjejum fez recomendaes sem parar, e a carruagem j andava e ela ainda gritou:
- Cuide bem de tudo, Jorge, no domingo aps a missa, voltarei com vocs.
 tarde, Glorinha saiu para encontrar-se com Joo. Ansioso esperei-a e logo que voltou, veio me dizer:
- Joo assustou-se e ficou muito preocupado com o que pode acontecer a vocs. Prometeu ajud-los e fazer de tudo para traze-la ao encontro. Disse para tranqiliz-lo 
que Marcina no est proibida de sair e est bem de sade.
Aquietei um pouco. No sbado estava ansioso e esperei aflito pela tarde, bem antes do horrio samos, eu, Tio e Samuel. Sentia que eles no concordavam e que estavam 
muito atentos, mas nada diziam.
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VERA LCIA MARNZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
No esperei muito, Marcina tambm veio antes da hora, ajudei-a a descer do cavalo e num impulso abracei-a apertado:
- Marcina que saudade! Por que no veio ver-me? Estava aflito e preocupado. Que aconteceu?
Marcina afastou-se, deu uns passos, e voltou correndo para meus braos.
- Oh, Jorge! No queria mais v-lo. Decidi acabar com nosso namoro e s consegui aumentar meu amor. Amo-o!
Beijamo-nos. Sentamos na beira do lago.

- Marcina, que aconteceu com voc? Por que no queria mais ver-me?
- Jorge, nosso amor  proibido. No sou a esposa que sua famlia quer para voc e meu pai no ir aceitar nunca. Tenho um medo horrvel dele, no hesitar em matar-me. 
Contudo, no me importo com o que faa comigo, preocupo-me com o que possa ele fazer com voc. Nossos encontros so perigosos e no vejo outra alternativa seno 
nos separarmos. Pelo seu bem!
- S estarei bem com voc. Separar-nos, nunca!
- Agora Joo sabe, Jorge, levei um susto quando contou-me seu amor por Glorinha e que vo se casar e que voc os ajuda. Achei estranho ele ficar na fazenda, mas 
nem desconfiei que estava amando algum escondido. Obrigado, Jorge, por ajud-los, no t-los impedido, sero felizes, Joo a ama tanto!
- O amor quando  grande, Marcina, no deve ser impedido. Sero felizes como ns seremos. Ia contar a voc sobre eles no ltimo encontro, mas vendo voc machucada, 
esqueci.
- Jorge, acha mesmo que seremos felizes? No seria melhor terminar tudo e esquecer? Temo que algum me siga e que meu pai o mate.
- Tio e Samuel so experientes: vero tudo de onde esto e se algum a seguir, avisaro. No diga mais em terminar, aborreo-me. No sei como, mas iremos nos casar.
- Guarde novamente a parte do broche, Jorge. Tinha tomado a deciso de no v-lo mais. Joo aconselhou-me a conversar
CATIVOS E LIBERTOS
139
com voc e explicar. Senti-me to triste, to infeliz estes dias mas, vendo-o com tanta certeza, mudo de idia, virei todas as quartas e, quando der, aos sbados, 
est bem?
- Sua deciso me faz feliz, Marcina. Mas o que se passa em sua casa? Que fez o sr. Amncio ao visit-los por duas vezes? Fiquei to preocupado!
- Visitou-nos, sim, na primeira vez conversou com meu pai, na segunda props casar comigo se levasse dote. Meu pai quase o expulsou da fazenda. Acho que ele no 
voltar mais - disse rindo.
Era maravilhoso v-la rir, rimos, fiquei mais tranqilo. Logo Marcina ficou sria novamente.
- Muitas coisas tristes aconteceram, Jorge,  difcil viver na Morro Vermelho vendo tantas maldades de meu pai e de Lucas...
Marcina calou-se, percebi que ela queria perguntar-me alguma coisa e no tinha coragem, incentivei:
- Que quer saber, Marcina?
- Jorge, foi voc quem roubou as escravas?
- No as roubei, libertei-as!
-  corajoso, confio em voc.

Despedimo-nos trocando juras de amor, voltei feliz e tranquilo para casa.
No domingo, aps a missa, sr. Amadeu veio trazer-me mame.
- Obrigado, Jorge, por cuidar de minha Laurinda.
- Somos amigos, sr. Amadeu, e espero sempre ser, como tambm Laurinda nossa parenta. Ela  muito jovem para ficar para sempre viva. E o senhor, como pai sbio e 
cuidadoso que , ir deix-la  vontade para que resolva sua vida, no ?
- Oh, claro! Sim!
O sr. Amadeu encarou-me, notei nele, que tambm fazia gosto que me casasse com ela e deu-me suas explicaes:
- Jorge, devo-lhe desculpas por falhar com voc. Laurinda era sua prometida, e, se casou com Jos, foi porque Coronel Castro, seu pai, e eu decidimos. Foi ele quem 
props e eu concordei.
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS

- No tem do que se desculpar, entendo, isto  coisa do passado.
- Jorge, no pensa em casar? Sua me preocupa-se com voc.
- Sr. Amadeu, diante de tantos problemas, confesso que no pensei. H tempo para isso.
- Certamente.
Mame voltou conosco, disse que Laurinda fora bem recebida e que ela estava feliz.
Na quarta-feira, Marcina dissera-me que o pai no procurava mais os negros e, se tocava no assunto, era somente para xinglos. Achavam, ele e Lucas, que desceram 
o rio e que deveriam estar em algum quilombo no litoral. Fiquei mais tranqilo. Lencio e famlia j no corriam mais perigo e eles estavam muito bem, recuperavam-se 
e se fortaleciam. Mas ainda devamos ser cautelosos, pois a oferta de recompensa continuava e era tentadora.

Contara tambm que o pai ia viajar para a vila vizinha, passar o final de semana. Visitaria seu amigo Coronel Gervsio e que no sbado ela viria ao encontro. Disse 
que trs empregados que tinham famlias, despediram-se e mudaram e que o pai no arranjara outros.
No sbado ela veio. Falou-me da diferena que havia entre seus irmos. Chico e Lucas eram iguais ao pai, ela e Joo eram diferentes e sofriam muito no lar. Acabei 
falando dos meus, do meu carinho por todos e por Jos.
- Marcina, Jos era to bom e puro! No era deste mundo! Amava-o e respeitava-o.
Marcina se entristeceu:
- Diferente de Chico, s meu pai sentiu sua morte. Era meu irmo, mas no consigo sentir sua morte. Foi um alvio para os moradores da Morro Vermelho ele morrer.
- Marcina, sabe se seu pai tem culpa na morte do Jos? Sabe se foi ele o mandante? No me esconda, nada farei, no quero vingana. Nada que fizer, trar Jos ao 
corpo.
CATIVOS E LIBERTOS " 141
- Sinto profundamente, Jorge, foi ele. Escutei por acaso um final de conversa entre ele e Quitrio: combinavam o local e o preo. No deu para saber o que iriam 
fazer, mas, depois do assassinato, entendi o que combinavam. Perdoe-me, Jorge!
Abracei-a. Senti o muito que nos separava e o tanto que era forte nosso amor para estarmos juntos. Lembrei de mame, ela tinha razo, papai lhe dissera. Fora Quitrio. 
No queria pensar nisto, no fundo, preferia que no fosse o mandante, agora, tinha a certeza e no queria nutrir raiva nem rancores, seria melhor esquecer este fato.
Despedimo-nos j com saudade. O tempo que passava com Marcina parecia minutos e ansiava por eles.
No domingo vimo-nos na missa, evitvamos nos olhar, no queramos que ningum desconfiasse. Evitava tambm olhar para as mocinhas que, achando-me bom partido, procuravam 
acercarse e conversar comigo. Temendo aborrecer Marcina. fugia delas, ia logo conversar com os senhores da vila. E estes, tambm, cis-
mavam em casar-me. Temos lindas moas na vila, no acha, Jorge? Pensa em casar, Jorge? Todo homem deve se casar, constituir famlia."
Respondia educadamente que era cedo, que me cabia cuidar das irms, e mudava de assunto.
Recusvamos ir a festas, devido ao nosso luto e eu no queria permanecer na casa da vila, preferindo ficar e cuidar da fazenda. No fazamos visitas; se mame e 
as meninas fossem, mandava meus homens acompanh-las e no ia. Recebamos muitas visitas na fazenda, era gentil, educado e se havia alguma mocinha, tomava todo o 
cuidado para no lhe dar esperanas e. s vezes, desculpando, a pretexto de dar ordens, ia ver um trabalho, saa e s voltava quando as visitas tinham ido embora.
Tendo a certeza de que as buscas pararam, achei que era tempo de ajudar Lencio e os seus a partirem. Naquele domingo,  tardinha, j escurecendo, fui v-los. Receberam-me 
contentes e muito me agradeceram.
142
VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
- Lencio - disse-lhe -,  tempo de deixarem este lugar. Graas a Deus, no vieram procur-los aqui. Ajudo vocs a partirem, farei cartas de alforria a todos e, 
se se disfararem, iro para longe; darei a vocs dinheiro para a viagem e cavalos.
- No queria ir embora, sinh Jorge - disse Lencio.
- No devem ficar, no podem ficar a vida toda aqui, escondidos. Morro Vermelho  muito perto, acabaro sendo descobertos.
- Sinh Jorge - disse Tereza -, Pai Toms disse-nos para que esperssemos mais um pouco. Disse-nos que muitas coisas vo mudar. Se o sinh permitir, deixar-nos ficar 
aqui um pouco mais, esperaremos uns dias, depois iremos.
- Por mim, teria vocs sempre aqui. J tivemos ajuda do Alto libertando vocs e por ningum procur-los aqui. No seria abusar em ficar? Pode algum v-los... Se 
Pai Toms disse para esperar, est bem, mas devem ser cuidadosos, o perigo no passou!
Quando amos voltando, disse a Tio, que me acompanhava:
- No entendo Lencio, por que no quer ir embora?       n
-  por causa de Jurema.
- Qu?!
- A filha do Rosmo, meu irmo. Esto se gostando, ela vem v-lo todas as noites.
- E eu que pensei que estavam escondidos! Rosmo sabe? Est de acordo?
- Sabe, ele gosta muito de Lencio.
- Bem, se  por isto, diga a eles que alforrio ela tambm, que se casem e partam.
- Rosmo tinha a certeza de que o sinh no faria conta de a filha ir embora. Ele teme a vida que, l fora, sua menina poder ter. A vida do negro alforriado no 
 fcil, nem simples. Sabemos de muitos acontecimentos tristes com negros alforriados. Quando ser, sinhozinho, que o negro ser gente nesta terra? Ser que s a 
liberdade basta?
- No sei, Tio, no sei responder-lhe. Que sejam vocs a decidirem, espero mais umas duas semanas, depois Lencio e os
CATIVOS E LIBERTOS
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seus tero de ir. A Fazenda Assombrada assusta a muitos, Tio! S no assusta os apaixonados...

Rimos.
No outro dia, segunda-feira, tudo transcorreu calmo. J tnhamos nos retirado para dormir, eram mais de onze horas, quando me chamaram; um dos guardas batia na porta 
do meu quarto:
- Sinh Jorge, o sinhozinho Joo, da Morro Vermelho est na porteira da fazenda. Quer falar com o sinh.
- Joo a esta hora? Est sozinho?
- Sim, sinh, e diz ser urgente!
- Deixa-o entrar e traga-o para a sala de visitas.
- Sinhozinho Jorge, o sinh entendeu?  o sinh Joo, filho do Coronel Francisco.
- Entendi, deixa-o entrar.
Troquei rpido de roupa. Ao sair do quarto, mame e minhas irms estavam no corredor, assustadas: "
- Que aconteceu, Jorge?
- Temos visitas, vou  sala.
Fui e as trs acompanharam-me. Na sala j estavam Manuel e a esposa, Brbara, Joana e Nrcio. Quando ia explicar o que estava acontecendo, Joo entrou acompanhado 
de trs dos meus homens. Fiz sinal para que sassem. Ao ver Joo, Glorinha correu ao seu encontro abraando-o. Somente eu. Nrcio e Brbara no nos assustamos, mame 
at gaguejou:
- Que  isto?! Voc no  o Joo, filho do Coronel Francisco? Por que est em nossa casa? Jorge, expulse-o daqui. Glorinha que  isto?!
- Mame, amo Joo e vou casar-me com ele! Mame caiu desmaiada.

Peguei-a e levei-a ao quarto, enquanto pedia para Manuel chamar Maria e Carlota com as mulheres, para que ficassem com ela. Voltei  sala e Joo explicou:
- Jorge, devo partir agora, antecipo-me. Nosso plano  o mesmo, mando notcias e por favor d as minhas  Marcina.
- Que aconteceu, Joo?
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS

- Assustei d. Catarina, como ela est? Sinto muito.
- Ela est bem.
- No podia ir sem me despedir. Resolvi ir hoje porque meu pai resolveu casar-me. Chegou hoje de viagem com tudo combinado: deveria ficar noivo de Marta, a filha 
do Coronel Gervsio, dentro de quinze dias e casar em trs meses. Minha estadia na casa de meu pai  impossvel e nunca me casarei sem vontade. Achei melhor ir-me 
logo, volto  casa dos meus tios. L no ir procurarme, penso que no ir atrs de mim.  inimigo de morte de meu tio, irmo de minha me.
- Est fugindo, Joo? Sai s escondidas?!
- Sim, Jorge, sa escondido,  melhor. Meu pai tentaria impedir-me, j que deu sua palavra de que me casaria com a filha do seu amigo.
- Necessita de dinheiro? Por favor, seria um emprstimo.
- Obrigado, Jorge, tenho o suficiente.
- Deixo-os a ss, por instantes, para se despedirem. Voltei ao quarto de mame, escutei-a chorando, bati e Carlota veio abrir; mame l de dentro, disse:
- No quero ver nem Jorge nem Glorinha.
- Mame!
- Voc expulsou este atrevido de casa?
- No, eu...
- Ento saia, no entre no meu quarto!
- Mame, posso explicar, Joo no  como o pai,  bom...
- bom? Nunca! Admira-me voc, um Castro, defendendo um filho de assassino. Aja como homem, mande surr-lo e expulse-o daqui!
- No. Eu no posso fazer isto. Glorinha e ele se amam de verdade.
- E consente? Est louco! Demente! A Frana o enlouqueceu? No quero v-lo, aqui. Minha filha  s Carlota, e que a Glria fique presa no quarto.  isto que d ter 
permitido que andasse por a e com uma garrucha na cintura!
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Ficara parado na porta, vendo que seria impossvel um dilogo, voltei  sala. Despedi-me de Joo e ele partiu. Glorinha ficou chorando.
- Jorge, ser que mame entender?
- Vamos deixar passar uns dias para que se acalme. Procure ficar no quarto, ela quer assim.
Mame no saiu do quarto no outro dia, Carlota nos disse que ela chorava muito e queixava-se de dor de cabea.
Na quarta pela manh, fui v-la. Bati de leve na porta, ao escutar ''Entre!", entrei devagar. Ao ver-me, virou o rosto. Sentei na cama e, com muito carinho, expliquei 
o que acontecera. Vi o quanto estava sentida por esconder o fato dela, mas estava mais calma, nada falava, s me escutava. Ajoelhei-me, beijei sua mo.
- Perdo, mame, desculpa-nos!
- Acho, Jorge, que no o preparamos para que fosse um chefe de famlia! Foi tolerante, meu filho, agiu errado! No tinha que compreender sua irm. Perdo voc.
- Mame, compreenda-nos.
- No, e nem os abeno! Volte atrs e impea este casamento, agiu errado, acabar chorando no caixo de sua irm. Este Joo quer mat-la!
- No. mame, eles se amam, se quisesse mat-la, j o teria feito.
- Amar um assassino do prprio irmo! No perdo sua irm!

- Mame, por favor.
Deixou que eu a abraasse e beijasse. Conhecendo minha me, tinha certeza de que mudaria de opinio e no guardaria mgoas por muito tempo da filha caula. Captulo 
XI A REVOLTA Na quarta-feira, fui ao encontro de Marcina; ela j estava  minha espera.
- Jorge, estou to triste com a partida de Joo! A casa para mim ficou vazia, sentimos muito, Tamira e eu, a falta dele.
- Que aconteceu, realmente, Marcina?
- Papai voltou da viagem muito satisfeito, com jeito de ter resolvido um problema. Achou um modo de Joo ficar aqui, resolveu cas-lo, pois nunca quis Joo com meus 
tios a quem odeia. O Coronel Gervsio e ele so amigos h tempo. Resolveram casar Joo com Marta, uma menina de quatorze anos! Chegou em casa, contente, chamou Joo 
e Lucas e contou a novidade:
"Joo arrumei um timo casamento para voc, filho! Linda moa, prendada, bom dote, ficar noivo daqui a quinze dias e casar dentro de trs meses."
- Joo rebelou-se, disse que no queria casar, porque era cedo e nem conhecia a moa. Meu pai garantiu que era linda e que poderiam at morar na vila. Joo insistiu 
que no se casaria, meu pai se exaltou, a meu irmo calou-se. Papai achou que vencera e que tudo estava acertado.  noite, Joo veio ao meu quarto e despediu-se, 
partiu, deixando uma carta a meu pai. No dormi, Jorge, temendo por meu irmo. Pela manh, meu pai, aps o desjejum, foi ao seu escritrio e viu a carta. Deu um 
grito, corremos todos, Lucas indagou aflito, j com a garrucha em punho:
"Que houve meu pai?"
"O Joo, aquele palerma, foi embora, despediu-se por carta, escrevendo que no se casa obrigado! Ingrato! Est deserdado.
CATIVOS E LIBERTOS
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no receber um tosto de herana. No vou atrs dele. Lucas, que sofra o infeliz, tenho vontade de mat-lo. Que fao agora, Lucas? Dei minha palavra ao Gervsio!"

''Calma, meu pai. No sei para quem Joo puxou, fazer isto com o senhor, to bom pai!"
"Puxou por sua me, quem mais este palerma haveria de parecer? Como ficou mais tempo aqui, pensei em cas-lo para que no voltasse a morar com meu horrvel cunhado. 
Casando-o com Marta, ficaria por aqui, e com o dote que receberia, poderia viver na vila e abrir um comrcio. Tudo fao por ele, e o ingrato foge como um negro. 
Est deserdado! No se aborrea tanto meu pai, acharemos uma sada. Joo  como se no fosse meu filho, ele que v para o Inferno, preocupo-me  com Gervsio, amigo 
de tanto tempo. Que direi a ele? Papai, o senhor disse que seria com Joo o casamento? Podemos dar uma desculpa ao Coronel Gervsio e acertar o matrimnio de Marta 
comigo."
"Lucas! Que filho maravilhoso  voc! No pensei em arranjar um casamento para voc, confio que saber se dar bem. Conte o que pensa."
"Podemos dizer ao Coronel Gervsio que Joo acha-se adoentado, comeando a apresentar problema como o de Tamira, e que o mandou para um tratamento em So Paulo em 
casa de parentes. Que o senhor o estima tanto que no quer ver Marta casada com um doente e prefere marcar esta amizade com a unio do filho perfeito, mais inteligente, 
que sou eu. Nada impede, pois sou solteiro, livre de compromisso, jovem. Tudo fao pelo senhor, meu pai, caso-me e de boa-vontade, se o senhor assim o quiser. Mas 
ser que o Coronel Gervsio concordar e ficar satisfeito?"
"Tem razo, voc achou uma boa desculpa, ele no iria querer um doente para genro, e com a troca s ganhar."
"Na sexta-feira, vspera do dia marcado para o noivado, iremos e levarei de presente para Marta o anel de esmeraldas e
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brilhantes que era de mame. Ela ficar deslumbrada! Agradarei a moa e ficar ela apaixonada em trs dias."
- A interferi, Jorge. O anel de esmeralda fora de minha me, presente do meu av a ela, deu-me antes de morrer, guardo-o com todo o carinho,  uma jia lindssima.

"Mas o anel  meu, mame me deu, me  uma lembrana querida."
"Cale-se Marcina" - disse Lucas. "Para que uma solteirona como voc quer uma jia como aquela? No dedo de minha esposa ficar na famlia!"
"D o anel ao Lucas, Marcina, ele tem razo" - disse meu pai. "E na festa do noivado voc ir tambm."
"E Tamira, com quem ficar?" - indaguei.
"Ficar bem com a ama. J decidi, voc vai e trate de ser agradvel a todos."
- Meu pai acalmou-se e Lucas ficou feliz. Sente-se dono de tudo, com Joo deserdado, Tamira doente, eu solteira, tudo ir para suas mos. Ambicioso como , sente-se 
feliz.
- No se entristea, Marcina - disse-lhe. - Joo no teve escolha, ia mesmo partir, s antecipou.
- Devo viajar com eles, Jorge, vamos na quinta-feira que vem.
- J sinto saudade, espero que ningum lhe faa a corte.
- No se preocupe, para todos sou uma solteirona, quase viva, que no pensa em casar e no deixarei ningum cortejarme, s pensarei em voc. Voltarei no sbado, 
no o verei na quarta que vem, pois devo preparar-me para a viagem.
No sbado encontramo-nos, ficaramos mais de dez dias sem nos ver, despedimo-nos saudosos.
Em nossa fazenda, tudo estava calmo, tranqilo, mas, na Morro Vermelho, o Coronel Francisco partiu com Lucas, Marcina e cinco jagunos. Na fazenda ficaram dois jagunos, 
os mais velhos, e quatro empregados para tomarem conta de muitos negros revoltados e famintos. Tamira ficou com a ama. CATIVOS E LIBERTOS  149 Os escravos vendo-se 
guardados por to poucos homens e sabendo que os empregados no estavam satisfeitos na fazenda, pois faziam o servio com pouco caso e descuidados, planejaram naquela 
mesma noite uma revolta para o outro dia. Todos concordaram, seria matar ou morrer.
Na sexta-feira, aps o almoo, um grupo de escravos foi levado ao cafezal, separados em dois grupos, dois vigias para cada grupo, distanciando-se um do outro alguns 
metros para vigiarem a todos os negros.
Um negro chamou calmamente um dos vigias:
- Seu Antnio! Seu Antnio! Uma cobra, parece ser venenosa, olhe aqui!
- Onde? - o vigia desceu do cavalo com a arma na mo. Que procurem...
Foi acertado na cabea por uma pedra e desmaiou, os dois negros amarraram-no, pegaram as chaves dele, e foram se soltando. Um escravo pegou as armas dele e as escondeu. 
Um outro negro chamou o outro vigia ao mesmo local e com a mesma desculpa:
- Seu Benedito! Seu Benedito! Uma cobra ali, parece cascavel!
- Onde? Seu negro sujo, por que no a mata? No vejo nada, onde voc a viu?
Foi acertado com uma pedra na cabea e dois negros livres das correntes pularam sobre ele, desarmando-o e amarrando-o. O grupo estava livre; foram cautelosos at 
aos outros, atacando os dois vigias de surpresa, dominando-os.
Livres e com os quatro vigias dominados, vieram para a sede da fazenda. Surpreenderam os dois vigias facilmente: um estava na casa-grande, outro no curral.
Prenderam-nos numa cela, no poro da casa-grande. Um dos empregados, muito ferido na cabea, morreu e foi enterrado no cemitrio dos negros na fazenda. Somente duas 
famlias dos empregados moravam na fazenda. Os negros deixaram-nos em suas casas e vigiados.
 
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Alegrando-se com a vitria, elegeram Tobias, um negro forte, de meia-idade, bom, sempre pacificador, para lder. Ele falou: Meus irmos, Deus  testemunha de que 
aqui s temos sofrido. Conseguimos nos libertar mas no somos livres. Ir embora? No conseguiremos fugir todos, h velhos, crianas e ns somos desnutridos. No 
iramos longe e nos trariam de volta. Devemos ficar e negociar com o coronel; que os empregados fiquem presos e a menina doente, como nossa refm. Quando o coronel 
voltar, negociaremos com ele.
- E ingnuo, Tobias - falou Gensio, outro negro mais exaltado. - O coronel no  homem de negociar com negros. Depois negociar o qu? Ele nos matar, isso sim!
- Irmos - continuou Tobias -, todos concordaram com a revolta, que foi um sucesso at agora. No somos assassinos, se um deles morreu, foi acidente, por isso devemos 
respeitar os empregados presos e as famlias.
- No respeitam as nossas! Vamos matar a todos!
- No! Para os revoltosos a lei  uma, para os assassinos  outra. Matando, s vamos piorar nossa situao. Se no d para sairmos daqui todos, ficaremos e tentaremos 
negociar; ou viveremos melhor, ou morreremos todos e juntos.
Houve votao e a maioria apoiou Tobias. Entraram nas despensas, comeram e beberam, repartiram as armas que encontraram. Nada fizeram com Tamira, que se sentiu feliz 
com tanto movimento. Um deles props ir  Sant'Ana e pedir ajuda. A maioria no concordou e l ficaram em festa  espera de Coronel Francisco, para exigir dele melhor 
condio de vida. Se no fossem ouvidos, estariam dispostos a matar e a morrer. Alguns deles, com medo, fugiram  noite, desertando os companheiros.
Coronel Francisco, ignorando o que se passava em sua fazenda, estava contente, acertara com seu amigo Coronel Gervsio o compromisso de Lucas e Marta. O noivado 
da noite de sbado foi deslumbrante, com danas e com pessoas importantes. Lucas tudo fez para ser agradvel  menina Marta, que estava muito
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assustada, mas mostrou-se encantada com a jia que ganhara. Marcina participou socialmente, sendo agradvel a todos como recomendara o pai. Aps o almoo de domingo, 
o Coronel Francisco resolveu com o Coronel Gervsio todos os detalhes do casamento e anunciou que partiria no outro dia cedo.
Na Morro Vermelho, os negros, desde domingo  noite, passaram a esperar o coronel. Um dos jagunos presos conseguiu fugir, e os outros, com medo, ficaram quietos 
esperando pelos acontecimentos. O que fugiu, foi para a ponte, na estrada, e ficou escondido  espera do patro.
J era tardinha na segunda-feira, quando a carruagem do Coronel Francisco passou por ali. O jaguno saiu do esconderijo e parou-os na estrada.
- Mane? Que houve com voc? - indagou curioso um dos homens que acompanhavam o coronel.
O coronel e Lucas abriram a porta para ver o que ocorria e Mane explicou aflito:
- Coronel, no sabe a desgraa que aconteceu na Morro Vermelho durante sua ausncia! Os negros revoltaram-se e nos pegaram de surpresa, prendendo-nos. Eu fugi e 
vim avisar o sinh.
O coronel Francisco exaltou-se de dio:
- No posso confiar em ningum? Como deixaram alguns escravos domin-los assim? Bando de imprestveis, Mane, voc  um palerma!
Num impulso rpido, tirou sua arma da cintura e atirou em Mane, que, abobalhado, caiu.
"Sinh Coronel..." - todos ficaram espantados olhando cena como se no acreditassem no que viam.
- Por que me olham? Para todos, digam que foram os negros que o mataram. Seguiremos em frente! Vamos para a fazenda, entraremos l, como se desconhecssemos a revolta, 
e o mataremos, vamos matar os lderes e acabar com a festa deles.
- Papai - ousou falar Marcina. e Tamira? Podem mat-la
- Se o fizerem faro um favor a mim. E ser mais um mrtire e eles mais criminosos, dignos de castigos. 152
VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
- Meu pai - aventurou Lucas -, no  melhor voltar e pedir ajuda ao delegado?
- Est com medo, filho? S palermas tm medo de negro, que nem gente . Vamos surpreend-los e mat-los e os que ficarem vivos, tero seus castigos. vou arrancar 
a orelha direita de todos para no se esquecerem nunca mais de quem manda na Morro Vermelho. Verifiquem suas armas - disse o coronel aos seus homens -, entraremos 
no ptio e, logo que eu der a ordem, atirem para matar. Com seis a sete mortos, os outros se rendero. Vamos, toquemos para a frente!
Esconderam o corpo de Mane no mato  margem da estrada e puseram-se a caminho. O Coronel Francisco estava excitado, no via a hora de matar e castigar os negros 
revoltosos. Lucas e Marcina se olharam, pois eram semelhantes um ao outro naquele momento, ambos temeram o pai, no ousaram falar mais nada. Marcina ps-se a orar, 
temia o que poderia acontecer  irmzinha doente e com os negros revoltosos. Eram sete homens bem armados e que sabiam atirar, com ordens para matar, contra os negros 
indefesos, porm decididos.
Entraram na fazenda, Marcina no conseguia nem se mexer, estava aflita e angustiada. Pararam no ptio, Tobias saindo da varanda da casa-grande, alguns metros da 
carruagem, falou alto:
- Coronel Francisco, ns nos rebelamos. Aqui estamos soltos e queremos negociar com o sinh. No fizemos nada a sua filha Tamira, nem queremos fazer mal ao sinh.
- Que querem, negros sujos? - disse o coronel dentro da carruagem com a arma na mo, com sorriso cnico.
- Melhores condies de vida para ns. Que se acabem os castigos, que trabalhemos menos e que sejamos melhor alimentados.
- S isto? Nunca!
O rosto do Coronel Francisco transformou-se com o dio que sentia. Abriu a porta na hora em que gritou "Nunca!" deu um pulo e atirou  queima-roupa no peito de Tobias, 
gritando como um louco:
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- Matem! Matem estes sujos!
Os negros no estavam to indefesos como pensavam. Apoderaram-se das armas, embora no sabendo atirar. Desconfiando no serem aceitas suas propostas, no temendo 
matar nem morrer, se organizaram com cuidado. Esconderam-se pelo ptio, cercando-o. Ao verem Tobias cair. atacaram todos juntos, armados alm das garruchas roubadas, 
com facas, pedras e paus.
Marcina, horrorizada, olhava tudo da porta aberta da carruagem. Viu os empregados confusos e atirando sem parar. Pessoas caindo feridas. Um negro atingiu o pai pelas 
costas com uma faca e outro atingiu Lucas na cabea com um pedra enorme. A luta durou minutos, quando pararam os tiros. Marcina, como impulsionada por uma poderosa 
fora, saiu da carruagem e gritou:
- Parem! Parem, pelo amor de Deus!
Os escravos venceram. Muitos corpos estavam cados pelo ptio. Marcina olhou penalizada, apavorada, sua vontade era correr, fugir dali, estar longe daquela cena 
horrvel. Com seu grito, atenderam-na e pararam, como necessitados de comando. Resolveu Marcina vencer o medo e enfrentar a situao e continuou a gritar:
- Chega de mortes! Chega! Levem os feridos para dentro da casa e os mortos deixem na varanda. Os que sabem lidar com ferimentos que venham ajudar a cuidar deles! 
Tio! Tio! - chamou pelos escravos da casa. - Corra a cavalo at Sant'Ana, chame o Coronel Castro e lhe pea ajuda. D este broche a ele. conte o que houve aqui 
e pea para ele vir ajudar-me. Atlio, v  vila e traga o doutor, diga que necessitamos dele, mas no fale o que houve aqui!
Obedeceram-na, comearam a carregar os feridos para a casa, os mortos para a varanda, silenciosos, tambm eles estavam assustados. Tiraram as armas dos brancos, 
acercaram-se da casagrande, esperaram, nem bem sabiam o que esperavam, confiaram na sinh Marcina, que sempre to boa era para eles, resolveram fazer o que ela ordenava.
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Anoitecia. Eu estava na varanda olhando encantado o prdo-sol, o cu tingia-se de vermelho. Tudo estava calmo, ouvia os pssaros aconchegando-se nas rvores. Fui 
despertado por um galope de cavalo. Levantei, meus homens alertaram-me e puseram-se em guarda com as armas nas mos. Foi Nrcio quem gritou reconhecendo seu amigo 
da Morro Vermelho:
- Sinhozinho Jorge,  Tio, escravo da Morro Vermelho, parece aflito. Tio! Tio! - gritou. - Que aconteceu?
O negro no conseguia nem falar, acercamo-nos e olhava assustado: Sinhozinho...
Deu-me a parte do broche de Marcina. Fiquei tambm aflito.
- Fale, que houve, homem de Deus! Fale!
- Uma desgraa na Morro Vermelho.
- Que houve com Marcina? - indaguei preocupado, esquecendo o tratamento usado. - Que houve?
- Sinhazinha Marcina est bem. Ela  quem pede socorro. Deu-me isto para entregar ao sinh e roga para que v l sem demora. Houve uma revolta, os negros aproveitaram 
a ausncia do coronel e do sinh Lucas para se rebelar e conseguiram se soltar, prenderam os brancos, os empregados e esperaram o Coronel Francisco voltar. Houve 
luta, morreram muitos. O coronel est muito ferido e o sinh Lucas est morto. Pelo amor de Deus, sinh Castro, v l ajudar minha menina Marcina! Se houver mais 
lutas, todos morrero!
Com o alvoroo da chegada do escravo do Coronel Francisco, era grande o nmero de empregados e escravos que, curiosos, rodeavam-nos. Mame e minhas irms tambm 
vieram ver o que se passava. Fiquei indeciso por instantes e mame interferiu:
- No v, Jorge! Pode ser uma armadilha e, se no for, que nos interessa o que se passa l? Que se matem!
- Nrcio - disse -,  este o seu amigo? Pode confiar nele?
- Tio, por Deus,  verdade o que nos conta? - indagou Nrcio ao negro da fazenda vizinha. - Sabe o tanto que sinhozinho Jorge  bom. No  armadilha, uma emboscada?
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- Falo a verdade, juro por minha me!
-  verdade, sinhozinho Jorge - disse-me Nrcio -, conheo Tio, ele no ia mentir.
Olhei o broche que apertava na mo. Marcina no ia trairme, necessitava realmente de mim. Dei a ordem.
- Doze homens vm comigo, os outros fiquem de guarda e estejam atentos. Pea a Maria que v logo atrs com outras mulheres para ajudar a cuidar dos feridos. Meu 
cavalo, rpido!
Mame ficou furiosa, ia dizer alguma coisa, no esperei, sa rpido, entrei em casa, armei-me melhor. Ao sair, todos estavam prontos e partimos em disparada. Todos 
pela estrada, passando pela ponte, a galope, chegamos em vinte minutos. Da entrada, de uma inclinao mais alta, avistava-se a sede. Entendi que Tio, o escravo 
da Morro Vermelho, no mentira. Os escravos estavam unidos no ptio, aproximamo-nos devagar, vi que estavam armados. A observao era mtua e gritei:
- Sou Coronel Castro, Jorge, a pedido da sinh Marcina venho ajudar! Venho em paz!
Silncio. Aps quase um minuto, um deles respondeu:
- Se vem em paz, pode se aproximar. Aproximamo-nos, o ptio estava sujo de sangue. Os negros
observaram-nos os movimentos. Desci do cavalo, metade dos meus homens desceu, outros ficaram montados. Segui para a casagrande. A varanda que contornava a frente 
da casa, cercada por uma mureta, estava clareada por lamparinas. Cheguei  varanda, aps subir seis degraus e passar pelo porto aberto.
Olhei a varanda cercada de vasos e flores, ensangentada, com os mortos deitados no cho em fila. Vi Lucas, estava com a cabea aberta na lateral esquerda, todo 
ensangentado.
Entrei, na sala estavam os feridos, por todo lado. gemendo dolorosamente. Procurei por Marcina e vi-a ajoelhada cuidando de um homem. Ao ver-me, correu para mim:
- Jorge, graas a Deus! Que horror! Que desgraa! Ajude-me! No sei o que fao! Lucas morreu e acho que meu pai est morrendo!
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
- Acalme-se. Vim para ajud-la. Vamos cuidar primeiramente dos feridos.
Falei a umas escravas que pareciam desorientadas, sem saber o que fazer: - Vocs, abram as janelas, fervam gua, peguem lenis.
Rpidas, foram cumprir minhas ordens, Marcina voltou a cuidar dos feridos. Retornei  varanda e examinei todos, certificando-me se estavam realmente mortos. Senti 
um arrepio diante da cena macabra que via, e orei. Todos estavam mortos: quatro homens do coronel, Lucas, oito negros, entre eles dois garotos, mocinhos de seus 
quinze anos!
Meus homens ajudavam e Maria com seis mulheres chegaram e foram cuidar dos feridos. Os negros do ptio, silenciosos, observavam-nos, parecia que nem se mexiam.
Chamei Tio, Samuel e Rosmo:
- Voltem a Sant'Ana e rpido. Voc, Rosmo, v tranqilizar sinh Catarina, e d notcia dos acontecimentos a todos na fazenda. Tio, Samuel, preciso de um favor 
de vocs, devemos buscar Joo em So Paulo, iro? Querem ir? - com a afirmativa deles, continuei: - Pea a Glorinha o endereo de Joo, como tambm dinheiro para 
a viagem. Arrumem-se rpido e partam, contem a ele de preferncia. Esperem, ele pode no acreditar. Marcina chamei-a, ela veio rpida at ns -, vou mandar buscar 
Joo. Ele sabe que voc  alfabetizada? Sabe? Ento escreva rpido um bilhete a ele pedindo que venha, que volte rpido!
Marcina saiu da sala e voltou em instantes com um envelope e entregou-o a Samuel, este pegou e partiram a galope. Da varanda falei aos negros:
- Acalmem-se, no se rebelem mais. Vem quantos mortos? Violncia no resolve nada. Aqui vim como amigo de Joo e de sinh Marcina e sero eles a tomar conta de 
tudo, de agora para a frente. No pensem mais em matar, queiram viver. Chorem pelos seus mortos e permitam que as famlias dos empregados chorem por eles. Orem pelos 
feridos e entreguem as armas.
CATIVOS E LIBERTOS 157 Um deles falou:
- Coronel Castro, sabemos que  bom e justo, respeitamos o sinh, mas no entregaremos as armas. At que seja tudo definido e esclarecida nossa situao, no entregaremos 
as armas. Se um de ns for castigado pela revolta, que sejam todos.  matar ou morrer!
- Mandei buscar Joo e espero que logo esteja aqui. Em Morro Vermelho j houve tristezas demais, vamos evitar lutas. Vim aqui em paz, se quisesse domin-los j o 
teria feito. No sou criminoso, nunca matei e no estou disposto a matar; se vim armado  porque ando assim e temi que fosse emboscada, vocs sabem dos fatos ocorridos 
por estas terras e como sou. Dou importncia a vida humana, peo-lhes calma, respeitem-nos e sero respeitados. Fiquem com as armas, mas no as usem!
Um deles falou:
- Sabemos pelo seus prprios escravos, Coronel Castro, que podemos confiar no sinh. Pedimos que nos proteja, pois se vier o delegado haver luta.
- No chamaremos o delegado aqui. No permitirei que sejam massacrados; para mim, bastam os mortos e feridos. Confiem em mim, eu os ajudarei, meus homens aqui ficaro 
e tudo farei para evitar uma outra luta!
Cochicharam entre si e o grupo pareceu relaxar mais, e algumas escravas saram e correram para a varanda e logo ouvi o choro alto. Pedi a meus escravos, que me acompanharam, 
para acalm-las e aconselh-los a esperar pacificamente.
Voltei  sala. Maria socorria com preciso os feridos, a sala estava cheia, Coronel Francisco estava ferido, no seu quarto com um empregado. Contei dezesseis negros 
feridos. O mdico chegou, e relatei a ele rapidamente o que se passara; elogiou o trabalho de Maria que fizera quase tudo, s deixando as balas para serem extradas.
Um negro com uma bala no estmago estava muito mal e o mdico nem a extraiu, chamou-me. Uma das negras foi buscar-me
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e atendi logo. Ao ver-me, seu rosto se suavizou e falou com dificuldades, pois tinha hemorragia pela boca:
- Sinhozinho Jorge, sei o tanto que  bom. estou morrendo, deixo mulher e cinco filhos. Pelo amor de Deus, sinhozinho, leve-os com o sinh, trate deles, no os deixe 
aqui.
Comovi-me, segurei sua mo:
- Prometo, cuido dos seus. Lucas morreu e o Coronel Francisco est morrendo, e aqui ser como Sant'Ana, com Joo e sinh Marcina. Fique tranqilo, prometo olhar 
por eles e proteg-los. No quer v-los? Chame-os.
- No, sinh, no quero que me vejam morrer.
- No pense em morrer,  to forte e moo, o mdico chegou e cuidar de voc.
- No carece, meu pai aqui est, ele veio buscar-me. Parou de falar, seu rosto ficou tranqilo, sorriu, o sangue
saa pela boca em grande quantidade, mas ele no deixou de sorrir, fechou os olhos e expirou. Cruzei suas mos.
- Os justos no temem a morte!
Olhei, fora Maria quem o dissera, concordei com a cabea e pedi para Manuel, que ali ajudava, para o levarmos at a varanda. Mais um morto.
A sala estava transformada, toda suja de sangue, ouviam-se gemidos e choros. Foi a que conheci Tamira.
Tamira era realmente feia, torta, andava jogando o corpo, seus braos eram moles, olhos midos e boca grande, lbios grossos, ria e babava. Parecia divertir-se com 
o que via.
- Tamira, que faz ela aqui? - perguntou Marcina a uma negra, que tratou de explicar:
- No quer ficar no quarto, sinhazinha, conseguiu escapar e vir para c, no consigo control-la.
- Deixa Tamira ficar, deixa - falou Tamira com dificuldade, com uma voz rouca, estranha, olhando para a irm.
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- Promete no pr a mo em nada? Eles esto com di-di, estamos passando remdios neles. Promete ficar quietinha? - Tamira balanava a cabea, concordando. - Ento, 
fique ali encostada. Ambrosina, vigie-a.
Acabaram os curativos, todos tinham sido medicados, o mdico Q Maria preparavam remdios para amenizar as dores dos feridos. Marcina relaxou-se, suspirou aliviada, 
e chamou-me at o escritrio do Coronel Francisco, que era escuro, com mveis pesados; Marcina sentou-se, segurou minha mo, apertando-a:
- Jorge, Jorge, fique comigo e ajude-me. Que devo fazer? No penso em chamar o delegado aqui, nem quero que venha. Nada de represlias e de mais mortes.
- Voc est certa. Os negros agiram errado, responderam com violncia porque a violncia fora imposta a eles. E essa violncia deve ser contida, parar por aqui. 
Ajudo voc, com voc ficarei. Joo vir logo, assumir a administrao e tudo ficar bem.
- Obrigado, Jorge. Agora vou ver meu pai.
O Coronel Francisco, atingido nas costas por uma facada, no voltara do desmaio; o mdico afirmou ser grave seu ferimento.
Com tudo mais calmo, j de madrugada, fui para casa, acompanhado de um s homem, deixando os outros a vigiarem os negros revoltados.
Entrei silenciosamente, mame estava na sala, nem se deitara, estava com o rosto inchado de chorar. Compreendi que estava magoada comigo, fingi no perceber, sentei 
ao seu lado e narrei tudo o que vi na Morro Vermelho, as cenas macabras, o sofrimento dos familiares dos que morreram, os gemidos dos feridos e a ansiedade de sinhazinha 
Marcina, que no sabia o que fazer. Lembrou-se de mim, o vizinho mais prximo e uma pessoa respeitada pelos escravos, para ajud-la e por fim  revolta e evitar 
mais mortes.
Mame escutava-me, curiosa, ora arregalava os olhos, ora enxugava as lgrimas:
- Que horror, meu filho! Que horror!
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS Entendeu mame, por que fui? Preciso voltar, se houver represlias, se o delegado que gosta tanto de matar negros, 
l for, outros tantos morrero. Os escravos revoltosos esto decididos,  matar ou morrer! Aqui vim para tranqiliz-la, se a senhora quiser, no voltarei mais l, 
desculpe-me se a desobedeci e fui.
Mame acariciou-me:
- Com Lucas morto e o coronel  morte, no sinto mais perigo. Volte, filho, evite mortes, sinto aqui dentro o choro das mes e o temor delas a pensar que mais pessoas 
morrero. Elas confiam em voc! Pode ir.
- Obrigado, mame. Para l vou agora e s devo voltar  noite, muitas providncias tero que ser tomadas e pessoas enterradas.
Sabia fazer minha me compreender-me, sendo dcil e gentil. Beijou-me, deixei-a tranqila e prometeu-me ir dormir. Voltei para junto de minha Marcina. Captulo XII 
-
FAZENDA SANTA LUZIA
Na Morro Vermelho, seus habitantes estavam mais calmos, o grupo no meio do ptio desfizera-se. Alguns negros armados faziam guarda pela sede, e soltaram os empregados 
presos. No poro da casa-grande, num salo, foram colocados os mortos, e seus parentes choravam junto deles. S um dos empregados mortos tinha famlia. Os feridos 
na sala estavam quietos, o mdico e Maria cuidavam deles.
Amanhecia, quando retornei. Marcina logo que me viu, veio at a mim:
- Jorge, lembrei agora de que meu pai matou um empregado que fugiu da priso do poro e foi avis-lo da rebelio. Est na estrada, na curva da ponte, escondido entre 
a vegetao. Jorge, parece que sonho, que tenho um pesadelo. Que horror! Nunca esquecerei esta noite!
- Que me diz, Marcina?! Seu pai matou um empregado por que foi avis-lo? - indaguei assombrado.
- Detestava fracos, e achou que foram covardes deixando dominar, por isso matou o homem friamente, sem ningum esperar, no pude evitar.
- vou mandar busc-lo.
Dei ordem a dois de meus homens para buscarem o empregado morto injustamente pelo Coronel Francisco.
- Marcina, temos que tomar decises, os enterros tm que ser feitos.
- Queria enterrar Lucas na vila, junto de mame e Chico.
- Aqui estou para ajud-la, mas  voc quem deve tomar as decises.
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
- Eu, Jorge? Tenho medo!
- Tem que ser voc, sim, Marcina. No deve ter medo, aqui estou ao seu lado.  inteligente, justa, cabe a voc cuidar de tudo!
- Sou mulher e...
-  uma pessoa, ningum  inferior por ser mulher, no se desvalorize. Se voc se impuser, eles obedecero! vou chamar os lderes dos escravos.
Um grupo de doze negros veio at ns, todos armados, os que no tinha armas de fogo, estavam armados com facas, paus, pedras, at com ferramentas de trabalho. Magros, 
sujos, mal vestidos. Sabendo que estavam dispostos a tudo, dava um certo medo encar-los. Meus homens rodearam-nos, disse-lhes, tranqilo:
- D. Marcina quer falar com vocs.
- Vocs me conhecem, sabem como sou. Desaprovava o procedimento de meu pai e do meu irmo Lucas. Quero paz no meu lar, nestas terras, e se assim no fosse, no estaria 
a cuidar de todos os feridos. Muito j sofremos, muitos morreram. Culpa no existe, no quero culpados. Quero enterrar os mortos. Quero enterrar meu irmo Lucas 
na vila perto de minha me.
Marcina fez uma pausa, os negros entreolharam-se, ela continuou:
- Quero lev-los logo, daqui a umas horas.
- A sinh ir  vila? - perguntou um deles.
- Serei a nica parente a se despedir do meu irmo. Irei  vila.
- E quem nos garante que no ir a sinh pedir ajuda ao delegado? E que ele e outros homens no viro aqui matar-nos?
- Eu garanto! - disse Marcina decidida. - Se quisesse pedir ajuda, j o teria feito.
- Com a sinh aqui no atacaro temendo por sua vida, mas, sem a sinh, fica diferente!
Marcina olhou-me e interferi:
- Qualquer um da minha fazenda podia ter ido buscar socorro e no foi. Eu mesmo com meus homens poderamos t-los dominado e no o fizemos. O que d. Marcina prope 
 justo;
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depois, aqui ficaro Tamira e Coronel Francisco. Vocs devem enterrar seus mortos logo  tarde. Os brancos mortos devero ser enterrados na vila. Se a inteno de 
d. Marcina no fosse boa, no teria cuidado dos feridos. J lhes pediu paz, e garanto que ningum vem aqui em represlia. vou na frente, aviso no cemitrio e o padre; 
posso at conversar com o delegado, explicar a situao e dizer-lhe que no venha aqui.
Cochicharam e um deles falou:
- Sinh Jorge, confiamos no sinh e na sinh Marcina. Queremos que, junto do sinh, v um de ns. Na volta, l do alto, ele acenar um leno branco. Se no o fizer, 
aguardaremos com luta.
- Concordo. Dois dos meus homens iro comigo, cinco com d. Marcina e outros ficaro aqui. Se confiam em mim, confio em vocs, devem aguardar-nos com calma e nada 
devem fazer para que recomecem outra luta.
- Certo. Porm, se nos trair, todos os brancos daqui morrero e lutaremos enquanto estiver um de ns em p!
Olhei-os, abaixaram as cabeas, minha sinceridade inspirava-lhes confiana.
Logo aps tomar um caf em companhia de Marcina, dei ordens para o que necessitava ser feito na Morro Vermelho. O trato dos animais, o preparo das covas para enterrar 
os escravos mortos. Chamei Nrcio e Manuel e pedi que ficassem ali, enquanto amos  vila para o enterro. Avisei os negros de que ia partir e um deles se apresentou 
para ir comigo.
Marcina j arrumava os mortos na carroa, para serem levados  vila. Trocou a roupa de Lucas, enfaixou sua cabea. Estava triste, mas no chorava, e vendo que a 
observava, chamou-me:
- Jorge, venha c! Assim parece ele melhor, no ? Ser que mame pode ver-nos? Deve estar muito triste! Se os mortos ficam juntos, tudo bem, mas, se somos separados 
conforme nossa obra, nem Lucas nem Chico devem estar com ela. Tenho muito d dele, Jorge. Lucas foi mau, nada tem de bom para acompanhar sua alma.
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Estou triste por ele e por todos; sinto igualmente a morte de todos. Era meu irmo e parecia-me to distante!
- Marcina, voc  delicada, bondosa, sabe dar valor a todos. E tudo o que aconteceu,  to lastimvel!
- No me acha insensvel por no sentir a morte de meu irmo, como deveria?
- No gostaria de v-la fingir, nem sempre estimamos os parentes da carne, a uns no conseguimos amar, parecem-nos to distantes, entendo-a, nada tinha a ver com 
Chico e Lucas. Voc lamenta mais seu proceder, que sua morte.
- Voc compreende-me.
- J vou, e por favor, Marcina, tenha cuidado! Partimos, o escravo que nos acompanhava chamava-se Jos,
lembrei do meu irmo, senti muita saudade e pensei: "Que faria ele se estivesse no meu lugar?" Mais que eu, sem dvida, era bondoso demais. Mas Jos, meu acompanhante, 
ia calado, observando tudo, curioso, ora parecia-me medroso, no sabendo nem guiar seu cavalo.
Chegamos  vila, fui ao cemitrio, falei ao coveiro:
- Sr. Coveiro, Lucas da Morro Vermelho faleceu. O Coronel Francisco pediu-me que os avisasse e que preparassem o tmulo da famlia para receb-lo, como tambm cinco 
covas para os empregados que morreram.
- Que houve, uma epidemia? - indagou-me o coveiro. Estava curioso, os negros que no cemitrio trabalhavam,
cercavam-nos e ficaram olhando-nos, expliquei, simplificando, mas ficaram incrdulos.
- Se pensam que tenho algo a ver com estas mortes, enganam-se, aqui est Jos, um escravo da Morro Vermelho para confirmar.
-  verdade,  verdade - disse Jos.
- Se quiser uma boa recompensa, faam logo o servio. D. Marcina logo estar aqui com os mortos. Nada de ir comentar o assunto pela vila. Tratem de fazer logo o 
trabalho.
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- S uma pergunta Coronel Castro, s uma - disse o coveiro. - Todos sabem que so inimigos, por que o Coronel Francisco, pediu este favor ao senhor?
- Porque fizemos amizade, j no somos inimigos e fui ajud-lo como vizinho.
Samos, deixando-o sem que compreendesse bem os fatos.
Fui  igreja procurar o padre, fiz com que Jos me acompanhasse. O vigrio ao ver o negro sujo em sua igreja, no gostou, nada disse, s torceu o nariz fazendo expresso 
de nojo. Fui direto ao assunto, contando por alto, desde o comeo. O padre mudou de cor, apavorou-se:
- Que horror! Como sofrem os senhores de escravos! Negros assassinos!
- Assassinos so todos os que matam, brancos ou negros. E pelo que aconteceu l  difcil dizer quem so os assassinos. Morreram muitos e d. Marcina no quer mais 
mortes. E o senhor esteja preparado para receber seus fiis mortos.
No gostou da minha observao e encarou-me:
- Admira-me o senhor estar aqui a tomar providncias...
-  que o Coronel Francisco e eu nos tornamos amigos. Por que admira? No  isto o que prega? Amizade, perdo? Somos dois fiis do seu rebanho, e resolvemos atend-lo!
Ensaiou um sorriso e no esperei mais perguntas, que certamente viriam, sa, sempre acompanhado de Jos. Fui ver o delegado.
Este tratou-me com deferncias, preferindo esquecer que no foi bem recebido em minha casa. Sem delongas, contei tudo.
O senhor Toms, o delegado, ficou espantado:
- Coronel Castro, o que me conta  espantoso! Tem a certeza de que foram os negros? Quero dizer, se no foi um inimigo do Coronel Francisco a atac-lo?
Recebi a indireta calmamente, sabia que o Coronel Francisco odiava-me e da nossa inimizade.
- Senhor delegado, no sou homem de fugir das responsabilidades dos meus atos. Nada tenho a ver com esta revolta. O Coronel
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Francisco foi meu inimigo, no eu dele. Tenho amizade com Joo e d. Marcina e foi ela a chamar-me para ajudar. Depois, o Coronel Francisco e eu no temos mais rixas 
como se pensa. Meu dever de vizinho  ajudar. Garanto ao senhor delegado que na Morro Vermelho tudo est em ordem, e com a revolta dominada, eles pedem para que 
no interfira.
- Como no interferir? Os negros se rebelaram, mataram e fica por isto mesmo?
- Mataram, mas morreram em maior quantidade. No ficou por isto mesmo. Conhece bem o Coronel Francisco para no duvidar disto.
- Se o Coronel Francisco quiser, posso ir com meus homens ajudar.
- Como? Matar a todos?
- Claro que no, s os negros!
- Os culpados esto mortos delegado, se vim avis-lo foi porque d. Marcina vem com os mortos para serem enterrados.
- O Coronel Francisco no tem muitos homens atualmente.
- Os meus esto l, ajudei-o, por isto, fizemos as pazes.
- E este negro mal vestido? No  da Morro Vermelho?
- Ganhei-o do Coronel Francisco em prova de amizade. Trouxe-o para ver a vila.
- O Coronel Francisco h de entender, quero os criminosos, sou a lei.
- Que lei que nada. Os negros esto mortos. E quem mais matou foi o Coronel Francisco, vai prend-lo? No, no ? No se prende coronel, s negros indefesos, que 
por injustia so escravos. E o aviso do coronel e meu, no deve interferir. Falei exaltado.
- Se d. Marcina vem a, vou escut-la, afinal Morro Vermelho nada tem a ver com Sant'Ana. Por que o Coronel Francisco no vem ao enterro do Lucas? Amava tanto o 
filho.
- Por isto mesmo, est abalado com sua morte e, no momento, castiga ainda uns negros.
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- Parecia-me que o senhor no gostava de castigar os escravos.
- No gosto, mas se rebelaram. Dos meus escravos cuido eu, os dos outros, nada tenho a ver com isto!
Sai, cortando a conversa, mentira em relao ao Coronel Francisco e eu, e no os convenci; inimizade no se desfaz assim to depressa. E, se soubessem que o coronel 
estava entre a vida e a morte, invadiriam a fazenda, tentariam evitar. Tinha esperana de que Marcina conseguiria convenc-los.
Com Jos acompanhando-me, cada vez mais assustado, fomos  sada da vila esperar Marcina e guardar tambm para que ningum fosse a Morro Vermelho. Havia ali um pequeno 
estabelecimento, que vendia miudezas, e l ficamos.
Na vila, os comentrios corriam, e como eram notcias ruins, voavam, como dizia, minha me. Logo, um grupo de pessoas curiosas aguardava tambm na frente de onde 
estvamos, e foi aumentando, mas no ousaram interrogar-me. Quando Marcina chegou, vendo as pessoas da vila reunidas, parou, e as indagaes vieram de uma s vez. 
Marcina ficou em p na charrete e com calma disse a todos:
- Os negros da minha fazenda Sc. _oelaram. No se preocupem, tudo est calmo no momento, foram dominados. Aproveitaram-se da viagem que fizemos no final de semana, 
e se soltaram. Quando voltamos, tentaram negociar, mas meu pai, ele impaciente, saiu da carruagem atirando, houve luta. Muitos foram mortos e muitos esto feridos. 
Lucas morreu como tambm estes empregados. Meu pai sentiu muito a morte de Lucas, est abalado e l ficou temendo que os negros se rebelassem novamente.
- Os negros foram realmente todos dominados, d. Marcina? No houve fuga?
- Foram dominados, no fugiram, morreram muitos. Afirmo que no h mais perigo.
- Que horror! Barbaridade! Aqui estamos para dar nossos psames e seguir os enterros.
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Marcina seguiu para a igreja, a multido acompanhava-a. Deixei os dois homens vigiando a sada da vila, para ter certeza de que ningum iria  Morro Vermelho. Jos 
e eu acompanhamos Marcina at a igreja; entraram para as bnos, ficamos esperando do lado de fora. Samos da igreja, fomos ao cemitrio, tratei de ficar bem discreto 
e acompanhei tudo mais  distncia. Muitas amigas de Marcina cercaram-na, consolando-a e indagavam-lhe curiosas, Marcina respondia com monosslabos. Os mortos foram 
rapidamente enterrados. Marcina na sada do cemitrio explicou novamente, falando alto, tudo o que tinha acontecido, escondendo o fato de seu pai estar ferido gravemente. 
Agradeceu a todos e disse no estarem necessitando de nada e que voltava agora para a fazenda, junto da irmzinha que estava assustada.
O delegado adiantou-se c indagou:
- D. Marcina no quer que a acompanhe at a fazenda? O coronel no quer realmente entregar-me os assassinos? Eu sou a lei e aqui estou para defender a todos. Voltar 
sozinha,  mulher e...
Marcina olhou-me, dei foras a ela, sabia o que pensava, mulher no era inferior s por ser mulher, respondeu a ele friamente:
- Tenho, senhor delegado, tenho a certeza de que no necessito de nada. Volto acompanhada dos que vieram comigo. Agradeo seu interesse e peo-lhe no se preocupar 
nem interferir. Relembro que meu pai j tomou todas as providncias e que no h assassinos vivos em Morro Vermelho e que tudo est em paz por l. Com licena, volto 
 fazenda, pois acho-me muito cansada.
- No posso nem ver o que ocorreu? Nem visitar o Coronel Francisco, to meu amigo? - indagou o delegado insistente. A interferi:
- D. Marcina est cansada. Por que insiste senhor delegado? Se o Coronel Francisco quisesse v-lo, teria chamado. Achase muito aborrecido para receber visitas curiosas.
Ele nada mais disse, Marcina partiu, ele aguardou um pouco e foi embora. Dei um tempo e parti tambm, alcancei-a logo na estrada e passei para a charrete.
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- Oh, Jorge! Se souberem que meu pai est gravemente ferido e que os escravos esto soltos na fazenda e armados, atacaro Morro Vermelho!
- Foi por isto que mentimos, esconderemos que seu pai est ferido, ganharemos tempo e, quando Joo chegar, tudo ficar bem.
Marcina colocou a cabea no meu ombro e ps-se a chorar. Passei a mo pelos seus cabelos:
- Chore, Marcina, chore, far bem a voc... Esquecemos dos outros que nos acompanhavam, e quando
percebi, olhavam-nos, espantados. Nada disse, continuei a consolar minha amada. J no importava esconder nosso amor.
Chegamos. Do alto, Jos fez o combinado, acenou o leno branco. Os negros, desconfiados, esperavam-nos no ptio. Jos desceu do cavalo e contou rpido a eles o que 
se passara na vila, como tambm, que a sinhazinha estava amando-me. Olharam-nos com simpatia e respeito, por t-los defendido.
Dr. Alfredo esperava-nos:
- Devo ir embora, senhorinha Marcina. Estou cansado, os feridos esto bem, seu pai  que me preocupa, Maria dever cuidar dele to bem como eu.
Estava com o brao nos ombros de Marcina, ele olhou-nos, curioso, achei melhor explicar:
- Dr. Alfredo, Marcina e eu nos amamos h muito tempo, isto explica estar aqui ajudando-a, como sou amigo tambm de Joo a quem j mandei chamar. Dr. Alfredo, conto 
com sua discrio, os meus no sabem ainda, devo logo dizer a eles, porque casaremos logo que possvel.
Dr. Alfredo era uma pessoa muito estimada na regio, tinha quase sessenta anos, coou a cabea e acabou sorrindo:
- Ah. estes jovens de hoje! Parabenizo a ambos, souberam escolher.
- Obrigado, dr. Alfredo. Devo pedir-lhe outro favor. Na vila, todos esto muito curiosos, sabendo que aqui esteve, no lhe daro sossego para saber o que ocorreu. 
Dissemos que tudo aqui estava tranqilo, no contamos do ferimento do Coronel Francisco;
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falamos que estava chocado com a morte de Lucas e que preferiu ficar na fazenda vigiando os negros. Esperamos que confirme o que dissemos, como tambm que o ajudei 
porque fizemos as pazes, que ele no quer receber visitas e que est muito nervoso. Todos conhecem o temperamento do coronel e sabem que quando est nervoso  melhor 
deix-lo em paz. Dr. Alfredo, poder fazer isto por ns?
- Se o Coronel Francisco souber disto, no gostar.
- Oh! No disse que ele est em estado grave?
- Disse e est, e se ele morrer?
- Poderemos dizer que foi do corao, teve um ataque nervoso, isto ser at Joo chegar e decidir o que far. Sei que os negros o obedecero. Se souberem, dr. Alfredo, 
que os escravos esto soltos e com armas, se reuniro e atacaro a fazenda. O senhor no quer passar outro tanto de horas a cuidar de feridos, no ? Marcina e Tamira 
estaro aqui, com o coronel ferido. H famlias de empregados, como meus homens; se invadirem a fazenda, muitos morrero. Pensando que o Coronel Francisco est bem, 
ningum duvidar que matou os negros revoltados.
- Farei o que me pede, tem razo, Jorge, minha profisso  para prolongar vidas e evitar mortes. Se o Coronel Francisco tratasse os escravos como seres humanos, 
isto no teria acontecido. E por que no serem os negros que j morreram, os culpados? Temo  por estarem soltos e estarem armados!
- Nada faro se no forem atacados, querem viver e sabem que numa nova luta, morrero todos. Se o senhor confirmar o que dissemos, acreditaro e no pensaro em 
vir aqui.
- Matarei a curiosidade deles, confirmando o que disseram. Amanh  tarde, voltarei. Boa-tarde e v descansar senhorinha Marcina.
Os escravos mortos foram enterrados, Marcina e eu assistimos  cerimnia simples, onde a dor estava presente no rosto dos familiares. Tamira andava de um lado para 
outro, alegre, gostando do movimento.
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- Marcina, vou embora, e voc deve ir descansar. Maria e as mulheres da Sant'Ana ficaro aqui para ajud-la e tambm estaro aqui meus homens, que me avisaro se 
alguma coisa acontecer. Mandarei vigiar a estrada para que no tenhamos surpresas. Procure ficar tranqila, voltarei amanh.
- E se meu pai morrer, Jorge?
- Ocultaremos. Dr. Alfredo s vir amanh  tarde, ganharemos tempo at Joo chegar. Se ele morrer, no diga a ningum.
- Voc  inteligente, Jorge, estamos mentindo, mas, enquanto pensarem que meu pai est bem, ningum vir aqui sem ser chamado. Obrigado por tudo. Jorge.
Deixei Marcina dentro de casa, sa, chamei meus homens e dei ordem para que ficassem atentos, descansassem fazendo rodzio de guarda e que cuidassem de Marcina. 
Chamei Jos, o negro que me acompanhara, falei que ia descansar em minha casa, para que recomendasse aos outros calma. Ele tranqilizou-me, dizendo que todos estavam 
calmos e que no queriam mais lutas, que no partiria deles novo confronto.
Estava cansado. Ao chegar em casa, coloquei meus homens de guarda na estrada, com ordem de avisar-me se vissem algum passar para ir  Morro Vermelho.
Confiava em Deus e pedia que ningum fosse ver o que se passara. Tnhamos a nosso favor o gnio forte do Coronel Francisco, conhecido de todos, que no hesitava 
em expulsar visitas incmodas. Ao entrar no ptio, vi Lencio na varanda, esperando-me.
- Sinhozinho Jorge.
- Lencio, que faz aqui?
-  que soube o que se passou na Morro Vermelho e vim perguntar-lhe, preciso ainda ficar escondido?
- A denncia de fuga no foi retirada Lencio. podem peglos. O delegado pode vir aqui e lev-los. Volte ao esconderijo e esperem um pouco mais, no necessitam ir 
embora, mas, at que Joo volte e tire a denncia, h recompensa pela captura de vocs e podero vir peg-los, e eu, ser taxado de cmplice.
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VERA LCIA MARNZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS Vamos poder morar aqui?  bom demais! L ficaremos at que o sinhozinho mande chamar-nos. Boa-noite, sinhozinho!
Saiu pulando de contente.
Mame e as meninas esperaram-me, contei tudo a elas. Aps tomar um banho e me alimentar, deitei e adormeci logo. Acordei cedo. Aps o desjejum, dei ordens a meus 
homens e reparti a guarda, pois queria a estrada vigiada o tempo todo. Fui para junto de Marcina.
Encontrei-a com aspecto melhor, mais descansada. Os negros pareceram-me calmos, uns faziam o trabalho urgente, outros montavam guarda.
Marcina veio ao meu encontro:
- Meu pai no parece bem, Jorge. No se mexe, no fala, abriu os olhos, parece acompanhar-me com eles. Est to estranho!
- Se abriu os olhos  bom sinal, Marcina, veremos o que o dr. Alfredo dir.
Conversei com Marcina, animei-a e fomos ver os feridos. O empregado ferido s no brao direito, estava bem, nenhum negro apresentava gravidade, reagiram bem ao medicamento 
do dr. Alfredo e de Maria. Esta, tranqila, com bondade, cuidava deles. Olhei-a com admirao e ela sorriu-me:
- Sinhozinho Jorge, gostaria de ficar at que no necessitassem mais de mim.
- Est bem, Maria, fique o tempo que quiser, cuide dos feridos.
-  mais fcil cuidar dos feridos do corpo do que os da alma, sinhozinho!
- Acha, Maria, que eles podem se rebelar novamente?
- Se agirem com justia com eles no, mas, se usarem violncia...
- Tomei todas as providncias para evitar, Maria, at menti, espero conseguir.
- O sinh  inteligente, um chefe que sabe dominar sem violncia. Conseguir.
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- Acha que o Coronel Francisco vai morrer, Maria?
- No. creio que ficar muito tempo no corpo enfermo. Deus est lhe dando oportunidade para que se arrependa de seus erros.
- Aceito seus conselhos, Maria, pode dar-me? s vezes, no sei bem como agir.
- Nada deve ser feito, esperemos Joo chegar, os escravos confiam nele.
Suspirei, temia que o delegado reunisse homens e viesse avaliar a situao na Morro Vermelho, o que pioraria as coisas. Certificando-me de que estava tudo realmente 
sob controle voltei  Sant'Ana e dei ordem para chamarem-me quando dr. Alfredo ali passasse.
Em Sant'Ana nem tudo estava calmo, todos temiam nova rebelio na fazenda vizinha e pelos meus homens que l estavam.
A tarde quando avistaram dr. Alfredo vieram chamar-me, fui esper-lo e segui com ele at a Morro Vermelho.
- Jorge, logo que regressei ontem  vila, minha casa se encheu de visitas, todos queriam saber o que se passava na Morro Vermelho. Acreditaram em mim, contei do 
modo que me pediu. At o delegado desistiu de vir aqui sem permisso do Coronel Francisco.
- Obrigado, dr. Alfredo, assim evitaremos mais mortes. Temo por Marcina que no quer deixar a fazenda; num ataque podem mat-la.
Ao chegarmos, dr. Alfredo examinou todos os feridos, achando-os bem. menos o coronel que, segundo ele, melhorava muito pouco, podendo morrer a qualquer momento.
Ia ver Marcina duas vezes por dia, no tinha novidades, e todos esperavam a volta de Joo. Passaram-se trs dias. sempre vigiando a estrada, e alegrei-me quando 
vieram avisar-me:
- Sinh Jorge! Samuel, Tio e sinh Joo descem o morro, logo estaro aqui.
Fui esper-los na estrada.
Ao ver-me, Joo alegrou-se, cumprimentamo-nos. Estavam cansados, pois vieram o mais rpido que podiam.
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
- Tio e Samuel, vo para Sant'Ana descansarem, acompanho Joo.
No caminho, contei tudo a ele, escutou-me silencioso:
- Joo, voc  o nico varo da famlia, cabe a voc assumir e pode contar comigo. Est desarmado? Quer uma de minhas armas?
- No, Jorge, no uso armas nem vou us-las. No quero domin-los pela fora. Se no conseguir pelo bem no quero impor violncia. Como pedir que larguem as armas, 
se estiver armado? Obrigado por tudo o que nos fez Jorge, por ter ajudado Marcina e evitado mais mortes. Nunca esquecerei sua ajuda e me espelharei em voc, agindo 
com justia.
Ao verem Joo chegar, os negros reuniram-se no ptio. Marcina e Tamira vieram abra-lo. Ele beijou as irms com muito carinho. Calmamente, subiu os degraus da varanda 
e falou aos negros, fazendo questo de mostrar que no estava armado.
- Estou assumindo a direo da fazenda, entristeo-me com os acontecimentos aqui ocorridos. No quero culpados, no quero castigos, no quero escravos, quero trabalhadores 
vivendo com dignidade. O que passou, passou. As mortes j foram suficientes. Mudarei o nome desta fazenda, Morro Vermelho j no existe mais. Vermelho foi como o 
sangue derramado que deve ser esquecido. Comearemos vida nova com dignidade, justia, trabalho, lazer, e deveremos pensar que nascemos todos agora com Santa Luzia. 
Assim se chamaro estas terras, Santa Luzia, o nome da Santa que, tendo seus olhos arrancados pela maldade humana, nasceram-lhe outros pela bondade de Deus. Fazenda 
Santa Luzia renasce pela bondade de Deus com nova forma de vida. Recomearemos no falando mais do passado. Esqueamos quem fez, quem matou nesta revolta. Todos 
ns ficamos feridos, ou no corpo, ou na alma, curemo-nos com o esquecimento e com o perdo recprocos.
Joo fez uma pausa, todos estavam emocionados, falava com muita sinceridade, continuou:
- Jorge, meu amigo, peo ajuda para refazer Santa Luzia, quero construir casas, uma para cada famlia, e a senzala ser um
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barraco, um lugar de lazer e festas. E vocs, negros de Santa Luzia, tero a vida que tanto invejaram dos escravos de Sant'Ana: boa alimentao, dias de descanso, 
suas festas, roupas. Pedirei ao dr. Alfredo para cuidar de vocs, restituindo-lhes a sade. Castigos, nunca mais! Santa Luzia ser aberta, aqui ficar quem quiser 
ou ento poder ir embora, que no darei queixas. E confiem, fiquem, e os que fugiram podero voltar quando quiserem. No estou armado, no usarei armas, no me 
interesso por elas e vocs se quiserem coloquem-nas no canto da varanda. Armas ferem, matam, causam dores. Se renascemos, as armas que deveremos ter so a esperana 
e a vontade de sermos felizes!
Joo calou-se, deu por findo seu discurso. Os negros cochicharam, depois, todos juntos, levantaram as mos e gritaram:
- Viva sinhozinho Joo! Viva sinh Marcina! Viva Coronel Castro!
Ns trs sorrimos, eu disse a eles:
- Ajudaremos. Estaremos presentes na reconstruo de Santa Luzia. A comear, refaremos a pequena ponte na curva de cima, encurtando caminho entre as duas fazendas, 
agora amigas. Espero que todos vocs sejam felizes!
Estavam confiantes e animados. A esperana, esta companheira to doce, estava presente e o que eles mais queriam era serem tratados como os escravos de Sant'Ana. 
Fugir no seria a soluo para escravo nenhum e eles sabiam disto; alcanar um quilombo no seria fcil, acabariam capturados e voltariam em situao pior, e nos 
quilombos, estavam sempre sendo atacados. Sabiam tambm que ter carta de alforria no lhes trazia facilidades: para comer tinham que trabalhar e dificilmente se 
dava trabalho para negros. Depois, nem sempre essas cartas eram respeitadas, sabamos de casos em que elas eram rasgadas por homens brancos e que os faziam escravos 
novamente. No era fcil estar vivendo num corpo de cor negra. Ali juntos, com familiares e amigos, a esperana brilhava para eles com a simplicidade e sinceridade 
de Joo, um moo sem maldades. sem ambio, com vontade de ser feliz e que todos tambm o fossem.
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Entramos ns trs, Joo olhou os feridos e convidou-nos, Marcina e eu, para ir ao escritrio do pai. Abriu as gavetas trancadas de uma escrivaninha, achou os documentos 
e dinheiro, boa quantia em dinheiro.
- Com este dinheiro, ganho com o suor deles, usarei para que sejam felizes e que tenham uma vida mais confortvel.
- Joo - disse Marcina -, que bom voc ter mudado o nome da Fazenda para Santa Luzia, porque Luzia era o nome de mame!
- Nossa me, Marcina, merece esta homenagem e tenho certeza de que ela nos ajudar a fazer desta fazenda um lugar de paz e justia.
Um dos meus homens chegou interrompendo-nos aflito!
- Sinh Jorge, vim avis-lo que o Coronel Gervsio e seus homens, vm para c; j descem o moro de Sant'Ana.
- Deixem-no passar e faa com que pense serem vocs homens do Coronel Francisco. Acompanhem-no, tratem-no com respeito.
Meu empregado saiu rpido a cumprir minhas ordens.
- Joo, no devemos deixar o Coronel Gervsio desconfiado,  amigo do seu pai e igual a ele; se no receb-lo,  capaz de atacar-nos, melhor ser receb-lo e muito 
bem. Devo esconderme, meus homens sero seus, aja com naturalidade. Certamente, ficou sabendo o que aconteceu e veio se certificar. Lucas era noivo de sua filha, 
deve estar querendo notcias.
- Tem razo, Jorge, vamos receber o Coronel Gervsio. Chamei Nrcio:
- Nrcio, explique aos negros que devemos receber uma visita, o Coronel Gervsio, um senhor de outra vila que aqui vem s de passagem, para agirem como se nada houvesse 
acontecido. Nrcio, meus homens sero de Joo, ajam como empregados de Joo.
Nrcio saiu rpido e olhei para Marcina.
- Marcina, o Coronel Gervsio no deve ver os feridos na sala. No tem outra entrada?
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- H a porta do Salo Verde, onde recebemos visitas importantes. Fecho a porta da sala, peo-lhes para que fiquem quietos e receberemos o coronel e seus homens na 
outra sala. vou providenciar rpido. Venha comigo, Jorge, ficar no meu quarto.
O quarto de Marcina - uma das suas janelas dava para a varanda do lado esquerdo da casa - era simples, parecia com ela, tinha seu perfume. Ali, fiquei ansioso. Escutei 
chegarem. O Coronel Gervsio falava alto e grosso, entrecostado na janela, ouvia-os.
Cumprimentaram-se.
- Seu pai est bem guardado, bons homens, boas armas? Onde est ele? Posso v-lo?
Joo respondeu calmamente:
- Obrigado, Coronel Gervsio, disponha se precisar do nosso pessoal. Meu pai dorme no momento, sofre muito com a morte de Lucas, est muito nervoso, por isso dr. 
Alfredo deu-lhe calmantes.
- No me parece doente, menino Joo.
- No estou, Lucas mentiu porque se apaixonou por Marta, por querer muito meu irmo, cedi-lhe a noiva.
- Ora, ora, no precisavam mentir. Marta est inconsolvel com a morte do noivo. Conta-me, menino Joo, o que se passou aqui. Pensei encontrar a fazenda em p-de-guerra.
- Falatrios Coronel, falatrios. Estamos de luto pela morte do nosso querido e estimado irmo, sofremos muito. O que aconteceu, Coronel Gervsio, foi que uns escravos 
se aproveitaram da viagem do papai, conseguiram se soltar atacando Lucas e uns empregados de surpresa, houve algumas perdas e, infelizmente, nosso Lucas morreu.
- E os negros?
- Enterrados Coronel, enterrados.
- bom castigo enterr-los vivos.
- Venha Coronel, tomemos um lanche.
No escutei mais, Joo saa-se muito bem. Uma hora depois, Marcina veio ver-me:
- Jorge, s mais um pouco, o Coronel Gervsio j vai embora, ficar esta noite na nossa casa na vila; Joo deu a entender
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que h muita tristeza aqui para hosped-lo. Viu meu pai e, graas a Deus, papai dorme tranqilo e o coronel gentilmente no quis acord-lo. Tremi o tempo todo pensando 
se ele quisesse acord-lo! Parece que acreditou. Volto a eles, espero que v embora agora. Logo aps, ouvi conversas na varanda:
- Joo, se precisar de alguma coisa  s avisar. No esquea de falar da minha visita ao Francisco. E espero que voc v nos visitar e conhecer minha Marta.
- Coronel Gervsio, agradeo sua considerao, sua preocupao e sua visita. Sentimo-nos honrados com sua ateno. Iremos visit-los, papai se distrair em sua agradvel 
companhia. Nossa casa na vila os abrigar pelo tempo que quiser, embora no estejamos l. Disponha dela, Coronel, como sua. At  vista, boa viagem.
Escutei partirem e sa para encontrar com eles na sala.
- Jorge - disse Joo -, acho que conseguimos convenc-lo, pensou que seus homens fossem de meu pai, e s desconfiou um pouco de ver meu pai dormindo. Espero que 
no volte mais.
- Pareceu-me entusiasmado em cas-lo agora com Marta disse Marcina.
- Tambm percebi, vamos deixar que pense,  melhor por enquanto t-lo como amigo.
- Joo, deixo meus homens aqui, continuo a guardar a estrada, o delegado pode querer vir aqui.
- Jorge, agradeo-lhe muito. No necessita deixar ningum aqui, devemos recomear, confiando. Quanto a guardar a estrada,  prudente. vou agora  vila, vou falar 
com o delegado.
-  melhor, assim no ter a infeliz idia de vir aqui. e j que vai falar com ele, peo-lhe que retire a denncia da fuga das escravas.
- Foi voc, Jorge? Desconfiava e alegro-me de que tenha feito aquele resgate. Retiro a denncia sim e desde j esto livres. Jorge, por favor, pea a Glorinha para 
ir amanh encontrar-se comigo, na mesma hora e local.
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- No necessitam mais esconder-se, Joo.
-  s desta vez, Jorge, quero falar-lhe, rev-la, estou saudoso!
- Est bem, s desta vez...
Partimos, escolhi seis dos meus homens para acompanhar Joo at a vila e fui para casa.
No outro dia, Joo contou-me o que conversou com o delegado, garantiu que o pai estava bem e que havia castigado os negros revoltosos e que fizera amizade com os 
Castro, por terem ajudado. E que seu pai na viagem achara as negras que fugiram e que retirava a denncia da fuga. O delegado achava ruim no ter sido chamado para 
ajudar e concordou em deixar o Coronel Francisco agir como quisesse, pois os negros eram dele.
O Coronel Gervsio pernoitou na vila e depois foi embora. Dr. Alfredo dizia a todos que o Coronel Francisco estava tendo crises nervosas, agitando-se muito, que 
necessitava descansar e que no deveria receber visitas.
No outro dia, abrimos a passagem entre Santa Luzia e Sant'Ana, encurtando o caminho. Estvamos em poca de pouco servio no campo, e como no necessitasse mais de 
guardas, deixei-os  vontade para irem ajudar os companheiros da fazenda vizinha e foram muitos a ir.
 tarde fui visit-los.
Os escravos no estavam mais armados; no canto da varanda foram deixadas as armas. Os negros estavam entusiasmados e quase todos os que fugiram, voltaram. Joo marcava 
o local onde se construiriam as casas. Veio ao meu encontro.
- Joo, prometi a um negro que morreu, cuidar de sua famlia, se no se importa, levo-os para Sant'Ana.
- J me contaram o fato, Jorge. Vamos deixar que a mulher escolha; se quiser ir, pode lev-la, se no quiser, ficar aqui, no quero forar ningum em Santa Luzia. 
vou mandar cham-la.
Logo a mulher veio at ns e me disse humilde:
- Coronel, se no importa, quero ficar. Aqui tenho meus pais, parentes e sei que seremos felizes.
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- Est bem, se necessitar de alguma coisa, procure-me. Dr. Alfredo acabava de examinar o Coronel Francisco, chamou-nos e deu a notcia.
- O Coronel Francisco foi ferido na coluna vertebral, ficou imobilizado. No corre mais perigo de morrer, porm no andar mais e no conseguir se mexer. Entende 
tudo, ouve e enxerga. No consegue falar, no sei o porqu, no encontro nada de fsico, acredito que seja um traumatismo.
- Ele se recuperar, dr. Alfredo? - quis saber Marcina.
- No, Marcina, seu pai ficar para sempre invlido.
No houve comentrio, e nos sentamos aliviados. O Coronel Francisco no voltaria  direo da fazenda e Santa Luzia poderia renascer em paz.
Aps dr. Alfredo ter ido embora, Joo disse-me:
- Jorge, prometi a todos que tm seus familiares separados por meu pai, tentar recuper-los. Ser que me cederia Manuel para fazer isto por mim?
- Com prazer, escolheu bem. Manuel  bom, sensvel e honesto, pode deixar com ele, ir atrs de todos e saber com preciso adquiri-los. Ficar feliz em fazer isto 
para voc e poder comear amanh.
Com a denncia retirada, mandei buscar Lencio e famlia do esconderijo, ficariam nas minhas terras, j que desejavam tanto nelas permanecer.
J era de tardezinha, estava na varanda, muitos voltavam do trabalho, quando Lencio e os seus chegaram, vinham contentes.
- Sinhozinho - disse Lencio -, posso falar-lhe?
- Sim - disse descendo os poucos degraus da varanda, indo at o ptio.
- Podemos ficar morando aqui?
- Sim, podem, Joo retirou a denncia e podem escolher, ficar aqui, ou l.
- Ficaremos aqui, queria pedir se posso casar com Jurema.
- Por mim, tudo bem, case e que sejam muito felizes, deve entretanto pedi-la ao pai dela.
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- Ele j concordou. Sinhozinho, o sinh s me fez o bem, devo-lhe tanto. Deus lhe pague. Serei fiel at a morte.
Num impulso que no pude evitar, Lencio pegou minha mo e beijou-a. Ia ralhar com ele, pois nada fizera que me privasse de algo. Ajudara no que estava ao meu alcance. 
E vieram rpido em minha mente os dizeres do Mestre Jesus: Quando fizerdes tudo o que devereis, dizei: Sou servo intil. E tinha feito to pouco! No deveria, entretanto, 
sufocar no corao daquele esprito um dos sentimentos mais nobres que existem: a gratido. Lencio me era grato, reconhecido. Lembrei que um dos dez leprosos voltou 
para agradecer a sua cura a Jesus, pois ele realmente ficara curado, no s do corpo, tambm do esprito. No, no deveria ralhar com aquele negrinho que surgiu 
na minha frente logo que retornei ao Brasil. No teria sido eu um dos instrumentos divinos para ajud-lo? Fizera pouco, ele fizera mais, porm sabia ser reconhecido. 
A gratido  uma prola muito valiosa, tesouro do corao. Em vez de dizer algo, coloquei a mo direita em seu ombro e deilhe umas palmadinhas amigveis.
Olhei para ele, seu rosto estava molhado de lgrimas; emocionado tambm, senti os meus lacrimejantes:
- Que bonito! - exclamei. - Dois heris corajosos, choramingando como mulheres! Ora, vamos! Trate Lencio de arrumar a casa para os seus e construir outra para voc 
e Jurema. A alguns passos de ns, Tereza e os filhos, j com bom aspecto, observavam-nos emocionados, choravam, olhando-me agradecidos. Senti a energia que me lanavam, 
fluidos de gratido de bem-aventurana. Muitos dos empregados, escravos que os  acompanhavam, contemplavam-nos. Senti que alm do respeito, admirao, olhavam-me 
com carinho, com amor. Sorri para eles: espontneos, todos sorriram. Eram felizes. Captulo XIII PAI TOMS
Em Santa Luzia, o entusiasmo tomava conta de todos; o trabalho de reconstruo ia muito bem. O Coronel Francisco continuava do mesmo modo e inmeros comentrios 
se faziam em torno de sua sade: ora que fora ferido, ora que estava tendo crises nervosas, que sofrer um derrame, que no estava bem mentalmente com a morte dos 
dois filhos. Poucos amigos da vila se aventuraram a ir visit-lo e foram recebidos por Joo e Marcina, que explicavam que o Coronel Francisco dormia com medicamentos 
do dr. Alfredo.
Joo trabalhava muito, no tinha se encontrado com Glorinha mais, e esta reclamava. Tambm, diminui as visitas a Santa Luzia, no queria interferir no que Joo fazia, 
e assim ia l s para ver Marcina.
Todos sabiam, nas duas fazendas, do nosso amor, menos mame. Ela sempre sabia de tudo o que acontecia pela redondeza, mas, desta vez, ningum tivera coragem para 
dizer-lhe que Marcina e eu namorvamos. Nem eu. Rodeava-a muitas vezes com a inteno de falar-lhe e acabava perdendo a coragem. Estava preferindo at que contassem 
a ela, pois seria mais fcil confirmar. Ela j no estava to zangada com Glorinha, que no estava mais no quarto e voltara a tomar as refeies conosco. Mame evitava 
falar no assunto, dizendo que no se interessava por esse casamento.
Quase um ms se passou desde que Joo voltara. Estava uma tarde no curral, quando um dos meus homens veio avisar-me de que Abelardo, ex-noivo de Glorinha, pedia 
permisso para visitar-nos.
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- Deixa-o entrar, avise mame! - aps sua sada, disse a Nrcio, que me acompanhava no trabalho de vistoria dos animais:
- Que ser que este sujeito quer? Ser que est interessado novamente em Glorinha?
- Sinhozinho, a menina Glorinha  capaz de atirar nele!
- Ser? E melhor irmos, Nrcio. Vamos ver o que Abelardo quer.
Logo que samos do curral, vimos Abelardo na charrete, trazia um bonito ramalhete de flores. Mame o recebeu na varanda e entraram em casa. Nrcio e eu, rimos.
- vou entrar, Nrcio, se as flores forem para Glorinha. ela  capaz de jog-las na cabea dele.
- O que ser merecido! Entrei.
- Jorge, Abelardo est aqui e conversa com sua irm na saleta - disse mame. - Tomara que fiquem noivos novamente.
- Mame, noivar novamente com este traidor? Quando nos julgou fracos, caiu fora, agora que lhe parece tudo bem, volta novamente?
-  prefervel ele ao filho do Coronel Francisco!
Nada mais respondi, no dava para comparar Abelardo com Joo. A porta da saleta estava aberta, entrei. Abelardo estava sentado e Glorinha em p encostada na mesa, 
e o ramalhete em cima desta. Cumprimentei-o friamente.
- Jorge - disse Glorinha -, Abelardo veio visitar-me.
Nada disse, encostei do outro lado da mesa, cruzei os braos, observei Abelardo. Pareceu-me muito antiptico, muito arrumado, parecia que ia a uma festa. Olhou-me 
e sorriu, falou afetado, querendo parecer importante e muito educado:
- Jorge, que bom que voc veio at ns; ia falar a Glorinha,  melhor que escute tambm. Vim para reatar o noivado, foi uma imensa bobagem ter terminado, arrependo-me 
profundamente porque descobri que a amo demais e quero casar-me com ela. Seu pai, Coronel Castro, j dera sua permisso e certamente voc, Jorge, agora no seu lugar, 
permitir que reatemos o compromisso.
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- Abelardo, se havia um compromisso, voc o desfez lembro-me muito bem. Naquele dia mesmo disse s minhas irms que no interferiria na vida delas. No  a mim que 
deve perguntar mas, sim,  interessada.
Glorinha estava sria, colocara as mos na cintura, deixando bem a mostra sua garrucha. Abelardo insistiu:
- Jorge, voc  o varo da famlia, elas lhe devem obedincia.
- Senhor Abelardo, j disse que no cabe a mim refazer este compromisso. Glorinha j  bem crescidinha e saber decidir, j que se trata da vida dela.
Vendo no conseguir nada comigo, ele dirigiu-se a minha irm.
- Glorinha, vamos reatar nosso noivado? Casaremos logo. Senti muito sua falta e...
- Senhor Abelardo, no quero o senhor nem para noivo e muito menos para marido. Agora que tem minha resposta, saia da minha casa!
- Olhe aqui, menina, isto no  jeito de tratar-me...
- E por que no? Trato voc como quero. E aqui esto suas flores - jogou-as na cabea dele. - Faa o favor de sair, se no, chamo os jagunos!
Abelardo olhou para mim, sorri-lhe. Pegou seu chapu e saiu furioso. Glorinha e eu camos na risada.
- Que aconteceu? - entrou mame na saleta. - Abelardo passou por ns, nem se despediu...
- Glorinha jogou as flores na cabea dele.
- Menina, que modos! Parece no ter educao? E voc, Jorge, ri?
- Mame - disse-lhe -,  certo que Glorinha no foi l educada, temi que ela lhe apontasse a garrucha. Abelardo mereceu, desfez o compromisso quando nos julgou derrotados. 
ramos na poca a parte fraca do desentendimento com o Coronel Francisco. Agiu como um rato que, com medo do barco afundar, pulou fora. Agora as coisas mudaram, 
acabaram os desentendimentos, o Coronel Francisco est  morte, estamos bem, o barco lhe parece
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firme e ele volta como um rato interessado em jantar. Os ratos devem ser enxotados. No o quero mal, tenho pena dele, mas Glorinha lhe devia esta.
- Se minhas amigas souberem da grosseria desta menina, morro de vergonha!
- E quem vai dizer a elas? Ele? Duvido! Rimos, mame acabou rindo tambm.
No outro dia, Tio, o escravo da Santa Luzia, veio avisarnos que Joo e sinh Marcina viriam visitar-nos. Tio parecia outro, bem vestido, limpo, cabelos cortados 
e muito feliz.
Glorinha e eu ficamos muito felizes com a notcia da visita, pedi a Joana que arrumasse bem a casa, colocasse flores na sala e preparasse licor e docinhos.
Vim a saber tambm que havia muitos amores entre os escravos das duas fazendas, apesar das proibies e das cercas, e que agora estavam felizes pensando em unir-se, 
e Joo e eu combinamos que a moa iria para a fazenda a que o moo pertencia.
Manuel sentia-se realmente realizado com a tarefa que Joo lhe pedira. J havia adquirido quase todos que, por maldade, o Coronel Francisco separara dos seus.
Na hora combinada, os dois chegaram, esperei-os na varanda. Mame, embora aborrecida, fora educada. Aps os cumprimentos entramos na sala e, por meia-hora, a conversa 
foi sobre o tempo, o trabalho em Santa Luzia. At que comentamos a visita de Abelardo. Rimos, e Joo aproveitou:
- Este fato alerta-me e no devo esperar mais. Glorinha  muito linda, tentao para muitos solteiros. D. Catarina, Jorge, quero oficializar nosso compromisso e 
peo a permisso para casarmos o mais depressa possvel.
Mame nada disse, coube a mim responder:
- Tem a nossa permisso, sei com certeza que sero felizes. Aproveito que estamos todos presentes para pedir a voc, Joo, a mo de Marcina em casamento.
Pluft! Mame caiu desmaiada! Carlota. Joana correram a segur-la. Nrcio pegou-a e a levou para outro quarto. Brbara correu para chamar Maria.
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
- Oh, Jorge! Sua me no ir aceitar-me!
- Foi emoo, somente. Quando ela a conhecer melhor, amar como eu a amo. No se preocupe, no  nada srio, acontece com ela sempre estes desmaios. Ento, Joo, 
no me respondeu?
- Jorge, respeito-o muito, e quero-o como a um irmo. Entrego-lhe Marcina, com a certeza de que a far to feliz, como eu  Glorinha.
Brindamos  nossa felicidade! S ns quatro estvamos na sala, fizemos nosso brinde, estvamos felizes.
Combinamos casar juntos, em janeiro, logo aps completar um ano da morte de meu irmo Jos.
Mame no veio se despedir deles, Marcina ficou sentida, mas animei-a afirmando que mame a aceitaria e que seriam muito amigas.
No outro dia, mame no saiu do quarto e no quis receberme, fiquei muito aborrecido. No veio tomar as refeies conosco, na hora do almoo. Carlota disse-me que 
mame estava muito triste e que dissera que ia morar com ela, quando casasse.
Nem acabei meu almoo, fui para a varanda, no queria magoar assim minha me e tambm que sasse do seu lar por nossa causa. No sabia o que fazer, lembrei-me de 
Pai Toms. Deveria agradecer-lhe por ter ajudado a esconder Lencio e famlia e lhe devia uma visita; no fora v-lo desde meu regresso.
Pedi a Nrcio meu cavalo e fui sozinho visit-lo.
A cabana em que morava parecia do mesmo modo, era uma casinha simples, com flores e plantas  sua volta. Sem descer do cavalo, bati palmas e uma voz harmoniosa respondeu 
de l de dentro:
- Sinhozinho Jorge, pode descer, entrar.
Desci do cavalo e ento vi-o na porta, pareceu-me o mesmo de anos atrs, nada diferente nem mais velho. Pensei: "Bem que diziam que Pai Toms no envelhece, ningum 
sabia com certeza informar a idade dele".
- Boa-tarde! >
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Cumprimentamo-nos sorrindo e ele como se lesse meus pensamentos, respondeu-me:
- Os anos passam para mim tambm, sinhozinho, s que no me preocupo com eles, nem eu sei minha idade! Entre, sinhozinho, sente aqui para conversar em paz.
A casa tinha trs cmodos; onde sentei era o lugar em que recebia as pessoas, outro onde dormia, e o ltimo a cozinha. Tudo muito limpo, muito simples.
- Tenho s o essencial, necessito de to pouco - sorriu, pelo jeito ele adivinhava meus pensamentos e espantei-me quando disse: - No, sinhozinho, no adivinho pensamentos, 
isso  o que todos pensam ao ver minha casa. Est, sinhozinho Jorge, aborrecido com a sinh sua me? Ela sofre, queria o melhor para voc e acha que ser infeliz 
com sua escolha!
Suspirei, estava realmente triste, olhei-o bem e falei com voz sentida:
- s vezes penso, Pai Toms, que estou errando muito, que no fao nada certo, no queria ver os meus sofrerem, ainda mais por minha causa. Sonhei com outra forma 
de vida para mim e de repente me encontrei diante de tantas responsabilidades para as quais no estava preparado!
- O sinhozinho tem se sado muito bem, no deve se preocupar assim! Sinh Catarina  boa e ama tanto os filhos, por que no conversa com ela? Por que no lhe diz 
dos seus sonhos, seus planos, o tanto que sentiu ao tomar conta de Sant'Ana. Fale  sua me de sua preocupao com o bem-estar de todos, fale o que lhe vai n'alma, 
do seu grande amor pela menina Marcina. Ver que acabar compreendendo.
- A vida  estranha, no , Pai Toms? Jos, sim, sabia tomar conta de tudo com sabedoria. H tanto tempo, o senhor, aqui mesmo, disse que ele partiria logo.
- O sinhozinho Jos no veio para ficar muito. Foi bom administrador.
- Era to inteligente, no sei como no pensou que o Coronel Francisco pudesse tocai-lo.
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- Era inocente, no pensou que pudesse algum ser to mau! Repito, foi ele bom administrador das coisas de Deus.
"Qu? Administrou coisas de Deus? Para mim, quem administrava coisas de Deus era o padre. Jos foi muito religioso, Pai Toms se confundiu" - pensei e ia corrigi-lo 
quando ele disse:
- Sinhozinho Jorge, a Terra, tudo o que existe nela, o Universo e seus astros, tudo  obra do Pai, tudo pertence ao Criador, at ns. Muitos se julgam donos. Donos 
de qu? De terras, casas, engenhos, de outras pessoas? Moramos aqui por pouco tempo e o que levamos? Nada disto, voltamos s com o que nascemos, com o aprendizado 
que fizemos. No somos donos de nada, na verdade, somos administradores das coisas, das obras do Pai. Sinhozinho Jos sentiu isto e foi um bom administrador. Tanto 
 verdade, menino Jorge, que quando seu corpo morreu, Jos se sentiu livre e partiu feliz.
Olhava com ateno para Pai Toms, pensava, era bem sbio, tinha grandes conhecimentos, ele que era um ex-escravo e que nem sabia ler. Arrepiei quando, calmamente, 
ele disse:
- No podemos julgar os conhecimentos de uma pessoa s pela vida atual, sinhozinho. No sou nenhum sbio, sou negro, fui escravo, por uma necessidade de aprendizado 
na humildade, mas nem sempre fui assim. O que sei, aprendi pelo esprito, fato que o sinhozinho pode comprovar. No v o sinh os espritos?
- De fato, vi Jos feliz e meu pai bem triste!
- Sinh Joaquim foi bom, tanto que, quando seu corpo morreu, ex-escravos dele vieram ajud-lo e encaminh-lo para lugares bons. Sinh Joaquim era orgulhoso de ser 
bom. Orgulhava-se do bem que fazia, amava mais a terra que o reino dos Cus. Sentiu-se dono, no administrador. L, inquietou-se pelas coisas que julgava serem suas, 
sentiu-se preso a elas e voltou. Sofreu, vagou por a, como dono inconsolvel por ter de deixar tudo. Agora que entendeu, acha-se bem. Isto  comum, sinh Jorge, 
muitos julgam-se donos das coisas de Deus, so escravos, so possudos pelo que julgam possuir, e aos bens materiais ficam cativos.  grande a prova da riqueza e 
muitos sucumbem. Vivem na Terra, so
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homens brancos, livres da escravatura que a lei impe aos negros e, em vez de administrar a riqueza contribuindo para o bem de muitos, tornam-se escravos do que 
julgam possuir.
- Se  assim, ser negro, escravo no  to ruim, como pensam - disse, e Pai Toms continuou a elucidar-me calmamente:
- Deus d todas as oportunidades de aprender conforme necessitamos. Sinhozinho Jorge, muitos nada tm para administrar, so at escravos, mas no so livres como 
pensa. So cativos pelo desejo de ter, so possudos pelo desejo de possuir. So os invejosos, sinhozinho; o desejo  tanto de possuir, de ter, que so duas vezes 
cativos. Poucos so os libertos, no tm o desejo de ter, e se tm, sabiamente administram e entendem que tm o poder transitrio, que um dia deixaro, tm que deixar, 
nada  deles, sim de Deus. E o bom administrador  aquele que tudo faz para que o maior nmero de pessoas usufruam do que administra. Entenda bem, sinhozinho Jorge, 
 to jovem e tem nas mos o poder sobre muitos, dependendo do sinh para viver aqui no corpo, para viver bem ou mal. Tem muito dinheiro e, se agir como sbio, administrar 
no deixando se prender, porque nada  do sinh. Um dia partir, seu corpo morrer e no levar nada disto, pois at seu corpo ficar, nem este  do sinh, porque 
este no lhe obedecer. Sei que  bom, sinto grande bondade no seu esprito e tem dois exemplos para seguir: o do seu irmo Jos, administrador sem se deixar possuir, 
e livre, e do seu pai que ficou cativo pelo que julgava possuir!
Parou de falar, fiquei pensando no que ouvira, nos seus sbios ensinamentos. Sorriu para mim e serviu-me um ch cheiroso e apetitoso.
Senti-me muito bem ao lado dele, aquela simples cabana dava-me paz.
- Pai Toms, estas terras so to lindas e  triste v-las em abandono, s o senhor e os fantasmas vivem aqui.
- So lindas e frteis, gosto muito daqui. Est errado, sinhozinho, os fantasmas foram embora, s eu vivo aqui. Dos espritos que aqui estavam, uns foram embora, 
cansaram, perdoaram, outros, rancorosos, foram atrs do coronel que abandonou o corpo.
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
- O coronel morreu? Como sabe?
Sorriu diante das minhas indagaes, respondeu-me falando sempre calmamente:
- O coronel morreu, sim, foram os espritos dos negros que me avisaram. Foram vingar-se dele, a quem no perdoam. Ligados ao dio, as terras os prendem, eles sofrem, 
mas fazem sofrer. Se temos sentimentos ruins, somos escravos deles, o perdo e o amor nos liberta. No quiseram escutar-me e foram atrs do coronel.
- Fala dos negros, mas morreu o casal, a esposa e o amante.
- No foram amantes, nada fizeram, naquela poca, de errado, de condenvel, no traram. Amavam-se,  verdade, amor forte de muitas existncias, tiveram que sofrer 
a separao para aprender a amar com honestidade, conseguiram. Sofreram muito, tiveram os corpos mortos em grande sofrimento, perdoaram e pediram para renascer, 
ter novos corpos e a esto...
Enquanto falava, vi muitas cenas, um casal jovem e bonito a se olhar, vi os dois amarrados, o fogo. Quase gritei, reconheci-os:
- Carlota! Pedro!
- Sinhozinho sabe muito das coisas e entende porque sei delas. So os meninos, sua irm sinhazinha Carlota e o bom sinh Pedro, que voltaram amando-se novamente. 
Esto tendo algumas dificuldades para ficarem juntos. E estas terras, sinhozinho, ficaram abandonadas depois dessas mortes, mortes to tristes! Estas terras esto 
 espera deles para haver novamente alegria; aqui foram injustiados e aqui devero ser felizes. Seriam bons administradores e, com eles, tudo voltaria a sorrir.
- Ah! Se pudesse compr-las! Doaria a eles, seria bem merecido.
- Um dos filhos do coronel est vindo para c. Se o sinh oferecer preo justo, comprar estas terras, eles querem vend-las.
Alegrei-me, levantei-me e despedi-me dele, sentindo-me bem mais animado. J montara no cavalo, quando lembrei de que no agradeci e gritei: Pai Toms!
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191 De nada, meu filho, de nada, foi um prazer acolher a famlia do menino Lencio aqui e conversar com o sinhozinho.
Sorri.
- Ento, Pai Toms, que Deus o abenoe. V nos visitar e, se necessitar de mim, conta como certo.
Chegara  porta, sorriu e abanou a mo, dando adeus.
Fui pensando: "Carlota a antiga senhora daquelas terras. Tinha minha irm muito medo de fogo, um medo to grande, que se apavorava ameaada com uma simples vela. 
No gostava de chegar perto do fogo, no acendia velas, preferia ficar no escuro. Quando criana, por saber que tinha medo, ameacei-a por brincadeira com um pau-de-fogo, 
ela gritou to apavorada que gritei tambm e correram todos. Papai ralhou comigo e fiquei muito aborrecido. Ningum entendia o porqu do seu medo. Agora compreendia, 
eram recordaes do passado, pois ter o corpo queimado foi uma impresso muito forte e trouxera, ao renascer, o medo do fogo. Vagas recordaes trazemos de vidas 
passadas, tantos medos, antipatias que s so explicadas com a compreenso de que o esprito volta em outro corpo, reencarna. Como tambm o amor, to forte entre 
Carlota e Pedro, Joo e Glorinha, at o meu por Marcina. Quando a revi, senti que a amava h muito, muito tempo. Amores de muitas existncias!"
Da Fazenda Assombrada fui  Santa Luzia. Achei Joo trabalhando junto com os escravos, trabalhavam iguais, estavam carregando terra, e ele estava sujo, suado e feliz.
- Joo, preciso falar-lhe.
- Jorge, que bom v-lo, venha, sentemos aqui embaixo desta rvore, aproveito para descansar uns minutos. Joo, para mim, filhos so iguais, sejam homens ou mulheres, 
devem herdar igualmente. vou repartir o que temos em trs partes. Voc me disse que Santa Luzia  de Marcina e sua. Venho propor-lhe, a parte de Marcina pela de 
Glorinha. Voc ficaria com Santa Luzia, eu com Sant'Ana.
- No sair prejudicado, Jorge? L so trs a dividir.
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS Aqui tambm h Tamira. Sabe que no  a mesma coisa. Joo, meu pai, deixou-nos com muito dinheiro, este dinheiro 
darei a Carlota. Se est bem a voc, Jorge, est para mim.
Aps conversar com Marcina um pouquinho, fui para casa, j estava um pouco atrasado para o jantar, e foi com alegria que vi Pedro e Carlota na varanda.
- Pedro! Que bom v-lo!
- Vim visitar Carlota, e d. Catarina convidou-me para jantar.
- Queria mesmo falar com voc, venha comigo  minha saleta, venha tambm Carlota.
- Pedro, vamos casar-nos, Marcina e eu, Joo e Glorinha, em janeiro, porque voc e Carlota no se casam tambm?
Pedro ficou um tanto encabulado, gaguejou:
-  que, Jorge, no estamos bem financeiramente, sabe bem, devemos-lhe muito dinheiro. A colheita foi m e...
- Pedro, voc me faria um grande favor?
- Sim.
- Estou muito preocupado com a felicidade de todos daqui de casa. Sei que Carlota s ser feliz com voc; vou-lhe fazer uma proposta, se aceitar me ajudar muito. 
No acho justo receberem heranas os filhos homens e ficar a maior parte para o primognito. Para mim, todos os filhos so iguais. Joo e eu fizemos um trato, j 
que ele casa com Glorinha e eu com Marcina, ele fica com Santa Luzia e eu com Sant'Ana. E Carlota fica com o dinheiro de que dispomos. Darei a voc, Pedro, o resgate 
da dvida do seu pai e desvencilhe-se dele. No  o primognito, tem muitos irmos, separe-se deles e comece vida nova aqui na Fazenda Assombrada. Comprarei a antiga 
Fazenda Olhos d'Agua em seu nome, ser de vocs, moraro aqui, at que construamos uma casa para vocs, l.
- Eu! Jorge, no sei!
E LIBERTOS
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- Pedro, sabe bem que seu pai, jogando como joga, no ter condies de ajud-lo. Carlota est na idade de casar, sei o tanto que se amam, devem aceitar.
- Pedro, por favor, aceite, Jorge tem razo.
- Aceito! E agradeo-lhe de corao. Carlota abraou-me, feliz.
- Jorge, obrigado!
- Reparto e fao-o com justia. Ajud-los-ei a construir a fazenda, cedendo-lhes empregados e escravos, isto , se tratarem bem deles.
- Sempre pensei, Jorge, se um dia tivesse escravos, seriam bem tratados, viveriam como os daqui.
- Poder, Pedro, criar gado, pois l tem muita gua, e formar pastos ser fcil.
- Jorge, no tenho dinheiro e...
- Sei, Pedro, ajudarei vocs no comeo, e sei que logo estar cuidando de tudo.
Os dois se olhavam apaixonados, estavam felicssimos por poderem se casar logo; sa, deixei-os sozinhos, fui preparar-me para o jantar.
Mame veio tomar refeio conosco, por termos visitas. Carlota, toda feliz, contou da proposta que lhe fizera, e Glorinha indagou:
- Como  que voc, Jorge, comprar a Fazenda Assombrada se eles no a vendem? Os filhos do coronel prometeram a ele no a venderem enquanto ele for vivo!
- Pai Toms garantiu-me que o velho coronel morreu e que um dos filhos est vindo para c para vend-la.
- Pai Toms? - estranhou Glorinha. - Se ele diz... Mas, se no for?
- vou at eles, oferto bom dinheiro e compro. Depois, minha irmzinha. no duvido do que fala Pai Toms. Compraremos Olhos d'Agua.
Brindamos  felicidade deles. Mame sempre quis muito este casamento, brindou tambm, e uma ruga marcou-lhe a testa,
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
isto ocorria quando estava preocupada. Se queria morar com Carlota, no daria mais. j que eles morariam conosco algum tempo, deixando-a sem opo.
Logo aps a sobremesa, fiz um sinal a eles para sarem, para que ficasse a ss com minha me.
Saram rpido, evitando que mame fizesse o mesmo, ajoelhei-me ao seu lado, ela continuou sentada, deitei a cabea no seu colo, ela afastou-me, no desanimei.
Comecei falando da minha solido, to mocinho ainda, longe de casa, numa terra estranha, e o tanto que senti falta de todos. Falei dos meus planos de trabalho, dos 
meus sonhos em ajudar os negros, de morar na Corte, de casar com minha prometida. Da dor de saber da morte do meu pai, a tristeza de rever Jos morto, o medo da 
responsabilidade que me coube sem que a esperasse. Do desejo de proteger as terras e a famlia, e o terror de no o conseguir. E a vontade de fazer a felicidade 
das trs, pois eram o que restava da famlia. Falei que nunca me interessara por mulher alguma e que no me importei porque Jos se casara com Laurinda. Do interesse 
que senti em rever Marcina, do encontro em que ela me agradecera, da necessidade que senti em rev-la, indo aonde sabia que passeava e do amor forte que nascera, 
independente da nossa vontade. Mame escutava sem me dizer nada, colocara a cabea novamente em seu colo, e desta vez, no me afastara. E acabei por dizer:
- Mame, no quero que sofra, que pense em sair desta casa. Este  o seu lar, aqui foi feliz com papai, teve seus filhos e s deve sair daqui, quando morrer. Queria 
ter contado tudo  senhora, antes de oficializar o pedido de noivado, mas no tive coragem. No pensei, entretanto, que sofreria assim. Volto atrs, farei o que 
a senhora quiser. Preocupo-me com vocs, tenho a certeza de que Glorinha ser feliz com Joo, ele  excelente pessoa, e agora que ajudarei Pedro, Carlota estar 
muito bem. No quero a senhora magoada comigo. Se a senhora realmente quiser, desfao o noivado, Joo compreender.
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Estava usando, com minha me, de muita sinceridade, no queria me separar de Marcina mas no queria ver minha me infeliz. Tentava faz-la entender, continuei emocionado:
- Porm, mame, serei infeliz. No me casarei com ela nem com ningum, seremos dois solitrios nesta casa. Obedecerei  senhora, s que serei infeliz, amo Marcina, 
como nunca pensei em amar algum!
Mame passava a mo em minha cabea, alisando meus cabelos, senti que me perdoara.
- Jorge, meu filho, sou a grande culpada, sim, culpada por me sentir inferior, incapaz, de no ter assumido a chefia de tudo, por no saber. Regressou to feliz 
e encontrou tantos problemas: chegou, veio a saber da morte do Joaquim, que escondemos de voc, viu seu irmo morto, e no perguntei a voc o que queria, o que pretendia, 
mas coloquei tudo sobre sua responsabilidade. E to jovem, filho, ficou tanto tempo longe de casa e volta, tendo de assumir a chefia da famlia e com as ameaas 
que soframos. Joguei os problemas sobre voc, s pelo fato de ser homem. Perdoe me, filho, fui egosta, no pensei em voc, no pensei, no indaguei se era isto 
o que queria. Se lhe dei tantas responsabilidades, voc tem o direito de escolher sua companheira. No exigirei nenhum sacrifcio mais de voc, no posso. Quero 
que se case e que me d netos para continuar o nome da nossa famlia. Marcina no  a nora que escolheria, porm, aceito-a. Se voc fez tantos sacrifcios por ns, 
devo fazer este por voc. Quero-o feliz, esforarme-ei por esquecer o passado e tudo farei para ser amiga de sua noiva. Que casem os trs!
Mame soluou, abracei-a, beijei-a e choramos juntos, e eu disse emocionado:
- Obrigado mame, obrigado!
Senti-me bem mais tranqilo sem desavenas em minha casa.
Oito dias depois, veio um dos meus guardas avisar-me de que um dos filhos do coronel da Fazenda Assombrada estava na estrada. Sorri, contente, Pai Toms acertara.
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
- Convide-o para vir aqui. vou hosped-lo.
Serafim, assim se chamava o filho do dono da Fazenda vizinha; era agradvel, educado, aceitou de bom grado minha hospedagem. Aps alimentar-se, foi descansar.  
tarde, conversamos. Contou-me que o pai falecera com muito sofrimento, que ele e os outros dois irmos no tinham planos para voltar ao antigo lar, que tantas recordaes 
dolorosas lhes traziam e que tinham eles se estabelecido na Capital da provncia. E foi com alegria que escutei:
- Vim para vender estas terras.
Ofereci um bom preo pela fazenda. Ele sorriu, satisfeito, aceitando sem hesitar. Trs dias depois, partiu e a Fazenda Assombrada era de Pedro.
Mandei avisar Pai Toms. Manuel disse que ele s comentou:
"Assim tinha que ser!"
Marcina e Joo visitaram-nos; minha noiva ficara acanhada, temia minha me, mas d. Catarina cumpriu o que me prometera, tratou os dois irmos bem, deixando Marcina 
muito feliz. Tive a certeza de que logo seriam amigas. S que mame deixou bem claro que, enquanto o Coronel Francisco vivesse, ela no iria na Santa Luzia e, se 
Glorinha quisesse v-la, teria que vir a sua casa.
Glorinha ainda andava armada, era geniosa, mandona. Joo era simples, no gostava de armas, e em pouco tempo tornou-se lder em suas terras; trabalhava junto com 
os empregados e os escravos, todos o amavam. Comentei com minha irm:
- Glorinha, no  melhor voc no usar mais armas? Ningum anda armado em Santa Luzia!
- vou deixar de andar com a arma na cintura, porm no me desfarei dela, terei uma sempre ao meu alcance, j disse isto a Joo, ele concordou, ns nos amamos e respeitamos 
o modo de ser um do outro.
Ficou olhando-me, e pelo que conhecia dela, minha irm queria-me pedir algo. Que quer, menina? CATIVOS E LIBERTOS
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- Jorge, voc  to bom, que me acanho em pedir-lhe, mas  que desejo Brbara para mim, queria que fosse morar comigo. Gosto tanto dela!
- S isto? Claro, Glorinha, se ela quiser ir, pode lev-la.
- Obrigada.
Deu-me um estalado beijo no rosto e saiu correndo. Olhei-a pela janela, foi encontrar-se com Brbara, vi minha irm contarlhe a novidade e as duas se abraaram felizes. 
Para muitos, seria estranho tanto carinho entre as duas. Uma sinh, branca, filha de senhores de escravos e outra, negra, escrava. No era segredo para mim, tinha 
a certeza de que o afeto entre as duas era sincero, antigo, eram espritos amigos de outras existncias.
O Coronel Francisco no melhorava; logo acabou a curiosidade sobre ele, como tambm as visitas. Marcina contou-lhe tudo que acontecera, inclusive a morte de Lucas, 
e lgrimas correram pelo seu rosto. Logo, porm, seus olhos brilharam de dio quando ela contou como ela e Joo estavam conduzindo a fazenda e falou dos casamentos.
O Coronel Gervsio, quando soube do casamento do Joo, veio confirmar. Desta vez Joo recebeu-o com frieza, deixou que visse seu pai. Com a afirmativa de Joo, ele 
entregou o anel de noivado dado por Lucas  sua filha e partiu demonstrando seu desagrado. Marcina ficou contente em recuperar o anel que fora presente de sua me.
Pela redondeza, no se falava em outra coisa, seno na reconstruo da Fazenda Assombrada, na felicidade dos escravos de Santa Luzia e nos casamentos.
E os preparativos foram feitos com muito amor. As noivas confeccionavam seus vestidos e mame acabou ajudando. A cerimnia seria simples, devido ao luto de Joo 
e Marcina. Haveria festa somente para os empregados e escravos das trs fazendas.
Aguardei ansioso o dia do consrcio. Captulo XIV OS CASAMENTOSDois dias antes dos casamentos, fomos para a casa da vila. As amigas de mame e das meninas, curiosas, 
foram em casa; recebemos visitas sem parar.
No dia, todos estvamos nervosos; Joo e Marcina tinham ido tambm para a casa da vila. No vira Marcina, mame, acreditando que dava azar, no me deixou ir v-la, 
nem que os noivos viessem visitar minhas irms. Trocamo-nos mais cedo e mame ajudava minhas irms. Na hora marcada, fomos para a igreja, meu corao saltava no 
peito de felicidade e sorria sem parar.
Encontramo-nos na porta da igreja. Marcina estava muito bonita, olhvamo-nos apaixonados. Joo entrou com ela, e eu com minhas irms, Carlota de um lado e Glorinha 
do outro. No altar, Pedro veio buscar Carlota, e Joo e eu trocamos de acompanhante: entregamos nossas irms e recebemos nossas esposas. Estvamos os seis muito 
felizes, amvamos. At o vigrio no me pareceu to antiptico. Quando a cerimnia acabou, foi que notei que a igreja estava cheia, todos os habitantes da vila vieram 
para assistir aos casamentos.
Carlota e Pedro ficaram na vila, permaneceriam l uns dias. Joo e Glorinha passariam uns dois dias na casa deles, na vila, depois iriam para a fazenda. Mame foi 
passar um ms na casa de uma sobrinha na vila vizinha e Marcina e eu fomos para a fazenda. A festa foi animada; os empregados, os escravos, passaram a noite cantando 
e danando.
Senti-me muito feliz.
O tempo passou.
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Mame e Marcina tornaram-se amigas, e d. Catarina nunca mais pensou em sair de casa. As duas faziam muita caridade. Como no gostavam de dar esmolas para a igreja, 
passaram a fazer elas prprias obras sociais: sustentavam famlias pobres, confeccionavam roupas, separavam alimentos do nosso celeiro e os distribuam, ajudando 
a muitos.
Nunca discutiram, no falavam do passado, mame no ia  Santa Luzia, porm nada dizia por Marcina ir, e minha esposa nada comentava dessas visitas.
Laurinda casara-se com um bom rapaz, pareciam estar bem, s que no tinham filhos e mame comentava: "Se Jorge tivesse casado com ela, no tinha me dado netos". 
Tnhamos, Marcina e eu. seis filhos, sendo os dois mais velhos, homens, que receberam o nome do meu pai e do meu irmo, Joaquim e Jos. para alegria de minha me.
Maria, a negra parteira, morrera, mas continuava ajudando a ns todos. Por duas vezes tinha-a visto envolta de muita luz, parecia-me radiante e seu esprito continuou 
auxiliando a todos que lhe pediam. Todos na fazenda diziam que era uma santa que, em nome de Jesus, ajudava a quem sofria. Para mim, Maria aprendeu nesta encarnao, 
nesta existncia, a ter humildade, resgatou suas dvidas fazendo o bem; tendo o corpo morto, sentiu-se livre, e teve a liberdade merecida. No plano espiritual muitas 
vezes continuamos a fazer o que amvamos, o que fazamos com amor na Terra. Assim, continuou a fazer o bem. a ajudar os que sofrem no corpo.
Pai Toms continuava morando na sua humilde casa. Pedro insistira com ele para que fosse morar perto da sede, numa casa melhor, mas ele agradeceu e no aceitou. 
Dizia que gostava dali e que era mais do que merecia. Parecia o mesmo de anos atrs, e a nica diferena foi que o corpo curvara-se um pouco para a frente e alguns 
cabelos branqueavam. Atendia muitas pessoas, da vila, da redondeza, receitava seus remdios de ervas, benzia, era querido por todos e estava sempre feliz. Nunca 
fora nos visitar, no saa
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS de sua casinha, s se fosse para visitar algum doente grave. Ia sempre conversar com ele, trocar idias, e ele 
com seu modo simples elucidava-me. Falava das verdades das coisas simples, da religio dos seus ancestrais e dos ensinamentos de Jesus. Ensinos estes que foram esquecidos 
pelos homens na ambio de possuir o mundo, os bens materiais: haviam colocado em segundo plano o Reino dos Cus.
A Fazenda Boa Esperana, antiga Fazenda Assombrada, modificara-se, no se viam ali mais espritos, e os fantasmas ficaram s na histria. Pedro fizera uma fazenda 
de criao de gado, e prosperava. Moraram conosco mais de um ano, depois que se casaram; construmos uma sede muito bonita perto da divisa, ficando prxima da nossa 
casa. Reconstruram a fazenda, eram felizes.
Estamos novamente em janeiro, era mais um aniversrio da morte de Jos. do meu regresso. Marcina, logo aps o almoo, disse-me que ia visitar o pai, e resolvi ir 
junto. Fomos na charrete, as crianas iam atrs em algazarra. Raramente acompanhava Marcina nas suas visitas ao pai e  irm, e se a acompanhava ia para a casa de 
Glorinha. Joo construra outra casa para eles, menor, mas confortvel, perto da outra, num lugar mais alto. Da fazenda Morro Vermelho, s a casa velha ficara, tudo 
se modificou com a fazenda Santa Luzia. Joo prosperava, os escravos viviam bem, era um lugar de fartura e bem-estar.
Ao chegarmos, Tamira veio encontrar-se conosco, toda contente, ela adorava os sobrinhos, seis, nossos filhos e dez de Joo. Estava mais feia ainda, gorda e desajeitada, 
mas era feliz, estava sempre rindo. Quando casamos, deixei Marcina  vontade para lev-la conosco. Tamira no saa de casa, no gostava de ir a lugar nenhum e, se 
tentassem tir-la, gritava, sapateava e chorava desesperada. Andava por perto da casa no ptio, no pomar, mas bastava falar que a levaramos a outro lugar para ela 
se desesperar pedindo para no ir. Joo e Marcina combinaram que tudo fariam para que a irmzinha doente fosse feliz, que ningum iria ter
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vergonha dela e que sua vontade, dentro dos limites, seria respeitada. Assim, ficou morando na casa antiga, com o pai enfermo e com as negras a cuidarem deles.
Ajudava Marcina a descer, quando uma das amas veio dizendo:
- Sinh Marcina, Tamira est muito inquieta. Hoje cedo, sem que vssemos, ela pegou o prato de mingau e deu ao sinh seu pai, sujando-o todo.
- Falarei com ela - disse minha esposa se aborrecendo.
Tamira j rolava pela grama com meus filhos. Adorava brincar, estava sempre se divertindo com os negrinhos da fazenda, sujava-se muito, tinha boa sade e me parecia 
muito bem.
Deixei-os e fui para a casa de minha irm, Joo sara e Glorinha estava muito ocupada. Joo e minha irm eram felizes, pareciam dois namorados rodeados de filhos, 
o lar deles era muito agradvel. Para no incomodar, voltei para a antiga sede, sentei-me na varanda. Escutei as crianas rindo, brincavam no pomar.
Lembrei-me da ltima vez que estivera naquela casa, fora logo aps meu casamento, quando viera visitar o Coronel Francisco. Estava um tanto constrangido, entrei 
nos aposentos do meu sogro inquieto e este, ao me ver, estremecera, suava, seus olhos crisparam-se de dio. Sa rpido do quarto. Marcina foi acalm-lo e fiquei 
esperando-a na sala. aborrecido por sentir-me to odiado. Foi a que vi os espritos de cinco negros. Fiquei arrepiado, no consegui me mover, e paralisado, senti 
muito medo. Estavam machucados, sangravam, estavam juntos, era uma viso assustadora, pararam na minha frente, olhavam-me, ficando a alguns metros de distncia. 
Um deles me disse:
"Sinhozinho Jorge, no queremos lhe fazer mal, queremos bem o sinh pelo modo que trata nossos irmos, os negros escravos. Temos respeito ao sinh. Nada tem a temer 
de ns, mas  melhor no se meter onde no  chamado, no interferir na nossa vingana. Porque o sinh se preocupa com este monstro? Ele o odeia tanto como a ns, 
se ele pudesse matava-o como fez ao sinhozinho seu irmo e a tantos outros. Deixe-nos em paz!"
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
Estava do mesmo modo, quis falar, meus lbios no obedeceram, pensei: "Sofrem tambm, esto feridos, ser que esta vingana lhes faz algo que os ajude?"
O mesmo negro sorriu e falou:
"O sinh  bom em ter pena de ns. Sofremos, sim. V minhas costas?" - virou por segundos, suas costas sangravam com sinais de chicotadas. "Di, sinto dores, prefiro 
senti-las e fazer este diabo sofrer, pois no d para esquecer. Aqui vm uns homens, dizem ser socorristas, aconselhar-nos a perdoar para sermos curados e para termos 
paz, porm no queremos, cada sofrimento deste maldito  pouco para ns. Sofremos, mas nos vingamos. Estamos aqui e daqui no sairemos, no fazemos mal a quem no 
merece. Ao sinhozinho Joo e  sinh Glorinha at servimos. Somos em muitos, nos repartimos: uns tomam conta do peste do sinh Chico e outros do sinh Lucas. O sinhozinho 
nos v,  melhor no voltar aqui e no interferir nas nossas vidas!"
Ainda tive coragem e indaguei:
"O coronel j no sofre, invlido como est? No existe Deus para castigar?"
"Deus existe, mas Ele no se importa em castigar, resolvemos castig-lo ns mesmos. Tudo o que o Coronel Francisco sofrer,  pouco. J avisamos o sinh, no se meta!"
Sumiram e permaneci imvel, suando, fui me acalmando e comecei a orar. pedindo a Jesus proteo. Foi Joo quem me tirou daquele torpor:
- Vem Jorge, vem para a cozinha, Brbara preparou-nos um cafezinho especial.
- Sinhozinho Jorge, que tem? Est branco! - disse-me Brbara.
- Nada, no sei - respondi.
-  esta casa, ainda bem que a nova logo ficar pronta, no gosto daqui, parece-me cheia de fantasmas, at falei com Pai Toms.
- ? E o que ele disse?
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- Para no interferir em assunto que no seja meu. Nada que tem aqui nos far mal.
Desde este dia, no voltei mais a ver o Coronel Francisco. Nestes anos todos, meu sogro estava do mesmo jeito, paraltico, s mexia um pouco com a cabea e com os 
olhos, no falou mais.
Nunca mais vira os negros obsessores. orava sempre por eles para que perdoassem o coronel. Nas reunies evanglicas que continuvamos fazendo uma vez por semana, 
orvamos por eles.
Pensava sempre no que Jesus nos recomendou, que perdossemos sempre, o perdo nos d paz; no perdoar  acarretar sofrimentos. Querer vingar  fazer sofrer e padecer 
junto. Pensava com certa ansiedade no coronel e nos filhos mortos, com aqueles espritos como companheiros, com eles cobrando o que lhes achava devido. Todos cativos. 
Uns por terem feito tanto mal, ligaram-se s trevas, e os outros cativos pelo dio, negando se libertarem pelo amor, pelo perdo, no esquecendo do mal que lhes 
fizeram. Deu-me vontade de ver meu sogro, naquele momento. Entrei na casa e, no "hall" de entrada, escutei Marcina lendo o Evangelho. Ela lia sempre para o pai, 
falava a ele com doura e carinho dos ensinos de Jesus. Marcina parou de ler ao me ver. Tirei o chapu, aproximei-me devagar, fiquei na frente do meu sogro. Encaramo-nos. 
Ele no demonstrou nenhum sinal de repulsa. Marcina falou entusiasmada:
- Papai, Jorge  to bom marido, me faz to feliz! O senhor sente isto, no ? Percebe que sou feliz. Ele  bom, amigo, todos gostam dele e...  pai dos seus netos!
No vi nenhum obsessor por ali: ou haviam se cansado ou afastaram-se com nossa presena, com a leitura do Evangelho. Orei mentalmente ao Pai para que ajudasse a 
todos a perdoarem. E, lembrando que, em todo ensino, a melhor forma de faz-lo  dando o exemplo, disse com simplicidade:
- Coronel Francisco, sou seu genro, Marcina e eu somos felizes, temos lindos filhos, estou muito bem. Nunca quis brigas com o senhor, no gosto de desavenas, no 
as tenho com
204 VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS ningum. Sou amigo de todas as pessoas da redondeza. Por que no esquecemos o passado, tantas coisas ruins 
e fazemos amizade?
O Coronel Francisco estava velho, cabea totalmente branca, plido, semblante cansado, muito enrugado, pois muitos anos fazia que estava entre o leito e a cadeira, 
sempre necessitando de que outros o transportassem, tendo por companhia a filha que desprezara tanto e os negros a lhe servir, negros que odiara tanto. Senti que 
tudo isto modificara-o.
Ele esforou-se, afirmou levemente a cabea, seus olhos piscaram muitas vezes. Marcina sorriu, contente, era o que sempre queria, que fizssemos amizade, e falou 
alto:
- Jorge, ele aceita, este  o seu sinal de sim, ele quer ser seu amigo!
Marcina deu-me um estalado beijo no rosto, senti-me satisfeito, aproximei mais dele, coloquei a mo no seu ombro, e disselhe baixinho:
- Devemos nos aceitar, Coronel. Peo-lhe perdo se fiz algo que lhe desagradou e perdo o mal que nos fez. H muito tempo, meu sogro, ns j o perdoamos. Sabemos 
que mandou matar Jos, meu irmo. Vamos esquecer as mgoas, devemos perdoar e tambm ser humildes e pedir perdo, pea perdo a Deus e tambm a quem ofendeu.
Olhou-me demoradamente, seu olhar j no era to duro, j no tinha dio. Sentamos e Marcina continuou a ler o Evangelho, a Parbola dos Talentos.
Quando acabou, Marcina pediu-me que fizesse a orao de encerramento e a fiz, comovido:
- Deus, nosso Pai, agradecemos todos os benefcios que recebemos. Hoje, quero agradecer especialmente por ter feito amizade com meu sogro e permita Senhor que nos 
tornemos amigos por todo o sempre. Agradeo a oportunidade que nos d com o corao, esta fora maravilhosa que tanto bem nos faz. Ajudando a sermos humildes e a 
aceitarmos os sofrimentos do corpo
CATIVOS E LIBERTOS 205 como remdio  nossa alma enferma. Ajuda-nos a ter paz e a viver os ensinos que, com exemplos. Jesus nos deixou. Amm! Pai. Despedimo-nos 
ffomos embora, estava me sentindo muito bem, feliz. Lembrei do que Jesus dissera: Se est para fazer sua oferta, sua orao ao Pai, lembre se tem algo contra seu 
irmo, vai primeiro at ele, reconcilie, depois volte afazer sua oferta, sua orao.
Meus filhos, atrs da charrete, cantavam felizes, eram lindos, sbios, observei-os, minha caulinha, minha doce Ambrosina, estava com o rosto todo sujo de manga, 
rindo para mim toda contente, eu os amava demais. Encontramos com trs camponeses que vinham em sentido contrrio, pararam  margem da estrada, tiraram o chapu 
e cumprimentaram-me:
- Boa-tarde, Coronel Castro, que Deus o proteja e  sua famlia.
Parei a charrete, tirei o chapu e respondi gentilmente:
- Boa-tarde, senhores, que Deus os proteja tambm. Sorriram contentes, senti neles a satisfao de receber ateno de algum, para eles to importante naquelas terras.
Tornara-me importante, realmente. Quando dei dinheiro a Carlota, ficara somente com Sant'Ana, que logo progrediu, tinha colheitas fartas, comprava mais terras, vivamos 
todos com abundncia. Tinha muito dinheiro que emprestava sempre. Andava sempre com a garrucha que trouxera de presente ao meu pai, e alguns dos meus empregados 
usavam armas. Saa sempre com Tio e Samuel e estes sempre bem armados. Nunca usamos as armas, nem para nos defender, graas a Deus. s vezes, treinvamos no ptio 
da fazenda, como distrao.
Do alto da estrada, avistei as trs fazendas, a divisa delas no rio. Tudo to bonito! No era  toa que chamavam as trs fazendas, de Tringulo da Felicidade. Olhar 
tudo, dava-me paz, tranqilidade.
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VERA LCIA MARNZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
Era respeitado por toda a redondeza, e sempre convidado para entrar na poltica, mas no aceitava; poltico nem sempre agrada a todos e no queria desavenas com 
ningum. Do meu antigo sonho, ser um abolicionista, pouco ficara. Meus escravos viviam muito bem, eram colonos. O que fazia por eles, negros, era comprar mais do 
que necessitava, unir famlias separadas. Dava tambm dinheiro a dois amigos de uma famlia da vila, que moravam na capital da provncia, para que eles promovessem 
fugas e para que comprassem escravos mal tratados para libert-los.
Como tinha muito dinheiro, era rico, usava meu prestgio junto a outros senhores de escravos para que os tratassem bem. E com o delegado, para que no os perseguisse. 
Embora a contragosto, muitos no ousavam desagradar-me.
Muitas vezes fugitivos apareciam nas minhas terras. Manuel escondia-os com minha permisso e ia at seu senhor para compr-los e s vezes trazia toda a famlia. 
Nunca me foi negada uma compra, eu era importante demais para que me desagradassem. Se o escravo fosse bom, ficava conosco, se fosse ruim, deixava-o ir embora.
Olhando da estrada a beleza dos campos e das plantaes, sentindo a bonana que ali reinava, recordei o que Pai Toms sempre me dizia:
"Sinhozinho Jorge nada tem, essa  a verdade, porque nada disto que desfruta, que o mundo acha que  do sinh,  realmente seu. Tudo  de Deus, do Pai, tudo a Ele 
pertence, at ns. Pode Ele nos emprestar por algum tempo e fazer-nos assim seus administradores. Deve o sinhozinho conscientizar-se bem disto e administrar, somente. 
Veio nesta existncia para administrar esta parte to pequena da Terra. Seja sbio! Como o sinhozinho  bom, administre com sabedoria e amor. sem se deixar prender 
a ela, sem se iludir pensando que lhe pertence". E a leitura que Marcina fizera ao pai enfermo, deixou-me com mais argumentos para meditar. No deveria esconder 
o talento que recebera na Terra, como um avarento; tinha o dever de multiplic-lo em benefcio de muitos. No era
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fcil ter poder, riqueza material e ser livre, no sendo escravo dela. A riqueza de bens materiais  uma prova difcil, de que Jesus nos alertou dizendo que no 
era fcil um rico entrar no Reino dos Cus, e que o perigo estava em mais amar o reino da Terra do que o Reino dos Cus. No podemos servir a Deus e a Mamon. Devemos 
servir s ao Pai Santssimo, porque os bens materiais so para nos servirem, devemos administr-los e us-los para o bem estar do maior nmero de pessoas. Essa minha 
meta era tambm minha luta interna, s administrar e no ficar cativo pelo poder, pela riqueza material!
Renascer no corpo, crescer em esprito, aprender com as oportunidades que nos so oferecidas e libertar-nos, tornando-nos livres do mundo material, para estarmos 
aptos ao mundo espiritual. Este deve ser o objetivo do homem na Terra!
